Défice estrutural: o Doutor Centeno contra a Teoria Económica do Prof. Karamba

Para um défice sempre igual em termos nominais, se a previsão de crescimento do PIB for de 4 % ao ano, o défice estrutural autorizado é atingido no 2º ano; se for de 1 %, só é atingido no 7º ano. Quem prevê o crescimento a longo prazo, é a Comissão de Bruxelas-Berlim, sob a supervisão técnica do Prof. Karamba

Alguma imprensa anunciou ontem que nove países devedores escreveram uma carta à Comissão de Bruxelas, propondo a alteração das regras de cálculo do défice estrutural. Essa carta, ao que parece encabeçada pela Itália, foi subscrita pelo Doutor Centeno. O Economista Português aplaude. Embora compreenda a manha eleitoral do governo português em semelhante missiva. Se por milagre sairmos do procedimento por défices excessivos (se o nosso défice corrente for inferior a 3% do PIB), passaremos logo para o rolo compressor do défice estrutural – e o governo não terá condições para manter nédias e luzidias as esquerdas orçamentais nem para tentar comprar o eleitorado com o orçamento de 2017. Digamos que, mandando assinar a dita carta, o Dr. Costa A. procede ao seu «fiscal planning».

Mas que é o défice estrutural? À primeira vista, de acordo com as definições, é o saldo negativo da receita menos a despesa, depois de retiradas as variações do ciclo económico. A expressão é  keynesiana: o défice conjuntural devia aumentar na fase baixa do ciclo económico e diminuir na fase alta, diminuição esta que permitiria ainda extinguir o défice estrutural, sem dor, pois apenas impediria que os frutos da expansão fossem integralmente transformados em consumo privado.

Porém, na logomaquia pseudo-teórica de Berlim/Bruxelas ficou a expressão défice estrutural e desapareceu o seu conceito: o défice «conjuntural» nunca excederá 3% do PIB,  seja qual for a fase do ciclo, o que é um absurdo, pois a dimensão do défice depende da concreta situação económica (como se vê com a atual política de «quantitative easing» do Banco Central Europeu, que todos os trimestres ajusta as suas metas). O défice estrutural será de 0,5% para os países cujo défice conjuntural é superior a 3% mas subirá para 1% do PIB para os países sem défice conjuntural: só tem direito a pecar quem não peca. Leu bem: a regra é absurda do ponto de vista da teoria económica. Comandada pelos economistas arcaicos e interesseiros de Berlim, a União Europeia raptou o défice estrutural para castigar os países em défice conjuntural. O PS e o PSD votaram alegremente o Diktat alemão que deu este lindo resultado, cujos malefícios tentam agora minorar.

O Prof. Karamba quando ainda aconselhava apenas a economia da margem esquerda do Tejo e antes de vender os seus serviços a Bruxelas-Berlim

Restava um problema:  como calcular o défice estrutural? Até aqui a Comissão de Bruxelas/Berlim encarregara desse cálculo o Prof. Karamba, êxito garantido nos negócios. O Prof.  Karamba nunca revelou as suas fórmulas para o êxito nos negócios e por isso nunca revelou como calcula o défice estrutural. Dizem as más línguas que o défice estrutural é assim calculado por Bruxelas/Karamba/Berlim: cada medida de liberalização vale x de crescimento do PIB a médio e longo prazo; e nessa linha é inscrito o PIB para o ano corrente. Quanto maior for o crescimento do PIB estrutural, maior será o défice estrutural autorizado. O défice estrutural deste ano depende pois das previsões do Prof. Karamba para daqui a dez anos. Caramba! Sempre segundo essas más línguas, se a Alemanha precisa de mais crescimento do seu PIB, a Comissão Europeia (Europeia … ah! ah! Ah!) ajusta os coeficientes do PIB até dar o défice necessário à Alemanha. Seja como for, é a economia vaudu do Prof. Karamba: a Comissão bruxelina nem sempre publica os seus critérios para definir o défice estrutural.

A notícia da carta dos nove ministros, a que a imprensa financeiras europeia não atribui a menor importância, resulta de uma fuga originada pelo governo do Sr. Rajoy, na antevéspera de eleições espanholas. Parece preparar mais uma tentativa de compra do eleitorado nuestro hermano, acenando-lhe com o aumento da despesa. Esta história do défice estrutural é um rio do deserto, que emerge de tempos a tempos e, depois de tanta farsa, ninguém leva a sério. Veremos se desta vez não é  a habitual brincadeira dos governantes dos países devedores para darem esperança aos seus pobres contribuintes/eleitores ou convencerem-nos que a maldade mudou para Bruxelas/Berlim. Porque a carta talvez tenha um miligrama de independência nacional, para lá das óbvias conotações eleitorais. Veremos.

Os comentários estão fechados.