Acordo de Paris: Poucos Números, Isenção da Responsabilidade

AcordoDeParisFotoA retórica francesa e em particular do Presidente Hollande sobre o acordo de Paris ameaça desiludir a humanidade (acima: primeira notícia de Le Figaro on line sábado, 12, às 19h44)

Sem surpresa, o rascunho do Acordo de Paris foi  concluído no começo da noite de sábado, 12 do corrente mês de dezembro de 2015; ele estabelece um objetivo quantitativo – a redução do calor em 1,5º ou 2º centígrados por comparação com a época pré industrial mas não institui nenhuma concomitante obrigação técnica para cada país; determina que os países desenvolvidos devem compensar os países em desenvolvimento pelos esforços destes para diminuir a produção de CO2 mas também não estabelece metas quantitativas para as contribuições financeiras das nações ricas. O projeto de acordo estabelece porém que nenhum país tem o direito de diminuir o valor das suas contribuições para aqueles fins, o que é obrigatório, e apela a «esforços ambiciosos», o que é apenas exortativo. O projeto de acordo estabelece uma complexa maquinaria institucional para a sua fiscalização mas não vai ao ponto de estabelecer um organismo supranacional com poderes em matéria de CO2. O projeto de acordo apresenta-se como vinculativo do ponto de vista jurídico.

O projeto de acordo sofre de três pontos fracos:
Confia nesta burocracia (por certo agradável ao lóbi ecologista) e na opinião pública mundial para conseguir a sua eficácia.
Não tem base moral:  é incoerente dizer que o CO2 mata e autorizar os países em desenvolvimento a produzir mais CO2. Era o mesmo que estatuir no nosso Código Penal: «o assassinato é crime, exceto se for cometido por um cidadão em ascensão social».
Estabelece duas metas quantitativas contraditórias para a redução do CO2. A referência à idade pré-industrial também o fragiliza pois não é conhecida com certeza a temperatura naqueles tempos que o projeto de acordo apresenta como a idade de ouro climática. O texto está iluminado a amarelo, a  seguir.AcordoDeParisCO2Art2

O projeto será aplicado? É inverosímil que o Congresso dos Estados Unidos aceite limitar os seus poderes orçamentais, o que inevitavelmente acontecerá se se comprometer a manter o nível de apoio financeiro no combate ao CO2. Os Estados Unidos talvez  assinem o acordo, mas o Congresso não o ratificará.

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O texto em francês do projeto de acordo  está disponível em:

http://unfccc.int/resource/docs/2015/cop21/fre/l09f.pdf

4 responses to “Acordo de Paris: Poucos Números, Isenção da Responsabilidade

  1. Enfim, quando o seu texto começa com reduçao de calor em percentagens perdi imediatamente vontade de ler o restante da posta. Os termos da questao sempre foram em graus celsius de aquecimento global (sejam os 2ºC como objectivo inicial ou a meta mais ambiciosa que parece ter sido acordada de 1,5ºC) em relaçao `a temperatura media do planeta antes da revoluçao industrial. Confundir graus de temperatura com percentagens neste tema e´ um erro crasso que nunca seria cometido por alguem que estivesse verdadeiramente interessado pelo tema das alteraçoes climaticas. Imediatemente descredibiliza toda a sua analise.

  2. O Economista Português agradece a correção da gralha, que constou de uma versão anterior.

  3. Também acredito que o Congresso dos EUA não venha a ratificar este acordo, apesar de agora ser reduzido a pouco mais que uma declaração de intenções e não a um enunciado de metas dementes e impossíveis de atingir como no passado. E isto porque, não obstante o sistema de pensamento único vigente financiar quase exclusivamente a investigação climática que “demonstra” a sua convicção no aquecimento global _antropogénico_, há cada vez mais investigação moderna (para não mencionar a mais antiga) que questiona a natureza _antropogénica_ do aqueecimento global.

    O que nos pode conduzir a perguntar: se os chamados “cépticos” estão certos, os tais 2ºC a mais que hoje ficariam ainda abaixo de máximos históricos que não “mataram a humanidade” nem destruiram o planeta e não seriam causados pela acção humana. Logo, estas medidas seriam equivalentes à lança do D. Quixote contra os moinhos de vento: a Natureza é sempre mais forte…

    O que revelaria a natureza destas convenções: a criação de uma nova fiscalidade sem regras, à escala global, cujo resultado seria/será a perpetuação das desigualdades de desenvolvimento entre nações (“indemniza-se” os subdesenvolvidos para que, alimentando-os na sua miséria, não se desenvolvam).

    A propósito: as ilhas do Pacífico, de facto, estão a _aumentar_ de área, não estão a afundar-se (V. entre muita outra bibliografia, esta referência recente: http://geology.gsapubs.org/content/early/2015/04/27/G36555.1.abstract ; uma coisa são as medidas objectivas feitas sobre fotografias aéreas e outros dados de campo, outra é a “previsão” do nível dos oceanos baseados em cálculos e modelos. E cabe perguntar: porque é que a matéria científica “seleccionada” para fundamentar estas conferências é apenas uma parte da que se encontra disponível? Porque o objectivo é de facto assegurar o desenvolvimento desigual?).

  4. O Economista Português agradece ao leitor o comentário, bem informado e com a coragem de desafiar o pensamento dominante. Confessando não se considerar competente em matéria de ciências físicas, O Economisrta Português não deixa de assinalar a contradição entre a letalidade da ameaça invocada e a lonjura dos prazos em que as autoridades, desta feita com o apoio da maioria dos ecologistas, se propõem resolvê-la: dizem que a casa arde e, em vez de chamarem os bombeiros, assinam um seguro contra incêndios.