Crédito malparado: o Governo deve priorizar as Empresas produtoras

 

Fonte: Gráfico do Jornal de Negócios

Numa entrevista ao Diário de Notícias de domingo passado, o Sr. Primeiro Ministro disse:  «era útil ao país encontrar um veículo de resolução do crédito malparado, de forma a libertar o sistema financeiro de um mono que dificulta uma participação mais ativa nas necessidades de financiamento das empresas portuguesas».

A ideia não é nova: já fora proposta pelo governador do Banco de Portugal (BdP)e pela Associação Portuguesa de Bancos (APB), que ontem naturalmente a reendossou. O Governo Passos Coelho recusara-a. Ontem, o PCP e o Bloco de Esquerda  admitiram-na com uma condição pesada: não ser paga pelo contribuinte. Parabéns, puseram o dedo na ferida.

Porque o essencial da questão é: quem pagará o malparado? O malparado é crédito que os bancos não conseguem cobrar. De momento é pago pela banca (mas há situações intermédias, em que o devedor paga os juros, ou parte deles). Para o extinguir, é necessário que alguém o pague. Se for o contribuinte, a solução é simples, mas cara e imoral: se o contribuinte paga à banca a dívida do vizinho do leitor, porque razão deverá o leitor pagar à banca a sua dívida?  É o chamado «risco moral», que só por si deveria proibir o recurso ao dinheiro dos contribuintes. Como o Dr. António Costa não afastou essa «solução», ficamos todos receosos.  No extremo oposto,  está  a ausência de ressarcimento pela banca: os devedores dos bancos são declarados falidos. Esta última solução desequilibra os balanços das instituições de crédito. Há soluções intermédias:  venda de créditos com desconto a quem queira correr o risco da cobrança; refinanciá-los, na esperança de melhores dias que permitam aos devedores aos bancos reembolsá-los. Os bancos têm vindo a aplicar essas soluções  e devem ser incentivados nesse sentido.

O Economista Português aprova o estudo de todas as soluções mas pede que não se acredite na miragem portuguesa que é possível pagar uma dívida sem que ninguém a pague.  Mas anota que o governo não adiantou nenhuma proposta e que o fenómeno do mal parado está mal estudado.

A questão do malparado, aliás, é importante mas não prioritária: em termos de estrutura creditícia (em termos de conjuntura é o spread  da nossa dívida pública estar de novo agravar-se)  o malparado estabilizou nos últimos anos  e aflige sobretudo o NovoBanco. O diagnóstico proferido pelo Dr. Costa é inexato: o crédito não chega às empresas porque os bancos precisam de mais capital para conseguirem emprestar mais, e não por causa do malparado; e. do lado da procura de crédito, as empresas não conseguem contrair novos empréstimos por os juros serem altos e por em média as suas estruturas financeiras oscilarem entre o precário e o catastrófico.  Como sem empresas produtivas a riqueza não aumenta, e sem a riqueza aumentar não será possível pagar o crédito malparado, a prioridade deve ser aliviar  a estrutura financeira das empresas as quais, mais do que os particulares, são as grandes responsáveis pelo malparado.

  • Criando uma bolsa de valores própria para pequenas e médias empresas,
  • Obtendo fundos europeus,mais que não seja os tão prometidos Portugal 2020
  • Pondo finalmente a funcionar o tão prometido e sempre adiado «Banco de Fomento».

 

 

One response to “Crédito malparado: o Governo deve priorizar as Empresas produtoras

  1. O Economista Português recebeu o seguinte comentário de um reputado (e bem humorado) economista e partilha-o com os seus leitores:
    «Refrescante ( seja me permitido o termo) este seu post sobre o malparado!
    «Apeteceu me gritar pelo velho Milton Freedman mas aqui as coisas estao distorcidas…..
    «A lista do malparado do ex-BES e escandalosa e os amigalhacos ficaram bem aviados!
    «Concordo que sem auxilio as empresas produtivas a coisa nao se resolve com paninhos digo banco mau.
    «Como diz e bem ( no fim da linha) paga o banco ou a maralha habitual.
    Banco de Fomento? E a CGD para que serve? Para colocar os Varas e as Cardonas deste cantinho a beira mar plantado!?
    «Fiquei entupido com o imarcescivel mas nada que o meu dicionario nao resolva.»