Política de Imigração da UE: imoral, estúpida e suicida

O sonho europeu também morre nas águas do Mediterrâneo

A União europeia (UE) volta a bater com a porta na cara dos imigrantes e a tentar restabelecer a fiscalização fronteiriça. É a pior de todas as políticas de imigração: primeiro por ser moralmente má, depois por ser economicamente estúpida,  para concluir por ser politicamente suicida.

  • Moralmente má: a UE é uma zona rica e diz ao resto do mundo que recusa receber imigrantes ou refugiados (o fogacho da Srª Merkel só agravou a nossa situasção); a Turquia é pobre e recebe milhões de refugiados sírios. Dizemos ao resto do mundo que somos cristãos ou filantropos, que lhe demos o Estado de Direito mas ele sabe bem que somos egoístas, gananciosos e mesquinhos; vêem-nos no telejornal deles a rirmo-nos dos imigrantes que enregelam na Macedónia ou dos que morrem afogados no Mediterrâneo. A rirmo-nos? Indiferentes, que é pior.
  • Economicamente estúpida: o défice demográfico europeu não será preenchido ou, se começar a sê-lo, não o será a tempo do intervalo 2020-2040. Reside aqui o problema da sustentabilidade da segurança social: não haverá quem trabalhe e pague a TSU necessária para a manter. A degradação do ratio ativos/pensionistas causará roturas sociais. A única solução é importar mão de obra = imigrantes, ensiná-los, inculturá-los e aprendermos a viver com eles. Os trabalhadores não criativos talvez sejam todos substituídos por robots, mas isso só ocorrerá em massa num futuro mais distante.
  • Politicamente suicida: a atitude egoísta face aos imigrantes, a nossa desfaçatez a bombardear os países das margens sul e oriental do Mediterrâneo suscitarão contra nós ódios que hoje se manifestam de forma extrema no terrorismo fundamentalismo islâmico mas que estão a contagiar os países nossos vizinhos na sua globalidade social. Se eles recuperarem a força, o que ocorrerá mais cedo do que tarde, sobretudo devido à polaridade chinesa e à própria lógica do mercado mundial, cobrar-nos-ão o nosso egoísmo de hoje. Haverá então choro e ranger de dentes. Quando chegar essa hora do julgamento, O Economista Português   preferirá estar por outras paragens.

É evidente que a UE não tem condições para absorver todos os pobres deste mundo que para ela queiram imigrar. Mas não ultrapassar esta evidência, cujo nível intelectual é inferior à retórica do motorista de táxi, é um erro monstruoso que todos pagaremos caro.

O nosso país deve propor à UE uma resposta ao problema da imigração, que só pode ser global. Essa resposta tem que valorizar os processos voluntários e minimizar os repressivos. Salientemos três pontos:

  • Reconstruir os Estados do sul e do leste do Mediterrâneo, em negociação com eles. Sem Estado não há nem segurança nem crescimento económico – nem imigração organizada, distinta da invasão pacífica;
  • Ajudá-los no seu desenvolvimento económico e social, por processos inovadores que ultrapassem os do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da OCDE (cada país rico responsabilizar-se pela ajuda a um país pobre, por um número limitado de anos e sob a fiscalização de organismos internacionais; imigrantes que após um certo número de anos regressam aos seus países com capacidade empresarial e profissional; acordo de comércio livre; acordo de segurança dos capitais investidos);
  • Acordos de imigração para a UE, em bases a um tempo bilateral e multilateral, compatibilizando o curto, o médio e o longo prazo.

Talvez seja tarde, mas ainda é racional pensar que vale a pena tentarmos a única via que exclui a guerra. Atuemos (e quem for crente reze) por que a  imoralidade não se alie à estupidez para nos trazer a guerra.

One response to “Política de Imigração da UE: imoral, estúpida e suicida

  1. O Economista Português recebeu a seguinte comunicação de um leitor bem informado:
    «Li com atenção e interesse o mais recente post do economista português sobre a política de imigração da UE. Permita-me apenas uma observação: se estou de acordo com os adjectivos – bem como com a caracterização e explicação que dá em sua justificação – não posso deixar de assinalar um pormenor que convém manter bem presente: não é a política de imigração europeia que é estúpida (etc.) é a forma como os Estados-membros, cada um de per si, se empenha em não a cumprir.
    «É o não cumprimento da política europeia de imigração que nos traz ao ponto actual. O seu cumprimento iria ao encontro daquilo que são as propostas que faz no seu post. Eu sei que, por vezes, se confundem todos os planos em matéria europeia, mas julgo que é importante, sobretudo quando se faz uma análise séria e honesta sobre estes assuntos, deixar claro os conceitos, as responsabilidades e o alcance das acções. »
    O Economista Português agradece o comentário e dá-lhe razão no sentido em que não destrinçou a par e passo as responsabilidades federais e nacionais no campo da política de imigração da União Europeia (UE), apenas aludindo a elas. Não o fez porque os Estados-membros que se sentam à mesa do conselho de Ministros da UE são os mesmos que adotam as suas políticas de imigração – por vezes díspares e opostas.