Lisboa e o Tejo: a Câmara vai separá-los mais e destruir riqueza

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O «Aterro» antes da  24 de Julho, visto do ângulo ocidental da praça duque da Terceira, antes de ser empedrado, antes de ser alargado para da construção da linha de Cascais e da implantação dos carris do elétrico: ainda permitia o acesso ao pé ou a cavalo ao Tejo – mas já vemos os  guindastes industrias do moderno porto (o quais ajudariam  à datação da foto, de autor desconhecido, Arquivo fotográfico da  Câmara de Lisboa)

A Câmara de Lisboa anunciou anteontem com a pompa das campanhas eleitorais que planeia obras na margem do rio Tejo, entre o Cais do Sodré e o Campo das Cebolas, do lado oriental do Terreiro do Paço. Essas obras custarão 18 milhões de euros incluem a (re)instalação de uma carreira de elétricos,  com o nº 24
Quem estudou algo das relações entre as cidades e os seus portos, sabe que as estradas ou caminhos de ferro marginais são a grande barreira, só pontualmente transponível, entre a cidade e o rio. A monarquia liberal construiu o Aterro, hoje avenida 24 de Julho, para destruir a Lisboa «miguelista» que vivia nos bairros dos esteiros do Tejo. Deu-lhe o nome que hoje tem para simbolizar a sua vitória sobre a monarquia tradicional: o exército do Imperador do Brasil, inexatamente conhecido por D. Pedro IV,  entrou em Lisboa precisamente no dia 24 de Julho. O Aterro terá custado uns 3% do PIB da época, o que era um balúrdio; foi um investimento gigantesco. Foi a primeira barreira física no acesso ao rio, construída por razões politicas. As outras barreiras físicas – 24 de Julho empedrada, linha de Cascais, caminho de ferro do porto, elétrico marginal – vieram depois e transformaram o «Aterro» num obstáculo de crianças. Os urbanistas da monarquia liberal sabiam o que faziam.
Os urbanistas da Câmara lisboeta de hoje não sabem, pois estudaram muita terra e pouco mar, ou pouca «frente ribeirinha», como eles gostam de dizer: o Município da capital, depois de durante tantos anos ter atacado a velha e majestática Administração Geral do Porto de Lisboa (AGPL), por impedir o aceso dos lisboetas ao Tejo, cai agora no mesmo pecado; porque o caminho de ferro ligeiro, a que os lisboetas chamam elétrico, será uma cortina de aço que separará a cidade do seu rio. A municipalidade preferiu não pensar para essa «frente ribeirinha» em carreiras de barcos fluviais, em aluguer de barcos ao público avulso, em piscinas fluviais para o aborígene e para o turista, em restaurantes e discotecas flutuantes. Poderia ter aceite o desafio lançado pelo comandante Eduardo Azevedo Soares que, como ministro do Mar, deu instruções à sucessora da AGPL para abrir o porto à cidade; foi ele o originador  do fenómeno social depois chamado «docas».Para mais, a Câmara de Lisboa, ao contrário da AGPL não goza da desculpa de lutar  por um porto economicamente viável.

As benfeitorias ora anunciadas são todas terrestres, como se o Tejo não existisse: cabiam bem em Pias, desde que se passassem num muro imagens do Tejo. A Câmara de Lisboa tem ouro nas mãos e prefere-lhe o aço dos carris. Ora, mesmo do ponto de vista económico, o ouro vale mais do que o aço. A Câmara castiga o bom viver dos lisboetas e prejudica-os economicamente. Ou quererá a municipalidade concorrenciar o 28 com um novo elétrico marginal, o 24? O Dr. Fernando Medina tem muitas qualidades, mas não as de Alain Tanner, realizador do filme A Cidade Branca.

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