Economistas: 1,6% para reflexão, dizem eles

Nos cursos de Economia,  as disciplinas que exigem «maior reflexão e espírito crítico»  representam, em média, apenas 1,6% dos cursos, afirma o Colectivo Economia sem Muros, um grupo de Economia. É uma comparação internacional, exponenciada por Thomas Picketty, um excelente estatístico da riqueza e um menos excelente  teórico da riqueza. Os diferentes grupos participantes nesse projeto reunirão no próximo fim de semana, em Paris.

Os dados globais sobre as disciplinas estudadas nunca são dados, pelo menos no resumo a que O Economista Português teve acesso: http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/cursos_de_economia_em_portugal_muita_matematica_e_pouca_reflexao.html. O gráfico «de bola» acima reproduzido recorre à categoria «Outros», que inclui quase dois terços da distribuição dos estudos dos economistas. É uma categoria manipuladora, que nos oculta a grelha de análise.

O grupo parece querer que concluamos: os futuros economistas deviam estudar menos matemática e refletir mais. Para isso, oculta-nos  dados.Com efeito, a teoria recomenda que só elaboremos gráficos «de bola» (circulares) para publicitar os dados de toda a distribuição. Os jovens economistas usam gráficos de bola para ocultarem a distribuição, embora acrescentem no texto que  gestão & contabilidade formam com a matemática e & estatística outro grande grupo de disciplinas.

O Economista Português, um blog de «política económica e de economia política», simpatiza  logo à primeira vista com a crítica do ensino vigente da economia mesmo quando ela parece desembocar no regresso a maio de 1968.  Será por falta de reflexão que os economistas como grupo profissional se saíram tão mal da crise económica e financeira de 2008, crise que não previram e ainda não sabem explicar? O fracasso dos economistas como grupo profissional  é uma das causas da atual reflexão larvar sobre os cursos de economia. A outra  é a pressão de economistas marxistas, para os quais a  atual teoria económica, uma ciência burguesa, está sempre e totalmente errada.

Perante o gráfico acima, O Economista Português apenas se atreve a sugerir o inverso daquela conclusão que, ocultando informação, os economistas contestários pretendem que ele tome: os futuros economistas devem reflitam ainda menos e estudarem mais estatística – ou mais inferface entre a estatística e os grafismos bidimensionais da dita. Ou mesmo mais deontologia profissional, disciplina que não julgaram valer a pena identificar nos seus apuramentos (ver gráfico seguinte). Os jovens economistas críticos ganhariam em refletir  sobre a situação profissional do economista nos nossos dias: a organização social espera que ele seja talentoso para os negócios, e para os melhorar estude teoria, como David Ricardo, ou que seja assalariado de uma grande empresa ou do Estado? Os estudantes de economia críticos parecem acriticamente saber que ganharão a vida sabendo usar uma folha de cálculo, o Excel por exemplo, do que  com mais deontologia. Por isso nos ocultam o tempo que gastaram a estudar Excel (ou outra folha de cálculo).

A semântica da reflexão parece, no dispositivo estratégico do texto analisado, substituir a própria reflexão sobre  a teoria económica e o estatuto social dos economistas, duas questões bem diferentes ainda que articuladas. São Paulo, quando desembarcou em Atenas, deparou com um templo dedicado «a um Deus desconhecido». A reflexão parece ser o novo Deus desconhecido desse grupo de economistas.

Os próximos economistas também estudam história, mas não é claro que seja para reflexão.

O gráfico anterior, da mesma fonte, tranquiliza-nos: os economistas portugueses estudam mais 10% de «banca, dinheiro» do que o universo com o qual são comparados. «Dinheiro»!!! Porque não «cacau»?  Talvez fosse bom, além de estudarem dinheiro, estudarem «moeda».

Infelizmente ficamos sem saber se a percentagem de horas por eles dedicadas a estudar «banca, dinheiro, etc» é superior à que são forçados a dedicar à reflexão. Outro gráfico que faltou (um gráfico de bola, claro). Será que os economistas julgam que melhorar o seu ensino é deixarem de estudar moeda? Será que imaginam viverem numa economia de comando central,  como a da Rússia soviética, em que o dinheiro foi substituído por senhas de racionamento? Será que muita reflexão dos economistas substitui o estudo e a compreensão do papel da moeda na economia contemporânea? Não parece que seja por este caminho que os economistas como profissão limparão a testada da crise do «Lehman Bros.».

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