O Economista Português entrou no seu sexto ano > Valeu a Pena?

 

O Economista Português acaba de entrar no seu sexto ano de publicação. Ele nasceu para evitar que saíssemos do euro convencidos que assim enriqueceríamos. O seu programa consta da Arca da Aliança, cujo caminho ao alcance de um clique, no local indicado  com as cores da bandeira nacional (se clicar, queira clicar no original, no topo da página). A Arca da Aliança tem cinco anos e continua em linha porque infelizmente continua a ser de total atualidade.

Quanto à substância (guardaremos a análise do estilo para o décimo ou mesmo o vigésimo aniversário), O Economista Português tinha três grandes objetivos:

1º  Defender a racionalidade económica. Por exemplo: o saldo orçamental é a diferença entre as receitas e as despesas mas o atual governo acredita e persiste em tentar convencer-nos que é possível manter as receitas, aumentar a despesa e aumentar o saldo positivo, sem crescimento económico. É a economia da Alice no País das Maravilhas. Se ela fosse exclusiva do Dr. A. Costa, O Economista Português dormia mais descansado.  Esta defesa da racionalidade económica passava por estimular o leitor a compreender melhor os comportamentos económicos e financeiros,  enquadrando os acontecimentos quotidianos nuns rudimentos de teoria económica e financeira. Por isso, se O Economista Português nunca hesitou em tomar posição, só tomou posições fundamentadas, o que pela natureza das coisas significa que assumiu teses sempre discutíveis.

Defender a economia portuguesa face aos nossos credores. Foi formado, depois de eleições inconclusivas, um governo de esquerdas. PS mas sobretudo PC e Bloco de Esquerda tinham defendido a reestruturação da dívida. A reestruturação da dívida   significa pagarmos menos impostos, significa mandarmos para o estrangeiro uma parte menor do excedente que produzimos. Que fazem o Dr. António Costa, o Sr. Jerónimo de Sousa e o Doutor Francisco Louçã (através do alter ego denominado Srª d. Catarina Martins)? Esmeram-se a pagar a dívida aos nossos credores. O contrário do que ontem sugeriram ou juraram. Eles são o cobrador de fraque que tomou o lugar daquele governante que ontem apresentavam como o vampiro das cobranças. Pouco ou nada ganhámos. É verdade que nos últimos tempos, surgiram boas notícias: começaram a emergir uns laivos de patriotismo económico. Sente-se o eurofederalismo beato a entrar em crise na esfera pública – mas é lícito recear que esteja em vias de ser substituído por um diferente cretinismo.  Outro evangelho: o Dr. João Salgueiro quebrou o silêncio público da classe política e dos economistas ao colocar o dedo em algumas feridas. É muito e é muito pouco (para se apropriar deste «muito pouco», queira ler o post seguinte).

Promover o crescimento económico. Nem a direita nem a esquerda o defendem. O Dr. A. Costa fez campanha eleitoral a acusar um colega jotinha, o Dr. Passos Coelho, por não ter distribuído os fundos do Portugal2020 e ele próprio, mal conseguiu presidir à mesa do orçamento, lançou como obra regeneradora … aumentar o salário mínimo obrigatório, uma política que qualquer político ou economista  minimamente competente sabe que fomenta o desemprego, e esqueceu o Portugal 2020, uma das poucas hipóteses ao nosso alcance para criarmos emprego. O ex jotinha A. Costa tem desculpa: os patrões esqueceram-se de alertar os portugueses para os custos do aumento do salário mínimo obrigatório. Deus sabe o porquê deste esquecimento .

Gare Marítima da Rocha de Conde de Óbidos, peça de um tríptico de Almada Negreiros

Basta enunciar estes propósitos para o leitor verificar sem esforço  que  O Economista Português os falhou completamente. Valeu a pena? «Tudo vale a pena, se a alma não é pequena», como escreveu Fernando Pessoa, um mestre d’ O Economista Português. Até amanhã se Deus quiser.

*

O Economista Português re-releu mentalmente o post acima e detetou duas ausências que fundamentarão eventuais reclamações do leitor  habitual: gralhas e tiragens. Para as evitar, desincumbe-se

Gralhas: como Cristo disse, as gralhas estarão sempre entre nós. Cristo disse-o dos pobres mas gralhas e pobres são ambos frutos do erro por inadvertência. O Economista Português limita-se por isso a lamentar o transtorno para o leitor.

Tiragens: sempre que vê as estatísticas da frequência do blog, O Economista Português surpreende-se com a quantidade anormalmente elevada de pessoas inteligentes, corajosas e devotadas que existem entre os leitores de língua portuguesa. Por isso suspeita que tem leitores a mais, que aqui aterraram por virtude de pesquisas aleatórias na World Wide Web, ou de leitores que vieram de propósito porque se lisonjeiam em imaginar que entendem o que na realidade não entendem nem tão pouco querem entender. Porque O Economista Português é um blog difícil: é difícil para o intelecto, pois é uma lição universitária quotidiana; é difícil para o coração pois não aceita as cautelas das casas de prego de ideias, sentimentos e ações, indispensáveis para tantos portugueses que nelas assentam o seu equilíbrio mental, emocional e nutritivo (o cidadão deposita nessas casas a cabeça, que pensa, o coração, que decide,  e a mão, que concretiza,  recebendo em troca uma cautela, pagável em geral pelo orçamento do Estado) e só consegue recuperar os objetos depositados depois de remir a cautela. Sem falar da ameaça de indigestão provocada pelas gralhas.

Ora, para conseguir ler O Economista Português, o leitor tem que perceber pela sua própria cabeça, decidir como o seu coração lhe dita e agir com a sua própria mão (sendo indiferente se concorda ou discorda do que leu). Para  a esmagadora maioria, é maçada a mais.

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3 responses to “O Economista Português entrou no seu sexto ano > Valeu a Pena?

  1. Claro que valeu a pena. Continue! E um abraço,

  2. Filipe Dias

    Muitos parabéns pelo seu blog.

    Gostaria também de lhe pedir a sua opinião do que irá acontecer no futuro com o progresso da automação e os esperados 50% de desemprego. Surgirá um ordenado universal?
    Também encontrei um artigo muito interessante que nos sugere que já estamos a atravessar tempos em que temos mais gente a trabalhar do que é necessário:
    http://strikemag.org/bullshit-jobs/

    Com os melhores cumprimentos,

    Filipe Dias

  3. O Economista Português agradece. aos leitores. Não conseguiu ler o artigo recomendado mas responde brevemente. O entrosamento da informática com a robótica, em conexão com os progressos recentes da inteligência artificial, criam máquinas capazes de pensarem, máquinas que tendencialmente criarão outras máquinas. A influência do marxismo, para o qual só o trabalho cria valor, e do marginalismo, para o qual só qual só o consumo monetarizado cria valor, , impedem-nos de ver isso. A Organização internacional do Trabalho é incapaz de estabelecer estatísticas do trabalho assalariado em termos mundiais, dificultam a verificação empírica da estagnação da criação de empregos na economia mundial. Mas ele parece ser um facto. Os sindicatos atribuem.na ao comércio livre (vide as eleições dos Estados Unidos) mas a sua causa real parece estar na inforrobótica. Quando começou a Revolução Industrial, os «ludditas» destruiram as primeiras máquinas acusando-as de destruirem o emprego. A teoria económica julgou ter provado que os «ludditas? nunca teriam razão: era uma aplicação da lei de Say, a procura cria a sua oferta e corre sempre tudo bem. Talvez fosse assim quando as máquinas eram o simples prolongamento da mão, mas já não é necessário que seja assim quando as novas máquinas, os inforrobots, subnstituem a ligação do cérebro e da mão.