Eurozona perdoa dívida grega > Governo de Lisboa esquece-se de Portugal

 

Fontes: Dívida: em percentagem do PIB; http://www.bbc.co.uk/news/business-15748696 (é uma página interativa muito recomendável, embora com dados discutíveis); PIB por habitante; PIB por habitante em milhares de euros por ano: http://ec.europa.eu/economy_finance/ameco/user/serie/ResultSerie.cfm

 

O conselho de ministros da Eurozona reúne hoje. Na agenda está o perdão parcial da dívida grega. Portugal, cuja dívida  é proporcionalmente igual à da Grécia, fica esquecido. O mais certo é que hoje nada seja resolvida mas que o perdão grego seja oficialmente agendado. E nós esquecidos. É mais um caso de incompetência da classe política portuguesa.

A França apoia o perdão. Na Alemanha, o Sr. Sigmar Gabriel, sócio maioritário da Partido Socialista Europeu, de que o nosso partido de governo é modesto sócio minoritário, acaba de dar o seu apoio ao perdão da dívida grega.  Ontem, o Wall Street Journal Europe dava uma certa probabilidade ao triunfo do perdão mas lembrava que o ministro das Finanças alemão se lhe opõe. O leitor lembra-se que no último acordo com a a Grécia, a União Europeia a contemplou com umas promessas vagas de redução da dívida. Chegou o momento de as pagar, momento taticamente mau para a direita alemã, devido às patetices que cometeu com os «refugiados». Convém ter em conta que o Fundo Monetário Internacional (FMI) voltou a relembrar que se retirará do apoio à Grécia na sua próxima crise se não lhe for perdoada parte do capital em dívida. O FMI tem uma melhor relação com o princípio da realidade do que os nossos credores germano-holandeses: ele sabe que dá sempre mau resultado fingir que é sustentável uma dívida insustentável. Os nossos credores preferem espremer o limão até que ele deixe de pingar. Ora a nossa dívida global é tão insustentável como a grega.

A nossa dívida externa em proporção do Produto Internacional Bruto (PIB) é igual à da Grécia (há uma diferença de 0,4% a nosso favor). O facto passa muitas vezes desapercebido porque a dívida pública grega é proporcionalmente maior do que a nossa (há outras estimativas, em geral pouco divergentes desta). É maior pela boa razão que os gregos não a pagam e nós pagamos como carneirinhos (antes conhecidos por «bons alunos»). O nosso PIB por habitante é praticamente igual ao grego (há uma diferença de 0,6% a nosso favor). É assim que respeitados media  internacionais vêem as posições relativas de Portugal e da Grécia. Qual é a razão de sermos pior tratados pela União Europeia do que os gregos? Os gregos beneficiam de governos que os defendem e nós temos governos que só se lembram de defender os nossos credores – sejam eles governos de direitas, como ontem,  ou de esquerdas (orçamentais), como hoje.

Júpiter repreendido por Vénus, de Abraham Janssens, século XVII flamengo

Ou o nosso governo de esquerdas estará caladinho sobre o nosso perdão de dívida não por o Doutor Centeno, reputado economista laboral, ser  uma criatura inenarrável mas sim porque o Sr. Sigmar Gabriel, o boss socialista teutónico e credor, disse ao nosso PS para esperar que a previsível retirada helénica do FMI provoque uma terceira crise da dívida da qual sairá, qual Vénus da coxa de Júpiter, o supostamente redentor Fundo Monetário Europeu?  Esta aposta diminuiria os fundos disponíveis para o nosso país, reforçaria o poder dos nossos credores sobre nós e não oferece a mínima garantia de defender os nossos interesses. É caso para dizer: Vénus, a hábil negociante, ralha com Júpiter, o todo poderoso e um bocado tonto.

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