TTIP: Greenpeace quer que façamos chichi na cama pois julga que ignoramos a cadeia alimentar

Der Spiegel, um semanário do país europeu mais subserviente a Washington, provocava ontem a revolta dos seus leitores on line  com a suposta «cólera»  dos States por a União Europeia lhes fazer face no TTIP

Ontem, a imprensa e as televisões deste mundo foram invadidas pela última campanha de intoxicação do Greenpeace: promoveu uma fuga de informação  da última ronda de negociações do TTIP (Parceria Internacional para o Comércio e o Investimento), em Bruxelas, e com base nela procurou mostrar a União Europeia de cócoras perante «a chantagem» dos Estados Unidos, ameaça-nos com perigos terríveis mas não identificados e, para os evitar, apela ao patriotismo europeu contra o imperialismo yankee. Na segunda vaga da intoxicação, os  perigos mortais foram substituídos pela perturbação do ambiente e o alargamento do buraco do ozono – além do ataque às «grandes empresas», apresentadas como únicas beneficiárias do TTIP.

Leia a seguir a nova definição de chantagem, lançada ontem pelo Greenpeace

É tragicómico ver um lóbi que se diz ecologista propagandear o nacionalismo europeu, uma realidade de triste memória que, de momento O Economista Português prefere não invocar. A «chantagem» consiste  em Washington não deixar os carros europeus serem vendidos no seu mercado se não lhe comprarmos produtos alimentares. Isto é: para o Greenpeace quem propõe uma troca à UE é chantagista.  Cuidado com o Greenpeace, portugueses, se quiserdes negociar com a UE, sereis chantagistas! A UE, na vanguarda da ciência e da bondade humana, tem que se defender de um gigante atrasado e ignaro que dá pelo nome de Estados Unidos. É divertido que este caso de nacionalismo europeu tenha ocorrido no mesmo dia em que Paul Krugman, o conhecido economista hipercrítico do capitalismo americano, escrevia no New York Times  que visitar a Europa dá vontade de se ser americano: na UE o desemprego é mais do dobro dos Estados Unidos e a taxa de crescimento económico é menos de metade.

Graças ao Greenpeace estaremos pobres, sem esperança e desempregados mas muito saudáveis. Este lóbi ecologista só a custo revela o seu grande problema com o TTIP; é que ele elimina a última barreira protecionista: a cláusula de segurança alimentar, e assim proíbe todos os Estados membros da UE de recusar comprar alimentos transgénicos aos Estados Unidos. O Greenpeace convenceu-se, sem a menor prova científica, que estes alimentos matam e quer assustar-nos com isso.  Também se dispensou de dar provas para as suas outras e mais banais acusações.

Vista a esta luz, a campanha do Greenpeace oscila entre o ignorante e o repugnante. Será que a conhecida organização ecologista ignora a noção de cadeia alimentar?  Quando  o leitor come uma bifana, mesmo que saiba onde foi produzido o reco, de que lha cortaram, ignora o que o reco comeu. Mesmo que saiba o que o reco comeu, ignora o  que comeram os bichinhos cuja matéria prima está na origem do reco que originou a nossa bifana. Ou as chuvas ácidas que caíram sobre os vegetais que eles comeram. E que por certo continham alimentos transgénicos. Isto é: não há uma relação direta alimento > consumidor, que permita a este estar informado do que come, pois os alimentos integram-se numa cadeia gigantesca e por definição incognoscível em todo o seu pormenor. A divisão social do trabalho tem destas desaventuras que o espírito ruralizante, nacionalista e autárquico do Greenpeace não reconhece ou, por hipocrisia, não quer reconhecer. Na frase popular, o Greenpeace ou é parvo ou faz-se.

Talvez os transgénicos sejam maus, mas são como o terramoto: não há como fugir-lhes. O leitor conhece a noção de cadeia alimentar e por isso come e comerá descansado. Sabe que já comeu muito transgénico e, se Deus lhe der vida e apetite, muitos mais comerá – embora sem se apoiar num rigoroso cálculo de probabilidades.

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