Duas ou três coisas que O Economista Português sabe sobre as negociações em curso para o governo de esquerdas

O noticiário sobre as negociações para a formação de um governo de esquerdas provoca algumas reflexões.

ÁrvoreDasPatacas

  • Para enriquecer, basta abanar a árvore das patacas

Tal como o famoso e ingénuo emigrante português no Brasil, a classe política de esquerda acredita que basta abanarmos a árvore das patacas para enriquecer. SE não, não aprovaria o aumento do IRS sobre os dividendos, pois saberia que assim repele o capital, indispensável ao investimento, e sem o qual não há crescimento económico;

MilagreDasRosas

  • Coelho empobreceu o país e Costa realizará o milagre das rosas

Coelho empobreceu Portugal, foi a propaganda eleitoral unânime das esquerdas que procuram agora unir-se em torno do orçamento e, esperamo-lo, do futuro do nosso país; se o empobreceu, onde irá o governo (de esquerdas ou qualquer outro) buscar  toda a riqueza cuja redistribuição nos é prometida ? A resposta é: não é possível, as negociações estão a aumentar as expetativas sem terem meios de as satisfazer; resta-nos contar com o regresso da Rainha Santa à política ativa;

Salário mínimo Bloco

  • A classe política não percebe a triste figura das negociações

Referimo-nos sobretudo aos números de teatro de revista protagonizados pela Srª Dona Catarina Martins. Quem os viu, sabe que os artistas seus autores não estão em condições de governar. Mas, seja devido à célebre disciplina partidária, seja por qualquer outra razão, os políticos não percebem a descredibilização que já lançaram sobre esse eventual governo.

4 responses to “Duas ou três coisas que O Economista Português sabe sobre as negociações em curso para o governo de esquerdas

  1. Sabe caro colega, tirei o curso na universidade católica um bastião do neo conservadorismo fortíssimo, naquelas paredes Friedman é deus os outros pouco mais que santos menores e keynes é o demónio. Quando leio que nada se pode fazer e que o empobrecer é inevitável, que não se pode subir impostos aos ricos pq isso causa desemprego e que os mercados resolvem tudo ocorre me duas coisas: 1) sendo assim a economia é uma ciência inútil pois basta deixar os mercados funcionar, o melhor é não tentar nada e tirarmos outro curso um que seja útil a alguém. 2) desregulação total da economia é o regresso ao sec XVIII e XIX em que pela novidade da nova ordem económica (revolução burguesa e industrial) não existiam regras de controlo e os bancos faliam semanalmente, as guerras na europa eram ocorrências normais e as revoluções sociais e politicas resultantes das condições económicas tornaram-se inevitáveis levando a duas guerras mundiais a fascismo a comunismo entre outros ismos e outras guerras.
    Por tudo isto a trágico comédia humana entristece-me, eu por mim faço a minha parte não comprando no Pingo doce porque não me apetece pagar as reformas dos velhos holandeses.
    Tudo isto para lhe dizer que ou nós economistas nos deixamos da conversa da desregulação total/os mercados é que mandam/os ricos precisam de pagar menos impostos ou vamos ser culpados pelas próximas guerras sejam armadas ou ideológicas e seremos reduzidos á insignificância da nossa mediocridade inútil.

  2. O Economista Português agradece o comentário mas tem que o in formar que o enviou para o endereço errado. Por isso, O Economista Português permite-se esclarecer que não defende uma teoria económica neoliberal, o que é provado pelos milhares de posts já publicados. Defende um governo de união sagrada com capacidade para nos defender face aos nossos credores e para encetar reformas sérias da economia, com sentido social, Mas não invoca o santo nome de Keynes em vão: não há keynesianismo num só país. Vimos como o governo do Engº Sócrates o que deu o keynesianismo num só país: crescimento económico próximo do zero, défice de pagamentos externos, pedido de resgate. Intervencionismo económico só para criar excedente, não para criar desemprego. Sem pretender intervir na escolha de supermercados: o leitor e colega tem a certeza que a cadeia de supermercados por si mencionada é a única que financia reformados holandeses?

  3. Caro Luís Salgado de Matos,

    Sou de esquerda e não acredito na árvore das patacas. A atração de capital depende de inúmeros factores. Não me parece que a tributação dos dividendos seja o mais importante (colocava a justiça em primeiro lugar). É tudo uma questão de grau nessa tributação e da utilização desse capital. É sempre a mesma questão. O capital tem várias formas. Se a preferência pela liquidez prevalecer, o que temos é a atração de capital especulativo, que até instituições insuspeitas como o FMI começam a colocar reservas.

    O investimento está em queda há muito, com desagravamentos fiscais para as empresas. Há muito problemas que afetam o investimento, nomeadamente o endividamento das empresas não financeiras e as debilidades do nosso sistema financeiro.

    Depende de que redistribuição se está a falar. Por exemplo, a distribuição primária do rendimento, do trabalho para o capital, nos últimos anos não se traduziu em mais crescimento económico. Mais uma vez, é tudo uma questão de grau e de modo. A redistribuição pode ter efeitos estruturais muito positivos. Basta pensar na educação e na melhoria do capital humano.

    Não aprecio particularmente o BE. No entanto, a coreografia das negociações políticas deixa muito a desejar e a culpa não é somente do BE. Basta pensar na inenarrável negociação entre o PS e a coligação, sob o alto patrocínio do Presidente da República, a meio do mandato anterior.

    Enfim, gosto de o ler. Comentei pela segunda vez um texto seu. Muitas vezes concordo consigo. Desta vez, discordo. Mas este texto é um pouco diferente de muitos que aqui vai escrevendo. É mais sentido. É mais pessoal. É mais do Luís Salgado de Matos e menos do Economista Português em maiúsculas.

    Respeitosos cumprimentos.

  4. O Economista Português agradece o seu comentário. E esclarece que, a propósito da tributação dos dividendos, comentava apenas uma medida avulsa, que o PS anunciou de forma avulsa, e não a panóplia de medidas para atrair capital; quando há competência, é possível aumentar a taxa de IRS e aumentar aumentar simultaneamente o investimento mas, a avaliar pelas notícias fugadas para a comunicação social, a competência não sobra. Veremos, se e quando houver acordo. O programa do PS, diga-se de passagem, passa à margem destas questões. Como o prezado comentador sabe, o FMI aboliu a fiscalização dos capitais a curto prazo, por onde passam os chamados especulativos, e em climas mais quentes teve que admitir o controle deles. A redistribuição é em linhas gerais o que passa pelo Orçamento do Estado. Será que foi muito o que o orçamento do Estado português redistribuiu contra o trabalho? O Economista Português duvida, até ver as contas. Relembremos o que o comentador d’ O Economista Português escreve a finalizar: «Mas este texto é um pouco diferente de muitos que aqui vai escrevendo. É mais sentido. É mais pessoal». Deixe o comentador que a resposta a este vocativo seja dada por Fernando Pessoa: «O que em mim sente, está pensando».