O Sr. Draghi reflaciona, ou o Regante regado

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O Sr. Draghi ofereceu-se regante regado, pedindo um papelito em  L’Arroseur arrosé,  o conhecido filme dos irmãos Lumière

O Sr. Mario Draghi, governador do Banco Central Europeu (BCE), saiu chamuscado do seu último bluff e ontem resolveu aumentar a dose de criação de moeda. A razão é simples: os preços na União Europeia (UE) continuam a descer (desobedecendo, sabe Deus porquê, às ordens do nosso ministro das Finanças), apesar das intervenções passadas do BCE. Este julga que uma política monetária monetarista post-keynesiana evitará uma deflação à japonesa. é que em economia o pior de tudo é a deflação: sabe-se como se entra nela, mas não se sabe como dela se sai. Ora a economia da continua com os preços a descerem .

Draghi recorreu ao que a imprensa crismou de «big bazooka»: manejou simultaneamente todos os meios ao seu dispor.  Esses meios são de três tipos: as taxas de juro e  as compras de ativos, o «Quantitative Easing (QE) e linhas especiais de crédito.  Na medida em que o juro seja o preço do dinheiro, baixar a taxa de juro  significa aumentar a sua procura e por isso aumentar-lhe a quantidade (se a máquina de impressão de notas de euros continuar a funcionar bem). O Sr Draghi baixou ontem todas as taxas de juro de que dispõe. Ele dispõe de três tipos de taxas de juro, variáveis consoante o prazo e o destino dos empréstimos a que se referem:

1ª) Taxa repo, a taxa de base, passa a ser 0%. Isto é: a partir do próximo dia 16, os bancos têm direito de ir buscar dinheiro ao BCE a custo zero. Esta baixa destina-se a permitir à banca emprestar dinheiro às empresas industriais e de serviços, mas na realidade tem servido para absorver os prejuízos com swaps  que a banca para lá do Caia tem ocultado sistematicamente.

2ª) A taxa para «liquidez excecional», que financia empréstimos para dificuldades suplementares da banca, desce para 0,25%;

3º)  Se os  bancos comerciais depositarem dinheiro no BCE, têm que pagar pelo depósito 0,4% (pagavam 0,3%), quando o habitual é pagarem juro quando pedem dinheiro emprestado ao banco central e não quando nele depositam.  São as célebres taxas de juro negativas, que a banca detesta, mas que são eficazes para baixar o câmbio do euro.

Para compensar a banca, a partir de junho é aumentada a LTRO, uma linha especial de crédito dando liquidez a quatro anos, e que eles muito apreciam por lhes dar mais segurança num horizonte de médio prazo.

O QE serve para comprar dívida pública aos bancos, ao contrário da doutrina apregoada pela UE, e devemos-lhe em larga medida a baixa, e depois a estabilização, da taxa de juro da nossa dívida pública.  As compras do QE  passam de 60 para 80 mil milhões de euros por mês.

Estas medidas são boas para nós?  Significam um esforço do BCE para baixar o câmbio do euro e favorecer a inflação e o crescimento económico. Para nós, são boas, pois facilitam e embaratecem o refinanciamento da nossa gigantesca dívida pública e, baixando a taxa de câmbio, favorecem as exportações (nas empresas em que haja capacidade produtiva por utilizar ou em novos investimentos produtivos).

Em geral, porém, estas medidas têm muito que se lhe diga. Em primeiro lugar, O Economista Português salienta:

  • Elas destinam-se a evitar um crash bancário de proporções gigantescas., cujo risco é ocultado com cuidado pela classe política transpirenaica e acreditado com facilidade pela incompetente classe política portuguesa O BCE mandou falir o BES e mais recentemente o BANIF  e, contraditoriamente, dá dinheiro aos bancos transpirenaicos para evitar que eles fechem a porta. Dá não é metáfora: dá, pois não cobra juro. Veremos se alguém defende os nossos interesses nesse capítulo.
  • A desvalorização do euro, provocada pelo BCE, em fase de começo da depressão mundial, causara a repetição do pânico das «desvalorizações competitivas», como nos anos 1930, e provocará a viva rejeição dos Estados Unidos. Em breve veremos como ela se manifestará e com que intensidade.
  • As medidas serão eficazes? A resposta é não sabemos, precisamos no mínimo de três meses para ver se aumenta o investimento produtivo. As anteriores ações do Sr. Draghi foram criticadas por não irem suficientemente longe. As de ontem mostram que o BCE supõe que atingirá os seus objetivos aumentdo a dose. Atingirá? O Economista Português  julga que não e por uma razão keynesiana: a taxa de lucro continua abaixo da taxa de juro paga pelas empresas produtivas e por isso não há estímulo ao investimento. O salário é o único preço nacional regulável pelo Estado nacional e o medo do chamado «populismo» impede  a Europa transpirenaica de reduzir os salários nominais ao valor que coloca a taxa de lucro acima da taxa de juro pelo capital pedido emprestado (isto é: impede-a de aplicar a si mesma a política que mandou a troika aplicar-nos a nós). A nova liquidez do Sr. Draghi sairá do circuito económico rapidamente, sob a forma de tesourização e não alcançará a economia dita «real».

Ontem os mercados financeiros mostraram que não acreditam em Draghi: as medidas tomadas deveriam propiciar a desvalorização do euro e ele revalorizou-se face ao dólar. Aconteceu exatamente o contrário do que a teoria indicava.  Porquê? Porque Draghi afastou a possibilidade de mais medidas reflacionistas. O que em princípio é péssimo para nós: o BCE por certo comprará menos dívida pública. É péssimo por outra razão mais funda: o mercado cambial quer o euro alto, a cerca de 1,4 por dólar, o que é insustentável para a nossa economia, a médio e longo prazo. Esta reação do mercado será também má para o Sr. Draghi: anunciando a renúncia a prosseguir, Draghi desfez o seu próprio bluff. O mercado já percebeu isso. É o regante regado.

Acresce que a política de taxa de juro negativa não é generalizável, sob pena de destruir a moeda como categoria económica, implicando por isso o estabelecimento de uma economia de comando, comparável à da Alemanha de Hitler ou da Rússia de Estaline, isto é, uma economia que não responde a estímulos monetários mas sim a ordens do Estado.  A continuação destas narrativas teóricas ficam para outro dia.

One response to “O Sr. Draghi reflaciona, ou o Regante regado

  1. O Economista Português que recebeu de um ROC o seguinte comnentário:
    «Estou de acordo consigo: a liquidez nao chega a econonomia real !
    «Porquê?
    «A razão tem a ver com o facto de por essa Europa fora ha falta de CONFIANCA!!
    «E com o projecto europeu de rastos veja que a coisa não pode acabar »bem….