Produção porcina: a UE e os nossos Governos Desmontam a nossa Economia > Veja como

Só verdades

No passado fim de semana, os nossos produtores de carne de porco manifestaram-se no estilo dos franceses: cercaram Lisboa, cercaram hipermercados e fábricas de concentrados de porco. Declaram a sua atividade ameaçada de extinção. As contas de exploração são mal conhecidas, mas o preço da carne de porco no produtor tem baixado regularmente e os custos de produção aumentam. Os nossos produtores talvez exagerem mas dizem a verdade. Porquê a crise? No essencial, a crise vem da União Europeia (UE) e é acentuada pelo desinteresse do governo português face à nossa produção agrícola.

Vejamos as causas principais da crise:

  • O boicote à Rússia: a Srª Merkel mandou-nos boicotar a Rússia e boicotámos, sem negociarmos nenhuma compensação por essa manobra; a produção porcina foi uma das prejudicadas pois vendia para aquele país cerca de um décimo da sua produção. Os porqueiros portugueses conseguiram descobrir outros mercados, mas não foram suficientes. A crise de Angola diminuiu também as nossas exportações para este país, mas em proporções menores.
  • A pressão acrescida dos porqueiros espanhóis, consequência do boicote à Rússia:  a Espanha, o quarto produtor mundial, foi também afetado pelo boicote à Rússia; produz cerca de 160% do seu consumo interno. Por isso, tenta exportar para nós a crise e invadir o mercado português; segundo os produtores portugueses, vende a preços de  dumping, isto é, inferiores ao custo de produção, e recebe ajudas do Estado espanhol;
  • As campanhas dos hipermercados: para atraírem clientes, os hipermercados desenvolvem uma promoção, muito propagandeada na televisão, com base em saldos de carne de porco; os hipermercados são primos consanguíneos da classe política portuguesa que os deixa agir à tripa forra;
  • A lei da rotulagem, aprovada o ano passado, obriga os hipers e supers a clarificarem a origem do produto e todos sabem que o porco espanhol só se distingue da farinha de peixe por não ser vendido na peixaria. Só lembrar à dona de casa compradora de porco a terra natal do bichinho suscitaria um movimento de repulsa. Alguém viu essa lei ser cumprida? Alguém viu a célebre ASAE multar um hipermercado ou mesmo um pobre supermercado por desrespeitar a lei da rotulagem? Porque será que o governo não dá orientações à ASAE para cumprir a nossa lei, em benefício da nossa produção?

 

 Fontes: Produção de carne de suínos, em tons: Portugal: Estatísticas Agrícolas, INE,  2013; outros países: http://www.letelegramme.fr/economie/crise-du-porc-trois-acteurs-sur-le-gril-20-07-2015-10710869.php. População: The CIA Factbook

  • A carne de porco portuguesa só ocupa metade do nosso mercado de consumo direto: em Espanha, graças às bandeirinhas e à propaganda governamental, ocupa uns 90% (ou ainda há espanhóis que preferem comer carne de porco que não sabe a peixe? alabado sea Dios!). O gráfico acima mostra que entre os produtores de carne de porco, somos os que menos produzem por habitante, com exceção da França. Para mais,  em França, os produtores de porco conseguiram meter na ordem a grande distribuição, e os seus problemas limitam-se à indústria alimentar, que, essa sim, continua a comprar o porco importado mas entre nós a situação é pior: os produtores  apanham na cabeça de todas as bandas do circuito económico.

O ministro da Agricultura, o Dr.  Luís Capoulas Santos, apesar de diligente e sabedor, só agiu depois da ação direta dos produtores, por certo porque alguém disso o impedia nas altas esferas de defender os interesses da produção nacional. Capoulas propôs-lhe propor a Bruxelas quotas nacionais e, ao que parece, dar-lhes a TSU.

A manifestação dos suinicultores originou dois casos que ilustram o desinteresse do governo pela nossa produção, no caso pela nossa produção  porqueira:

  • No dia da manifestação, o Sr. Ministro da Economia não disse para consumirmos carne de porco portuguesa: disse para não irmos a Espanha comprarmos mercancias para… não defraudarmos o ministério das Finanças português. Autopromoveu-se a agente promotor do fisco e esqueceu-se de promover a economia, que é aliás a função dele
  • A GNR disparou tiros (para o ar) numa das manifestações de porqueiros, o que é totalmente desproporcionado. Foi o governo que mandou, inspirado numa conceção lata do prometido diálogo com todos os portugueses? Foi nova tática do comando da GNR? Foi um operacional da GNR que perdeu a cabeça? Nenhuma destas explicações deixa qualquer cidadão descansado. Compreende-se que sejam castigados portugueses que queiram produzir, pois assim contrariam as regras da UE que nos mandam ir para o desemprego, emigrar ou, se nada disso for possível, ter patrões estrangeiros. Mas terão que ser castigados a tiro, mesmo que para o ar, ainda para mais num governo que prometeu diálogo e mais diálogo? Teria a GNR disparado (tiros para o ar) numa manifestação da CGTP a pedir o aumento do salário mínimo obrigatório? e ter-se-ia seguido o silêncio elogioso que se seguiu?

Direta e indiretamente, a produção porcina sustenta entre nós 200 mil empregos. Que importância tem isso para os governos do subprotetorado?

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Para começar a estudar a ajuda estatal à criação de porcos em França

http://www.nievre.chambagri.fr/uploads/media/D_PAC2015_automne.pdf

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