A TAP chinesa, ou o Risco do Mapa cor de Rosa

O governo português aceitou a eventual entrada da Hainan, uma companhia aérea chinesa, no capital da TAP. O Economista Português  aprova a venda parcial da TAP aos chineses da Hainan, com uma reserva: as companhias aéreas europeias estão semifalidas, uma delas rebentará proximamente, coligaram-se para impedir a sobrevivência da TAP e verão com maus olhos que a transportadora aérea portuguesa seja salva pelos chineses. Preferem levá-la à falência pura e simples, como fizeram ao BES e ao BANIF, sendo o contribuinte português pagar os danos.

A reserva é simples: acabámos de ver o governo ajoelhar-se perante Bruxelas-Berlim no caso do Orçamento 2016. Que nos leva a pensar que o Dr. A. Costa não ajoelhará de novo se Bruxelas-Berlim o mandar retirar a proposta aos chineses? O leitor sorri? No conselho de ministros do Dr. Passos Coelho, que decidiu vender a EDP aos ditos chineses, a Alemanha arranjou maneira de afirmar o seu direito de preferência sobre os salvados da economia portuguesa – que era a de não vetar. Mas é sabido que Berlim quer salvar a Lufthansa.

Os chineses estão para a política portuguesa de hoje como a Alemanha do II Império estava para a política portuguesa do final do século XIX: os governos portugueses queriam então libertar-se da sufocante amizade britânica e para tanto resolveram aliar-se com Berlim, que era a grande rival de Londres. Esta nova aliança foi simbolizada pelo mapa cor de rosa,  pelo qual a Alemanha imaginariamente nos  autorizava a irmos a pé «de Angola à contracosta» a troco de lhe impedirmos  a construção do caminho de ferro britânico «do Cabo ao Cairo». Os britânicos não gostaram, como aliás qualquer tontinho teria previsto, e o leitor conhece o resto da história. Para nos livrarmos do sufocante abraço dos nossos credores europeus (e alemães nomeadamente), precisamos hoje da China, como os nossos bisavós precisavam da Alemanha imperial. Hoc labor est, como dizia o latim macarrónico para significar que a tarefa era difícil.

O governo do Dr. A. Costa terá procedido no caso da venda da TAP ao planeamento estratégico que o Dr. Barros Gomes esqueceu no relativo ao mapa cor de rosa? Estará o nosso governo preparado para que a entrada da Hainan no capital da TAP não seja o nosso futuro Ultimato? Ou apronta-nos nova e humilhante genuflexão a Bruxelas-Berlim que a sua máquina de propaganda transformará em coriscante vitória?

Enquanto e não, O Economista Português sugere ao leitor que se divirta com o circo da política portuguesa espoletado pelo interesse da Hainan pela TAP:

  • O Dr. Passos Coelho, que convidou a Hainan a concorrer à privatização da TAP, considerou «lamentável» que o governo das esquerdas o tenha imitado – só que com mais êxito do que ele;
  • O CDS, ex-sócio do PSD no governo que convidou a Hainan, acusa o governo de esquerdas de ter «omitido» o convite à Hainan – e não se acusa de ter sido autor do mesmo convite e da mesma omissão;
  • O Bloco de Esquerda, pela voz da alter ego da Drª Mana Mortágua, a Srª D. Catarina Martins, condenou em termos vivos a eventual venda pois só aceita uma transportadora inteiramente estatizada pela obscura razão de haver imigrantes portugueses que não usufruem de carreira TAP entre o seu lugar de habitação e … o Porto (terão voo TAP para Bragança, onde estas palavras foram ditas?) Mas a alter ego, talvez como preço do seu lugar à mesa do orçamento, não condenou o Estado das esquerdas por ter que pagar com o dinheiro dos impostos de todos os portugueses 1,9 milhões de euros para alcançar os 50% do capital social da TAP (em vez de 34%), uma empresa falida e que na realidade económica tem um valor abaixo de zero.

One response to “A TAP chinesa, ou o Risco do Mapa cor de Rosa

  1. O Economista Português recebeu de um amigo economista o seguinte comentário, que partilha com os leitores:

    «Receio que o processo «TAP», as dificuldades orçamentais, a adoção de «restrições» como alternativa à «austeridade», e outras realidades semelhantes constituam expressões muito preocupantes – até em termos éticos – da propensão difusa para não sermos sóbrios, mas sim caloteiros compulsivos; parece que esta propensão remonta, pelo menos, ao início da democracia, no século XIX. A aparente exceção, durante o «Estado Novo», confirma a tendência, embora de um modo diferente.
    Há muitos anos alguém me disse que os direitos previstos na Constituição e as reivindicações pendentes implicariam uma carga fiscal superior a 100 por cento…
    «Creio que só daqui a muitos anos, demasiado tarde, chegaremos coletivamente à sensibilidade, à cultura e à socioeconómicas, em que a vertente social e a económica são indissociáveis. Parece que vamos retardando indefinidamente a adoção e atualização da honradez típica das famílias de outrora (naturalmente, com exceções), transmitida de geração em geração; não deixava de haver endividamento, mas estava condicionado pela capacidade previsível de pagamento.
    «Ai dos contribuintes e dos pobres, que o são de verdade e que lutam, diariamente, pela subsistência condigna! »