«Programa» de Governo de Esquerdas adia a Revolução e não alcança a Credibilidade financeira

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O Dr. Centeno, num travesti de Rainha Santa,  consultando  a sua célebre bola de cristal, a pedido dos miseráveis e face ao soberano

O chamado programa de governo do PS – na verdade autointitulado «lista de medidas acordadas» – aumenta as despesas, diminui as receitas (exceto a do IRS dos ricos e a resultante do restabelecimento do imposto sobre heranças), proíbe o fim do contrato de trabalho por acordo mútuo, retira a prometida abolição da TSU dos empresários (a sua única medida que promoveria o crescimento económico), aumenta o salário mínimo cerca de quatro vezes mais do que a produtividade, inicia a caça aos «falsos» recibos verdes (que falsidade será essa?), reverte as privatizações em curso, reforça os meios do Serviço Nacional de Saúde, reduz e anula as taxas moderadoras, transforma os doutorados em funcionários públicos, garante o jardim infantil aos maiores de três anos, reduz o tamanho das turmas e  com tudo isto e mais alguma coisa consegue o milagre de diminuir ao mesmo tempo o défice do orçamento do Estado e a dívida pública.

É o milagre das rosas, no qual a Rainha Santa é substituída pela célebre folha de Excel do Dr. Centeno, que produz estas maravilhas; infelizmente, a folha continua secreta e por isso só os hiper devotos acreditam nos seus milagres. O conselho nacional do Partido Socialista votou o programa de governo sem ver essas contas – e sem conhecer o «acordo político», que aliás continua a não ser público no momento em que são escritas estas linhas. Menos crédulo que os vogais desse ilustre e anónimo areópago, O Economista Português, tal como São Tomé, só acredita em tão miraculosos resultados depois de ver o dinheiro em cima da mesa: lembra-se da folha de Excel do Prof. Fernando Teixeira dos Santos, agente financeiro do Engº Sócrates, que resolvia todos os problemas do défice do Estado aumentando fantasiosamente a previsão da taxa de crescimento do PIB e nessa base incrementando a dívida aos nossos credores externos – até que tirou o tapete ao engº Sócrates, obrigado-o a desdizer-se e a pedir ajuda a Bruxelas, pois já escasseavam os euros na praça e no MultiBanco.

O programa do governo desiste por completo de aumentar o PIB e de enfrentar o capitalismo estrangeiro, quem avia as contas é o capital nacional, que tem que pagar mais impostos e aumentos de salários. Renegociar a dívida? Reestrutura a dívida, como o Engº Cravinho propunha no tempo do Dr. Passos Coelho? Ninguém fala nisso. O Bloco de Esquerda meteu a viola no saco e o PCP na cartola.

O único processo para aumentar as receitas será o aumento do IRS, já que o PS aceitou a proibição de privatizar que o E e o PCP  lhe impuseram. O Dr. Passos Coelho já tratou o leitor de milionário. Onde começará o Dr. Costa a tratar os portugueses como milionários? No escalão de educador infantil? Aguardemos que mais esse segredo seja revelado.

É impossível quantificar a maioria destes benesses, pois muitos deles são apresentados de modo discricionário. O Economista Português contabilizou as 50 medidas anunciadas consoante aumentam a receita, aumentam a despesa, diminuem a receita ou diminuem a produtividade. Nenhuma aumenta o produto (exceto e eventualmente o incentivo ao sobreiro). Apenas três aumentam a receita e duas delas em quantias insignificantes (eliminação do quociente familiar e diminuição das facilidades em IRC). Dezasseis aumentam a despesa (cada lóbi da coligação tem a sua ou as suas). Treze diminuem a receita.Oito diminuem a produtividade. É desconhecido o efeito financeiro de dez medidas. No final do presente post, uma tabela elenca as cinquenta medidas e e respetiva classificação do ponto de vista financeiro e em certa medida social.

O programa foi elaborado para agradar aos nossos credores e não para concretizar a revolução proletária nem para desencravar Portugal; trata-se apenas de aumentar o consumo interno; como dissemos,  ficaram para trás os sonhos reestruturadores da dívida alimentados pelo Engº Cravinho; as farroncas revolucionárias do Bloco de Esquerda e do PCP dissolveram-se em bem pouco, o que só surpreenderá quem quiser ser surpreendido; no programa, as únicas medidas realmente nefastas aos portugueses são ao aumento incomportável do salário mínimo e a tentativa de engessar a situação laboral.

Contudo o programa parece perigoso não só pelos riscos financeiros mas também e sobretudo pela dinâmica social que não pode deixar de gerar. Com ele, o governo aumenta as expetativas de redistribuição de rendimentos. Voltamos à política do tempo do engº Guterres quando havia sempre qualquer «coisinha» para qualquer grupo de pressão que berrasse o suficiente. O governo prometerá agora aumentar um «poucochinho» para todos, na palavra imorredoira da SemiPasionaria Catarina Martins. Só que passámos das vacas gordas para as magras. Em que base recusará aumentar os salários do setor público de transportes, onde reside hoje a força da CGTP? O governo de esquerdas diminui o IVA para manter bem dispostos os patrões da restauração e não tem dinheiro para aumentar os vencimentos dos pobres ferroviários, dos infelizes estivadores, dos famélicos trabalhadores da Transtejo, dos paupérrimos empregados da TAP, etc? Alguém acredita na verosimilhança da dinâmica social «bem comportada» de que o governo de esquerdas precisa para sobreviver?

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Se quiser ler o chamado programa de governo do PS, vá a

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One response to “«Programa» de Governo de Esquerdas adia a Revolução e não alcança a Credibilidade financeira

  1. O Economista português partilha de seguida um comentário que lhe foi enviado por um leitor:
    «Em conformidade com o que afirma, tenho pena que as nossas «esquerdas» ainda não ultrapassaram o «esquerdismo doença infantil do comunismo» denunciado há muito, salvo erro, pelo próprio Lenine. Neste momento vivemos, sem derramamento de sangue, a teatrizaçao da revolução soviética: tudo parece acontecer, entre nós, como se o mundo e o próprio marxismo não tivessem evoluído e como se nos pudéssemos limitar a impor estereótipos de há um século. Significativamente, entre os nossos auto-proclamados militantes de «esquerda» figuram muitos ex-jovens de 1974/75 que, por razões diversas, não amadureceram e reforçam a imaturidade dos jovens atuais.
    «Tenho muito receio de que os extremismos da política atual façam o jogo – sejam verdadeiros aliados – de outros extremismos em alta neste momento: o fundamentalismo religioso, a extrema direita, o capitalismo puro e duro… Infelizmente, a simbologia do «milagre das rosas» não se está a traduzir, hoje, na corresponsabilidade para a erradicação da pobreza, numa sociedade fraterna, mas na reprodução do assistencialimo negativo, em moldes supostamente progressistas.»
    O Economista Português permite-se acrescentar que o «programa» do governo destas esquerdas ignora as Misericórdias, as IPSS e tu do o que seja «sociedade civil»; para estas esquerdas, apenas existe Estado, a instituição organizada à volta da mesa do orçamento; as empresas privadas são tratadas como repartições públicas e por isso lhes dão ordens (mal disfarçadas de concertação social) para subirem o salário mínimo, como se o valor do salário dependesse de uma ordem. É a economia leninista de comando central, retomada em dó menor e num Estado que se afigura jacobino.