As perversas Queixas climáticas dos Donos do Mundo

CO2eQuiotoO Economista Português  repete por manifesta atualidade o gráfico publicado no passado dia 8 de junho

A Cimeira do Clima em Paris é um evento extraordinário: os donos do mundo reuniram-se para se queixarem de serem incapazes de travar a catástrofe climática com que nos ameaçam, proveniente do aumento do CO2, o gás proveniente dos combustíveis fósseis que provoca o efeito de estufa. Esqueçamos a ameaça, que para a maioria é o afogamento da humanidade e para alguns a sua morte pela queima. Concentremo-nos nos queixumes dos dirigentes mundiais acerca da gestão climática da Terra. Há algo de fundamentalmente errado nessas queixas: o que impediu os grandes do mundo de estimularem os produtores de automóveis a produzirem um veículo elétrico? O que os impediu de lançarem (ou sequer proporem o lançamento) de postos de abastecimento de energia elétrica para automóveis? Quem os impediu ou impede de aplicarem direitos aduaneiros energéticos sobre as mercadorias e os serviços provenientes dos países superpoluentes, usando o seu produto para de algum modo compensarem a perda de eficiência económica resultante desses direitos? Se a sobrevivência da humanidade depende da quebra na produção de dióxido de carbono, porque consentiram que os países em desenvolvimento poluíssem à vontade? Porque continuam a incentivá-los nessa via, prometendo financiamentos privilegiados aos principais violadores?
Nada nem ninguém impediu os donos do mundo de combaterem com eficácia a produção de gases com efeito de estufa.  A dificuldade do combate ao CO2 resulta de a energia produzida com combustíveis fósseis continuar a ser mais barata do que as alternativas e de ser imperioso impedir o borlista, o free rider, que polui à custa do esforço antipoluente dos parceiros. Os dispositivos sociais acima enumerados encareceriam o CO2 sem premiarem o país borlista, e é óbvio que seria possível encontrar uma base social em cada país avançado para qualquer uma daquelas medidas, as quais lançam as suas longínquas raízes nas propostas de W. Nordhaus, abaixo referidas. Ora os nossos dirigentes queixam-se das maldades do CO2 e ameaçam-nos de morte sem terem sequer tentado aplicá-las.
As ameaças de morte por excesso de CO2 serão um meio de nos levar ao bom caminho? As ameaças são um elemento indispensável do dilema do prisioneiro, instrumento infelizmente indispensável à gestão das organizações políticas democráticas. Será o caso das ameaças climáticas com as quais somos todos os dias bombardeados? Relembremos o funcionamento do dilema do prisioneiro: o diretor da cadeia diz ao preso que se ele não denunciar o seu sócio no assalto será punido em vinte anos de prisão (a ameaça) e, se denunciar, sairá apenas com dois anos de detenção (o incentivo ao bom comportamento). A ameaça só tem bom efeito se for dado ao ameaçado a possibilidade de uma ação pessoal libertadora e se não houver borlista que possa prejudicá-lo. Ora os dirigentes mundiais não nos dão a possibilidade de nenhuma ação libertadora no domínio do combate aos gases com efeitos de estufa. Por isso, estas ameaças são insuscetíveis de nos conduzirem ao bom caminho, individualmente ou por países.
A conferência climática de Paris era o indispensável reconhecimento do caráter suicidário do protocolo de Quioto. Mas os nossos tristes donos do mundo estão divididos quanto à natureza do problema e quanto à sua solução. Por isso, da conferência apenas sairá a lembrança do «Rei Lear»: «os deuses são justos e dos nossos agradáveis vícios fazem instrumentos para nos empestar».

Propostas de W. Nordhaus estão em
http://www.nybooks.com/articles/archives/2015/jun/04/new-solution-climate-club/

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