Licenciados a mais e Empresários a menos

 

Fonte: Banco Mundial, base de dados

«Temos diplomados a menos para aquilo que a nossa sociedade precisa e a nossa economia precisa», disse o Doutor Sampaio da Nóvoa no ISDOM – Instituto Superior D. Dinis, na Marinha Grande. A afirmação foi produzida numa sessão de propaganda eleitoral da sua campanha como candidato a presidente da República, um episódio que o Doutor Nóvoa ontem encerrou com elegância.

É frequente a afirmação que temos falta de diplomados ou de licenciados. Se pensarmos que a licenciatura é a ciência e a ciência é o bem, haverá sempre licenciados a menos. Mas já não é assim se pensarmos que há alguma correlação entre o desenvolvimento económico e o número de licenciaturas em proporção de uma dada população ativa. O gráfico acima mostra uma reta de correlação linear entre estas duas variáveis. O coeficiente de correlação é 0,6 para um máximo de 1 (1 quando os dois conjuntos de números são iguais). É um coeficiente que dá algumas sugestões (e que se eleva quando afastamos os outliers, os valores nas margens, assinalados no gráfico). Ora Portugal está em cima dos valores esperados para o número de licenciados: e por isso não temos licenciados a menos (23% da mão de obra com ensino terciário e 22132 dólares de PIB por habitante, 2014). Temos claramente diplomados a mais se procedermos a uma regressão polinomial de segundo grau (cujos resultados não são mostrados no gráfico).

A existência de licenciados a mais é confirmada pela existência de licenciados desempregados, com empregos abaixo das suas qualificações ou emigrados. Não significa isto que devamos investir menos na ciência e no saber. Significa que devemos investir de outro modo: devemos desenvolver o ensino superior integrando-o mais com as empresas. Se compararmos o gráfico com o desemprego e a emigração qualificada, concluímos que não há licenciados a menos, há sim empresários a menos – pois sem empresários não há emprego produtivo e os nossos licenciados começam a emigrar ou a ficar desempregados. O ensino devia ser reformulado para formar mais empresários e não apenas para formar. A Universidade deve ter um papel maior na produção económica no nosso país mas deve sobretudo ter um papel diferente.

9 responses to “Licenciados a mais e Empresários a menos

  1. não temos empresários a mais ,temos e patrões a mais ,que só sabem viver com baixos salários tanto assim que tive um que ate tinha formação,
    professor de Historia e empresário nas horas vagas,tanto assim que enviou a empresa para a falência esta com cerca de 60 anos existência,
    tinha a distinta lata de dizer :eu vou ali desemprego,e trago um licenciado
    por 500 euros mês, Portanto não temos e empresas com suporte e com
    capacidade em numero suficiente para o nº de licenciados existente.

    • O Economista Português agradece o comentário, que mistura testemunho e análise. A análise é alias concordante com a do post comentado: há empresários a mais para as empresas que temos. No caso referido pelo leitor, o mercado funcionou (deixaram-no funcionar) e o mau empresário foi punido com a falência. É um castigo pesado e automático.

  2. Por favor, elimine o trecho “(1 quando os dois conjuntos de números são iguais)”, pois é uma grave incorrecção estatística.

    Concordarei com a sua conclusão se me disser o que é um “empresário”. Um “licenciado”, creio que sei o que é (uma pessoa com uma canudo universitário). Mas, o que é um “empresário”? É algo que se faça, à la Pires de Lima (e como O Economista Português parece sugerir na parte final do texto), com umas quantas cadeiras num ou em vários níveis de ensino? Uma pessoa tem aprovação nessas cadeiras e “plim!”, fica “empresário”?

    Atrevo-me a sugerir que O Economista Português se esqueceu, pelo menos momentaneamente, ao escrever este texto, do “capital”. Isto é, da coisa que falta a muitos, digamos, “empresários desempregados” (gente capaz de fazer empresas e criar empregos, mas que não tem com que fazê-lo). Ou que está em excesso em muitas empresas que o utilizam (em excesso _porque_ o utlizam) na “diversificação” (aquilo a que chamam “investimento” em economias de casino que não criam empregos nem aumentam PIB).

  3. O Economista Português agradece os comentários de João Martins. Solicita-lhe o favor de explicar o que o leva a considerar «grave incorreção estatística»a frase incriminada. .

    • Coeficiente de correlação linear=1 ocorre quando as duas variáveis são directamente proporcionais __E__ o erro é nulo (ou quase), não apenas quando são “iguais” (basta olhar as escalas para verificar que os intervalos de variação são diferentes, logo não seriam nunca iguais; se fossem iguais, o coeficiente de _regressão_, isto é, o declive da recta de _regressão_ seria também=1; qualquer outro valor deste coeficiente representa igualmente uma proporcionalidade directa; este coeficiente não tem nada a ver com o coeficiente de correlação, o qual mede algo como a dispersão dos valores observados relativamente aos ralores da regressão). Já agora, menciono também outro erro de menor importância: recta de regressão, não recta de correlação. O Economista Português poderá encontrar mais detalhes sobre a diferença entre correlação e regressão e seus coeficientes em qualquer manual de estatística elementar.

      • O Economista Português agradece a informação da existência da definição de coeficiente de correlação em manuais estatísticos «elementares». Era essa maçada que queria evitar ao leitor, recorrendo a uma descrição simples do dito coeficiente: ele foi apresentado como a igualdade entre dois conjuntos de números. O comentador prefere a noção de «proporcionalidade». A definição estatística da correlação linear é o valor da covariância delas (grau em que duas variáveis variam em conjunto) dividida pelo produto dos respetivos desvios padrão (distâncias em relação à média, digamos para simplificar). Isto é: o coeficiente mede a nossa capacidade de produzir o valor de uma variável em função do valor da outra. A reta de regressão é a reta que fica a menor distância de todos os pontos das duas variáveis considerados para as correlação. A igualdade foi convocada para sugerir que dois conjuntos diferentes de números (com intervalos diferentes entre si) resultam nos mesmos coeficientes de variação. O ponto básico é a capacidade de prevermos o resultado de uma variável (no caso, o grau de educação terciária de uma dada mão de obra) em função de outra (o Produto Interno Bruto por habitante). Quanto mais próximo da unidade estiver o coeficiente de correlação linear, maior é essa previsibilidade. Este coeficiente estatístico só tem validade pevisional se ilustrar um modelo teórico que a justifique.

  4. O Economista Português agradece os comentários de João Martins e responde à sua pergunta «que é um empresário?». Um empresário é alguém que reúne vários fatores de produção (capital, trabalho, terra, organização) para produzir um bem ou um servlço. É a definição de Joseph Schumpeter.
    Ser empresário exige qualidades pessoais que não se aprendem na escola mas que só desabrocham e se desenvolvem se forem ensinadas na escola. Por exemplo: não basta saber contabilidade para se ser um empresário, mas não é possível ser um empresário sem saber contabilidade (pelo menos no sentido de saber interpretar um balanço e uma contabilidade analítica de exploração). Ora a escola em geral não ensina várias ciências indispensáveis à ação do empresário. Por isso, nos Estados Unidos, surgiram vários cursos de formação de empresários.
    De outro ângulo, é necessário afirmar que a escola (e a universidade) estão viradas para a ação do Estado e desvalorizam a ação das empresas, desprestigiando-as socialmente e impedindo assim que o empresário seja um «role model» para os jovens, na idade em que eles escolhem a sua atividade no mercado de trabalho. Sem esse tipo de ensino, ser empresário será na prática uma atividade hereditária, o que parece inadequado aos próprios princípios do mercado e da igualdade de oportunidades.

    • Agradeço a resposta de O Economista Português, mas peço licença para notar que ela contém o enunciado de uma condição necessária, mas não se pronuncia sobre a condição de suficiência para que o potencial empresário, devidamente instruído e habilitado tecnicamente possa tornar-se real (ter capital para investir; o que, não sendo ignorado na resposta, não é contudo referido no contexto do artigo em discussão).

  5. O Economista Português agradece o comentário e promete voltar ao problema do mercado de capitais, sobretudo para as PME, quie os nossos
    governos sistematicamente esquecem.