A Economia mundial à Deriva: o Mundo sem Bancos centrais

Fontes e notas – A moeda mundial é a soma das moedas de todos os países com moeda própria. Retivemos a M2, equivalente às linhas 34 e 35 das International Financial Statistics, do FMI, que inclui moedas, notas de banco, depósitos à vista dos particulares e das empresas assim como depósitos a prazo, de poupança e de divisas de particulares ou empresas. Moeda livre é aquela cujos titulares aplicam livremente (excluindo por isso, antes da globalização a aplicada na compra de produção interna e os movimentos de capitais; depois da globalização, a moeda livre inclui os movimentos de capitais e o comércio externo, que já na fase anterior era incluído na moeda livre; para o cálculo dos respetivos coeficientes, O Economista Português inspirou-se livremente  nos valores médios da produção nacional e do comércio externo mundiais nos períodos respetivos, antes e depois da globalização; os movimentos de capitais, liberalizados com a globalização, foram calculados por resíduo). O «broad  money» em sentido estrito foi  quantificado como um terço ao valor do M2). Os valores do M2 e das reservas monetárias são dados pelo Banco Mundial.

Há cada vez mais dinheiro livre e cada vez os bancos centrais são mais fracos. Se houver uma crise no centro da economia mundial, dificilmente intervirão. Antes da  globalização, as reservas monetárias eram mais de dois terços da moeda livre, depois são algo mais de metade. É o que mostra o gráfico acima, elaborado pelos serviços d’ O Economista Português.

O habitual é comparar as reservas monetárias com a quantidade de dinheiro.  Mas o dinheiro não é homogéneo. Os resultados desta comparação divergem dos do gráfico:  as reservas bancárias são uma proporção constante, ou  mesmo crescente, da moeda em circulação. São gráficos deste tipo que são examinados nem em Basileia, no FMI em Washington ou no Eurogrupo (se ele sair da sua visão paroquiana das coisas).    Mas estes gráficos são enganadores pois a moeda já não é o que era. Com efeito, antes da globalização, a moeda só era válida no país que a emitia e cada país proibia todas as outras moedas, reservando-se o direito de autorizar as aplicações no exterior e as entradas de fundos em moeda alheia. Havia uns países mais liberais do que outros, mas todos reclamavam a soberania monetária. Ora o banco central só tem que agir para contrariar os  comportamentos ditos especulativos da moeda livre (fugir de crises financeiras, por exemplo) pois a moeda não livre é quase uma senha de racionamento. A primeira prisão das moedas era o quadro monetário nacional, hoje em erosão.

O gráfico acima procurar concretizar a noção de moeda livre: é a moeda que  circula de acordo com a vontade do seu detentor: o leitor, se quiser, transfere a(s) sua(s conta(s) bancárias para yens ou para reais. O critério usado e discutível e serve acima de tudo como «experiência mental». Mas, se foi ousado do lado do cálculo da moeda livre, foi prudentíssimo no referente à quantidade de moeda.

Acresce que, antes da globalização, não havia uma economia monetária mundial: cada país era uma zona monetária. Desde a globalização, é ao contrário: há uma moeda mundial, pois a convertibilidade e a liberdade de circulação de capitais tornaram-se a regra. Nos anos 1960 e 1970 a crise do esterlino incomodava apenas os países da zona esterlino, pois a convertibilidade estava-lhes limitada. Hoje uma crise do euro incomodará o mundo inteiro – que não tem meios institucionais para reagir. A crise globalizar-se-á impedindo que as reservas monetárias sejam concentradas no apoio à zona em bancarrota.

Ora, quanto maior é o mercado, maior é a crise. O leitor está a ver onde isto nos leva.

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