A História Bitriste dos Emigrantes Vítimas do Acidente Rodoviário em França >>> e as suas Lições

Chegaram ontem a Portugal os cadáveres dos doze emigrantes portugueses na Suíça mortos num acidente de viação em França, numa perigosa estrada que passa por Lyon. O acidente é duplamente triste: pelo número das vítimas foi quase um massacre; pela juventude, saúde e amor ao trabalho nada os predispunha para a morte. Ora a surpresa agrava sempre os males do coração.

O acidente é triste por uma outra razão: os nossos compatriotas morreram por sofrerem de uma visão miserabilista da vida. Vieram numa carrinha superlotada  (treze pessoas e respetivas malas nu quando a lotação era para seis passageiros), que num negócio por certo ilegal, para pouparem dinheiro. Vivem no país mais rico do mundo, são cidadãos de um dos países mais ricos do mundo, mas têm a mentalidade de camponeses esfomeados. Tinham meios para virem de avião passar a Páscoa com os seus, teriam mesmo condições para fretarem um Dornier que os levasse a um aeroporto perto da terrinha  mas viam-se como miseráveis, que teriam que se sacrificar e poupar mais para construírem uma casa à la maison com janelas à la fenêtre. Agem como os seus antecessores de uma geração atrás, emigrantes portugueses dos anos 1960 em França, que viviam onze meses por ano num bidonville para serem ricos um mês na sua aldeia. As vítimas não tinham aprendido nada – e as instituições portuguesas (escola, Igreja, etc) nada lhes ensinaram.  Muitos deles frequentavam por certo as igrejas católicas, talvez outras. Entre  as vítimas  está mesmo um acólito. Que aprenderam na Igreja? Não lhes disseram que o suicídio é o maior pecado e a sede do ganho material desprezível, se não for posta ao serviço de um ideal mais alto?

Num tempo em que se volta a falar de reformas, é tempo de lembrar que temos que reformar as nossas mentalidades. A mentalidade daqueles emigrantes atrozmente martirizados transformou as suas vidas num Inferno. Para mais,  ignoravam que na sociedade moderna se tem que cumprir a lei e por isso, ao que parece, para pouparem mais uns euros, violaram o contrato de seguro e as suas famílias pouco ou nada receberão. A casa à la maison permanecerá inabitada e será fonte de maçadas  aos herdeiros.

Ora os emigrantes mortos tinham frequentado a escola portuguesa, tão louvada pelos lóbis nacionais e tão castigada na comparação internacional PISA: que lhes ensinou a escola portuguesa? Que eram miseráveis e que, para o deixarem de ser, deviam sacrificar-se e tinham o direito de cometerem pequenas vigarices.

Com esta mentalidade, as nossas vidas serão um Inferno – na melhor  das hipóteses um Purgatório –  e nunca conseguiremos entrar na sociedade pósmoderna.

2 responses to “A História Bitriste dos Emigrantes Vítimas do Acidente Rodoviário em França >>> e as suas Lições

  1. O Economista Português agradece a seguinte comunicação particular de um leitor, aparentemente português, que naturalmente prefere deixar no anonimato:
    «Agradeço que não me mande mails que vão logo para lixo»

  2. Pingback: NOVO POST EM «O ECONOMISTA PORTUGUÊS», de Luís Salgado de Matos | A Viagem dos Argonautas