A primeira Racha na bola de Cristal do Dr. Centeno revela a Fantasia do seu Modelo macro

BolaDeCristalO Doutor Centeno possui uma folha de Excel, também conhecida por bola de cristal, ou mesmo por modelo macro, que muito tranquiliza o Dr. António Costa. Ora aquela folha abriu sexta feira passada a primeira racha: o mago socialista das finanças tinha dito ao Financial Times que prosseguiria a política de contenção do défice, só que mais devagar, e, depois da aliança para o governo de esquerda, anunciou triunfante que ela teria por efeito que o défice se reduziria ainda mais depressa. As duas frases são obviamente contraditórias: acelerar a redução do défice é o contrário de desacelerar a redução o défice.
O leitor será talvez mais sensível a outra contradição destas últimas declarações do Doutor Centeno: aumenta as despesas (para agradar a duas esquerdas), corta as receitas (para agradar a Bruxelas) e diminui o défice. O resultado lógico das premissas seria aumentar o défice. O modelo do Dr Centeno (a folha de Excel ou bola de Cristal) dá um resultado contra intuitivo: devia aumentar o défice mas diminui-o. Porquê?
A racha na bola de cristal do Doutor Centeno explica o erro do seu modelo e responde a este porquê. No PS, entre os sócios que não depositaram a cabeça no bengaleiro, há quem suponha que esse erro consiste na manipulação da taxa do crescimento do PIB, em função da berraria da Srª Dona Catarina Martins e do olhar melancólico do Sr. Jerónimo de Sousa. A racha mostra que ele manipula a sua folha de Excel noutra variável macro económica: o consumo privado. Aumentar o salário mínimo (o que o PCP e o Bloco extraíram) aumenta o consumo privado e por essa via aumenta os impostos (o IVA das compras, o IRS dos empregados dos hipermercados e o IRC dos hipermercados) e diminui despesas de segurança social. É a receita Clinton, sussurrará o Doutor Centeno ao ouvido do Dr. Costa, ambos esquecidos que os Estados Unidos emitem moeda própria, por acaso a divisa mundial. O aumento dos impostos e a queda da despesa assim obtido explica a diminuição do défice dada pela bola de cristal (rachada). Só que há um problema nesta fantasia modelar do mago socialista: o crescimento do consumo privado está sujeito a restrições do saldo externo que o seu modelo não incorpora (ou melhor: que não incorpora antes da catástrofe).
Veremos se a folha de Excel do Dr. Centeno sobrevive secreta a esta racha.

6 responses to “A primeira Racha na bola de Cristal do Dr. Centeno revela a Fantasia do seu Modelo macro

  1. Margarida Ponte Ferreira

    O modelo subjacente às contas do Dr. Centeno é de inspiração keynesiana: a procura (consumo privado, gastos públicos, investimento, exportações) cria oferta (produção, logo emprego) – ao contrário do que dizem modelos de tipo neoclássico em que a procura cria inflação e não emprego, sendo este garantido pelo livre funcionamento dos mercados. J. M. Keynes, na sua Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda, questionou o modelo clássico na sequência da crise 1929-33, quando o desemprego generalizado veio mostrar a falácia das teorias liberais. Keynes defendeu a intervenção estatal no estímulo à procura e influenciou enormemente as políticas económicas do pós-Guerra. Pertenço a uma geração de economistas formada na escola keynesiana que o Prof. Pereira de Moura tão bem soube representar em Portugal. Nunca consegui ver grande virtude nas teorias que Milton Friedman e a Escola de Chicago trouxeram para a ribalta na segunda metado do séc. XX e que inspiraram as políticas de Tatcher e Reagan. Voltando ao Dr. Centeno, nada tenho contra o uso de um modelo keynesiano e em teoria seria possível aumentar os gastos e diminuir os impostos (entenda-se, taxas de IVA e/ou de IRS/IRC, alteração de escalões de IRS) reduzindo também o déficite (em % do PIB). Porém, receio bem (não conheço os detalhes da tal folha Excel) que o maior pecado do modelo utilizado seja o de assumir um crescimento do PIB que poderá estar longe do que na realidade se verificará. E, assim sendo, as metas do déficite resvalam e os credores reclamam…

  2. O Economista Português agradece o douto e avisado da Drª Margarida Ponte Ferreira e informa que também ele nada tem contra as políticas keynesianas, desde que haja condições para as aplicar. Ora um dos grandes equilíbrios de qualquer economia está nas contas de pagamentos com o exterior. Se uma dada política, keynesiana ou não, destrói esse equilíbrio, não tem condições de aplicação e por isso não é boa nem má, não é de esquerda nem de direita: é pura e simplesmente impossível. É o que se suspeita que seja a política do Doutor Centeno, assente no confisco do aumento do salário mínimo. Como o seu modelo continua secreto, a suspeita justifica-se por uma razão prudencial. Para mais, tudo leva a crer que o aumento do PIB, ponto fraco do modelo, como afirma a Drª Margarida Ponte Ferreira, é obtido à custa do aumento do consumo privado e não graças às virtuosas exportações.

  3. Margarida Ponte Ferreira

    Já tinha percebido a preocupação de O Economista Português com as contas externas. Porém, pelo menos teoricamente, numa união monetária o déficie externo de um país não significa necessariamente uma limitação. Passo a citar Marco Annunziata (Chief Economist, General Electric) em The Economis of the Financial Crisis: “For a Eurozone member country, the domestic currency is the euro, whose value is linked to the current account of the Eurozone as a whole; therefore, as long as the external position of the Eurozone is balanced, a member country can run a large current account deficit without the risk of a sudden loss of value of its currency. Therefore, large imbalances at national level could be ignored”. O artigo “Current Account Deficits Matter in a Monetary Union?”, de S. Broyer, C. Brunner e J. C. Rodado, Flash Economis, March 2010, vai no mesmo sentido.
    Porém, nã há milagres nem almoços de borla. Tudo correrá bem enquanto esse país, membro da união monetária, conseguir financiar o desequilíbrio externo junto de outros membros ou do Banco central. Annunziata acrescenta: “There is a fallacy in the argument: a country running large current account deficits is relying on large amounts of foreign financing and that foreign financing can dry up”. É o que pode acontecer no caso de Portugal voltar a uma situação de desequilíbrios significativos e prolongados.

  4. O Economista Português agradece o pronto e douto comentário da Dr>ª Margarida Ponte Ferreira e responde: se os nossos credores pagarem as nossas despesas adicionais, tudo bem; se não pagarem, nada feito. Porque a moeda do défice do Estado (menos de 3% do PIB) e a moeda das transações com o estrangeiro é a mesma e é impressa pelo Banco Central Europeu (BCE) em Frankfurt e não na rua do Comércio, por conta do Terreiro do Paço. Se usamos o pouco crédito que nos é consentido pelo BCE e pela Comissão de Bruxelas para voltarmos às férias em Fortaleza (com praia e dispendiosos anexos noturnos, tudo financiado pelos nossos credores) e aos automóveis de luxo, não aumentaremos as exportações nem o nosso valor acrescentado. Veremos o que diz o BCE e a Comissão de Bruxelas da folha de Excel do Doutor Centeno.

  5. O Economista ouve com muita atenção o que a Dra. Margarida P. Ferreira tem para nos ensinar, mas trata de descartar o equilíbrio de que ela dá mostras para lançar os seus alarmes, com alguma deselegância à mistura.

    A praia em Fortaleza com os dispendiosos anexos noturnos e sobretudo os automóveis de luxo não se ressentiram com a política de baixos salários dos últimos anos (houve meses em que a marca mais vendida foi a BMW). Daí que o “confisco do salário mínimo” (doce expressão, que faz lembrar os tempos em que o DDT se queixava que no Alentejo só os ucranianos queriam trabalhar), nos termos em que está contemplado, se destine a alargar o acesso desse tipo de automóveis ao trabalhador contemplado com essa “windfall” (um anglicismo a contrapôr ao brilho do confisco). A ralé já não convive ao som das Zundapp. Em que país vive O Economista?

    Alguém disse que com uma política de baixos salários não são estes que se ajustam à economia, mas a economia que se ajusta àqueles, se quiser vender alguma coisa.

  6. O Economista Português agradece ao leitor «Vasco Almeida» o autorizá-lo a «ouvir .. com muita atenção» o que a Drª Margarida Ponte Ferreira tem para nos ensinar embora lamente não estar à altura das elevadas expetativas doo referido leitor no relativo ao modo como deveria proceder à referida audição.