A Banca portuguesa e a Eurozona: a CGD só nos interessa se der Prejuízo e o Prejuízo mata a CGD

  Adam Smith desconfia dos negócios da CGD

 

  «Todas as leis sanguinárias de Espanha e de Portugal não são capazes de manter nesses países o ouro e a prata que eles possuem»

Adam Smith, A Riqueza das Nações, livro IV, cap. I

 

O Dr. António Costa sugeriu o «banco mau» como solução para o malparado da banca por causa da Caixa Geral de Depósitos (CGD), informava ontem o i on line. O jornal dava a decisão por consumada.  Consummatum est? Talvez não. O Engº Faria de Oliveira, presidente da Associação Portuguesa de Bancos, sugeria ontem uma solução europeia para o problema do malparado.

A «solução» é imposta por o banco do Estado ter acumulado prejuízos, em exercícios sucessivos. Para os compensar, tem que aumentar o capital social. Ao que parece é necessário mil milhões de euros.  É dinheiro: mais de meio por cento do PIB português.  Mesmo assim é mais barato do que o BANIF. Mas o BANIF  também começou muito em conta…

O capital para a CGD tem que ser proveniente de uma de duas fontes: o Estado ou privados. O PSD quere-o privado mas minoritário. O PS quere-o exclusivamente estatal e, em suposta alternativa, prefere o «banco mau».

Trata-se de três fantasias que, a concretizar-se, se revelarão dispendiosas Vejamos

  • A solução do PSD consiste em perder só um bocadinho da virgindade estatal da CGD. Seria ótimo, se houvesse um capitalista por esses ajustes. Será porém difícil descobrir um investidor masoquista, disposto a perder dinheiro até Cristo voltar apenas por amor à CGD ou simpatia para connosco. Só se for o anónimo que estava mortinho por investir no BANIF  e nunca ninguém viu. Como a perda parcial da virgindade bancária se afigura neste caso  impossível; vale mais privatizarmos  a CGD de imediato  e por inteiro. É que, se aparecer esse capitalista, ele terá uma agenda oculta que teremos que mais tarde teremos que pagar muito caro; por exemplo: pagando-lhe para ele nos comprar a CGD, uma especialidade do nosso governo.
  • A solução do PS é também irrealizável: O Estado está em défice, não consegue pagar as dívidas e não tem dinheiro para investir na CGD; não tem hoje nem terá amanhã; o lado visível desta impossibilidade é necessitarmos de autorização bruxelina para essa operação; é uma solução que não é solução;
  • O «banco mau» é declararmos a falência e continuarmos no negócio como se não tivéssemos declarado a falência: é evidente concorrência desleal, é ter a porta fechada e aberta ao mesmo tempo. É óbvio que a Comissão de Bruxelas nunca autorizará, ou, a autorizá-la, exigirá que nunca seja aplicada.

Convém aliás esclarecer que a CGD só interessa aos portugueses se der prejuízo: por boas razões,  se os seus prejuízo serviram para financiar industrias nascentes, arriscadas, que deram prejuízo por um período mais longo do que o previsto e geram durante anos mal parado mas serão sólidas a mais longo prazo. Por más razões, se transferem rendimentos graças a especulação imobiliária ou bolsista (na realidade, por subsídios pagos pelo contribuinte e dele ocultados). A bem dizer, não tem sido explicado aos portugueses a origem dos prejuízos da CGD: serão prejuízos virtuosos porque os seus gestores investem no nosso futuro? serão défices viciosos, derivados da incompetência dos seus gestores? Os prejuízos são tão frequentes que custa a crer que se devam apenas às condições de mercado, mas esta hipótese deve também ser estudada por uma comissão independente e competente. Se a CGD fosse um banco de investimento industrial, agrícola e comercial valeria a pena negociar com Bruxelas para que ele desse algum prejuízo. Em globo prejuízos são o equivalente moderno das «leis sanguinárias» castigadas por Adam Smith: o Estado cobra-nos à força (é o lado sanguinário, hoje atenuado) impostos para pagarmos os prejuízos da CGD, isto é, para evitarmos que os ativos líquidos tomem o caminho do estrangeiro, onde deveriam estar se se aplicasse a lei do mercado, a que Karl Marx chamava com graça «lei do valor». Se a CGD for um banco comercial normal, que dá lucro porque financia atividades sem risco, tanto dá que ela seja estatal como privada, nacional como estrangeira.

O Economista Português tem procurado banalizar uma simples verdade teórica: enquanto estivermos na Eurozona nunca conseguiremos ter um banco. Teremos balcões, com designações ocasionalmente em português, mas distribuem uma mercadoria importada chamada empréstimos e pertencem por norma a cidadãos dos países produtores dessa mercadoria. Porque a matéria prima de um banco são as poupanças e em Portugal não há poupanças. Infelizmente a classe política portuguesa é incompetente e julga que consegue comer o bolo e guardá-lo na cofre.

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Post referido no texto acima

http://www.ionline.pt/504113

One response to “A Banca portuguesa e a Eurozona: a CGD só nos interessa se der Prejuízo e o Prejuízo mata a CGD

  1. O Economista Português partilha com o leitor o comentário seguinte, enviado por um economista:
    «Desde logo a frase realista de Adam Smith que desconhecia e depois a sua lucida(como sempre) analise sobre a CGD!
    «Eu sublinharia a vergonha que tem sido o compadrio das nomeacoes para o CA.
    «Uma serie de boys e girls cuja competencia nao comento: Varas,Cardonas,etc,etc.
    «Finaliza referindo um ponto que este seu modesto amigo vem sublinhando: NAO HA POUPANCA LOGO NAO HA INVESTIMENTO LOGO VENHA ELE DO ESTRANGEIRO.»….