«A União Europeia está à beira do colapso», diz Soros, ecoando Merkel

Time magazine escolheu a Srª Merkel para «Srª Europa» mas, certamente por não ter pedido a opinião da interessada, não a vestiu com aquele maravilhoso tailleur salmão (ou esmeralda?) com que a Chancelarina tantas vezes nos brinda.  Para o Sr. Soros ela é mais do que Sª Europa: é  a Srª Europa Frei.

«A União Europeia (UE) está à beira do colapso», afirma George Soros, o financeiro e filantropo que levou a libra esterlino a sair do Sistema Monetário Europeu. Soros ecoa palavras da chancelarina Ângela Merkel: dantes criticava-a por impor uma política de contração económica e hoje elogia-a por julgar que ela propõe o acolhimento dos imigrantes – e por se ter tornado a defensora da sociedade aberta depois que o Presidente Putin «invadiu» a Ucrânia. Além disso a chancelarina «percebeu o potencial da imigração para destruir a Europa», ao que parece sobretudo pela destruição do espaço Schengen. Soros propõe uma nova política de imigração comum que consiste em federalizar a polícia de fronteiras, admitir um milhão de imigrantes/refugiados por ano e financiar isso com empréstimos. Soros aborda outros temas que não referiremos: Obama, a política e a economia da China, por exemplo, a Grécia (que considera perdida exceto se sair do Euro).

Soros julga que a UE aproxima-se de colapsar por enfrentar um número crescente de problemas: imigrantes, o Brexit, o renascimento do nacionalismo (a propósito do qual qual fala longamente sobre a Hungria e a Polónia, a Grécia, a Ucrânia, a Síria e, semi esquecidos, o euro, a dívida, o fraco crescimento económico. A UE não consegue resolver nenhum destes problemas. E não tem quem a dirija: a Alemanha com Merkel «adquiriu uma posição de hegemonia» e adquiriu-a «barato».

As soluções de Soros são irrealistas. Aliás, diz ignorar se os alemães estão dispostos a pagarem o preço para conservarem a hegemonia. Diz mais que a Srª Merkel ama a liberdade devido à «sua história pessoal», por ser filha de um pastor protestante na Alemanha comunista – uma parcelarização da verdade histórica que revela alguma e inesperada ingenuidade, confirmada aliás  pela comparação do percurso pessoal dela com o seu – o que descredibiliza a sua visão da Grande Chancelarina. A imigração é apresentada como um problema de política de fronteiras e não como uma questão política de fundo nas relações Norte-Sul, com fortes incidências económicas. A fixação de uma quota de imigrantes, por elevada que fosse, agravaria o abcesso de fixação europeu No plano geoestratégico, Soros subestima a gravidade da ostracização dos eslavos na UE e escapa-lhe que a guerra com Putin criará para cá do Oder-Neisse uma sociedade bloqueada e militarista que é o contrário dos seus objetivos confessados. É  Soros mais pessimista e não é o mais realista.Dado o inesperado da entrevista deste financeiro que era um dos seus santinhos favoritos, O Economista Português permite-se  imitar o humor calvinista alemão: dá que pensar a admiração de um ser humano tipo Soros por um ser humano tipo Merkel. O mundo está perigoso, como em circunstâncias menos graves decretou há uns anos o Doutor Vasco Pulido Valente.

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A entrevista de George Soros está disponível em

http://www.nybooks.com/articles/2016/02/11/europe-verge-collapse-interview/

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