Portugal face a Bruxelas-Berlim: Mendigar ou Negociar?

 

De um dia para o outro, as autoridades portuguesas  reivindicam a Bruxelas-Berlim: o Presidente da República, o Primeiro ministro e o governador do Banco de Portugal parecem em uníssono a declararem-se credores da federação europeia assimétrica, ou a pedirem-lhe exceções. Este clima manifestou-se ontem num encontro sobre «O presente e o futuro do setor bancário»  que decorreu  no Hotel Ritz com larga participação de bancários/banqueiros e foi organizado  pela Associação Portuguesa de Bancos e pela TV  (pelos vistos especializada em banca portuguesa, desde a fuga de informação que arruinou o BANIF  e será hoje depoente na comissão parlamentar de inquérito». Reivindicam ou parecem reivindicar porque finalmente perceberam que a margem de manobra nacional está reduzia a zero?

Temos que distinguir duas variáveis: os problemas da banca a atitude  da classe política portuguesa face à União Europeia (UR). As duas variáveis cruzam-se.

  • A banca está em má situação e o futuro é negro: ainda não conseguiu ver-se livre da crise de 2008 (é o célebre «mal parado»,  devido por empresas falidas ou semifalidas) e a baixa de taxas de juro diminui-lhe as margens de lucro o que repele os nossos capitais de que necessita para satisfazer as regras mais exigentes de liquidez constantes do chamado Basileia 3.
  • A República de Portugal está pior do que a banca. Como é sabido, a UE atamancou um sistema bancário europeu muito aplaudido pelas autoridades portuguesas e que  já se viu ser ruinoso para nós:  os bancos bons pagam aos bancos falidos (uma solução inspirada do socialismo à Brejnev) e quando não paga o contribuinte nacional; quem decide são os nossos credores. O Sr. Draghi e a Comissão Europeia mandam fechar um banco (só dos grandes) e o contribuinte português paga aos depositantes. São prejuízos nacionais e lucros federais. Parece que em 2026 a coisa se comporá e deixará de ser prejudicial para nós.  A negociação bancária europeia revelou a incompetência económica e europeia da nossa classe política. Essa incompetência ressalta das palavras ontem proferidas pela Doutora Elisa Ferreira que, como deputada socialista europeia foi uma das responsáveis pela negociação : «Urge, por questões técnicas e de boa fé, concluir o que está em falta na União Bancária, ou seja, implementar a garantia comum de depósitos, mesmo na versão actual, e o ‘backstop’ [linha de financiamento comum] para o mecanismo único de resolução». Mas então aprovámos porquê? Somos masoquistas? Queríamos perder dinheiro com o BANIF e com o que por aí vem? A classe política portuguesa ignorava que o BANIF  estava na calha para a resolução? A classe política pensou que a Comissão bruxelina incarna a razão universal e por isso nunca desconfiou que ela seria maldosa? Aclasse política portuguesa nunca reparou que Londres não quer que Bruxelas meta as patas na City porque não acredita na imparcialidade financeira da comissão dita Europeia?  A nossa classe política ignorava os planos bruxelinos para constituir uma meia dúzia de grandes grupos bancários na UE?  Se a classe política ignorava esta BÁ BÁ, o que anda por aí a fazer? Se não ignorava, porque aprovou uma sistma bancário que nos pprejudica? A Doutora Elisa Ferreira não é incompetente, muito pelo contrário, é uma pessoa inteligente e por isso este seu queixume vale mais. Seria i bom para a economia portuguesa se ela narrasse como chegámos a este triste resultado.

As palavras da doutora Elisa Ferreira  são proferidas no mesmo registo dos restantes responsáveis portugueses: parecem negociar mas realmente imploram.  Sempre no mesmo encontro bancário/banqueiro, Fernando Ulrich colocou com diplomacia o dedo na ferida: «ninguém responsável» protestou contra o facto de o BPI ter sido expulso de Angola, tudo o que o BPI tem ouvido são   lindas  palavras  sobre a CPLP, Lusofonia, etc, mas sem a menor ação a apoiá-las. Foi o Banco Central Europeu que expulsou o BPI de Angola, perante o silêncio estúpido e cobarde da classe dirigente portuguesa.

É que a única salvação económica da banca «portuguesa» seria levar o dinheiro barato da Europa do norte para a África que dele precisa para se desenvolver. Ulrich tem talento para os negócios, concebeu o nosso negócio bancário africano,  posicionou o BPI nesse caminho – e Bruxelas-Berlim roubou-lhe o apetitoso negócio. Veremos a quem o deu. Aquelas palavras de Ulrich sugerem que  onde alguns vêem reivindicação portuguesa, outros observam salamaleques lusos.

Hoje a  Comissão dita Europeia decidirá se de novo nos humilha pelo incumprimento do défice. A Itália  triangulou com Berlim e Bruxelas e conseguiu que a Comissão lhe reduzisse oficialmente o défice. O Economista Português assinalou isso tempos atrás. Nós negociamos mal com Bruxelas/Berlim e choramingamos quando nos vemos no chiqueiro que criámos pela nossa esforça ação.  Face a Bruxelas-Berlim, é melhor negociar ou mendigar ? Hoje veremos alguns resultados.

 

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