Substituição de Importações: esquecida pelo Governo e pelos Investidores

O peixe será importado da Grécia?

«Afinal, o peixe era de aquacultura na Grécia», confidenciava estupefacta uma compradora num supermercado lisboeta. O Economista Português recordou-se desta confidência ao saber pela imprensa que ontem, numa visita ao Salão Internacional do Sector Alimentar e Bebidas (SISAB), «lembrou a importância da devolução do rendimento aos portugueses e de criar ‘melhores condições’ para o investimento» chamando assim a atenção das empresas para o mercado interno» – ainda que tenha procedido ao elogio litúrgico dos exportadores.

 

As declarações do Dr. António Costa pedem alguns breves reparos. De surpresa em primeiro lugar: ao chamar a atenção para o mercado interno, o Sr Primeiro Ministro parece pressupor que   os empresários portugueses não se deram conta da existência de consumidores portugueses. A pressuposição afigura-se absurda – mas legítima, face ao discurso proferido. Ora ninguém na plena posse das suas faculdades, seja empresário ou não, melhorará a sua imagem do Dr. Costa ao ler essa suposição. Com efeito, ela beneficia da aparência de exatidão. Errou constrangido pela necessidade íntima de debitar a propaganda da política económica do seu governo? Por isso certamente, o Sr. Primeiro Ministro pôs o ênfase no consumo e esqueceu a óptica da produção.

O segundo reparo é substantivo: ficaram esquecidas as novas empresas. Ora teria valido a pena alertar os portugueses para a possibilidade de lançarem empreendimentos criados de raiz para abastecer o mercado interno – nomeadamente de produtos alimentares. Aliás, o Sr.Presidente da República já há tempos chamou a atenção para as nossas oportunidades de produção piscícola precisamente em aquacultura, que diminuiria o nosso défice comercial crescente no peixe e produtos conexos– e parece que ninguém duvida das suas qualidades de economista.

O terceiro reparo é de outra natureza: o Dr. António Costa falou como comentador e não como primeiro ministro. Tendo em conta a situação da nossa balança comercial, um Primeiro Ministro anunciaria um plano de ação: o Primeiro Ministro, em contacto com o Ministério da Economia, definiria um plano de ação e anunciaria quando o concretizaria:

  • Incentivos de crédito para o lançamento de novas linhas de produção para substituição de importações, quer por conta de empresas existente quer por conta de empresas a criar.
  • Convidaria as associações empresariais dos diferentes ramos de atividade a participarem nesta tarefa nacional. Na metalomecânica funcionou, e talvez funcione ainda, uma estrutura empresarial com o fim de promover a substituição de importações. A iniciativa seria extensível a outros setores – se houver associações empresariais com a necessária vitalidade.
  • Convidaria também a participar a Caixa Geral de Depósitos, o banco do Estado, dizendo-lhe para estar  pronta a apoiar o investimento produtiva.
  • Estimularia também a participação da banca privada, das companhias de seguros e de outros investidores.

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