Simplex24Rambo: Verniz em Madeira carunchosa + Empresas esquecidas + Big Brother

 

O governo anunciou ontem com grande pompa um programa que dá pelo nome de Simplex,  uma designação oficial caricata e imodesta. Esse programa não altera os processos caducos e corruptos da nossa administração pública e limita-se a informatizá-los, salvo duas generosas exceções.

O Economista Português estudou uma a uma as 16 medidas que o governo considera emblemáticas do novo Simplex24Rambo, averiguando se elas simplificam a vida do cidadão ou da empresa e se simplificam os processos prémodernos da nossa administração pública.  Na realidade, o Simplex inclui uma única medida de simplificação administrativa: a morada deixa de constar da carta de condução. Que coragem! No caso da «Aquicultura + simples» (os nomes dos ações são quase todos deste jaez),  o Governo perdeu a cabeça e entrou no reformismo avançado: encurtou um prazo. Mas encurtar prazos não cura a caquexia burocrática.

As empresas não agrícolas foram esquecidas: têm duas medidas em dezasseis, uns vigorosos 12,5%, que medem por certo a importância que o governo em funções atribui à criação de riqueza.  Uma é apenas para a «aquicultura», um estupendo neologismo que é a singela contribuição do Simplex24Rambo para o enriquecimento do léxico português. A outra destina-se a facilitar as cobranças da segurança social e só muito moderadamente beneficia as empresas. Isto é: o Simplex24Rambo esquece as empresas (a única medida a favor das empresas agrícolas só é compreendida por quem tiver estudado muita teologia tibetana e por isso não a contabilizamos).

O Simplex24Rambo simplifica a vida do cidadão? Diminui a ida à repartição mas aumenta-lhe a morosa aprendizagem informática, para as mais simples atividades. E transforma o cidadão em funcionário público: no caso da escola, o cidadão tem que se tornar administrador escolar dos seus filhos. O mesmo ocorre noutros casos de suposta simplificação: o português funcionarizado, transformado à revelia em auxiliar de ação administrativa, é felicitado por a sua vida estar simplificada. Muitos cidadãos passam a ter que se desincumbir dos trabalhos estatais de outros: os médicos, por exemplo, passam a tratar da carta de condução dos seus doentes.

O governo tirou a morada da carta de condução e O Economista Português   comentou: acima: «Que coragem!» O leitor pensou que era a brincar? Era ironia mas era a sério. A carta de condução serve para os acidentes de viação e para as multas por factos relativos à viação automóvel.  O PSP ou o GNR, que mandou parar o leitor, carrega numa tecla e tem no seu visor a morada do leitor e tudo o mais que o Estado sabe sobre si: idade, morada, IRS, multas pagas, contravenções, absolvições em tribunal, condenações em tribunal,  etc. Tem tudo aquilo que o Estado o deixa saber sobre si. Por isso o comentário «Que coragem!» O Estado finge que nada sabe sobre o leitor para o enganar e lhe cobrar mais em taxas de renovação e o maçar com trapalhadas informáticas.  Para que serve a carta de condução papelosa? Para o Estado cobrar ao leitor mais uns tustos e sobretudo para o enganar, convencendo-o que, quando o prestável PSP ou o prestante GNR o mandam parar e lhe pedem os documentos, apenas sabem sobre si o que a papelada narra. Que doce fantasia do tempo remoto do Eng.º Guterres! Hoje, a carta de condução devia ser facultativa, apenas para os leitores que julgam que os computadores da Doutora Leitão Marques rebentarão um destes dias, e querem um papel para terem o direito de conduzir nessa ocasião, ou recusam satisfazer a exigência ilegal dos seguranças de portaria e lhes dão a carta de condução para neste Estado de Direito Democrático conseguirem não lhes entregar o BI. Para o  nosso amoroso e prestável Estado, assim como para os seus agentes, a carta de condução não preenche a menor função útil e racional.

O Dr. António Costa e a Doutora Maria Manuel Leitão Marques, além de políticos hábeis, são ambos juristas e, mais que não fosse devido a esta qualidade, todos esperaríamos que rejeitassem esta farsa que engana os cidadãos sobre aquilo que  o nosso amorável Estado republicano versão Big Brother sabe sobre cada um de nós. Mas não só não rejeitam como são os seus putativos autores. O nosso Estado sabe tudo e finge não saber nada – para o governo se dedicar à propaganda préeleitoral e cobrar mais umas taxas. O tema dos direitos do cidadão era bonito para o Bloco de Esquerda – se o Bloco de Esquerda percebesse o que está em causa e se a mesa do orçamento não lhe entaramelasse o olhar. Além das ameaças referidas no presente post, o Simplex contém outras, que aqui não cumpre relevar.

O Dr. António Costa e a Doutora Leitão Marques  apresentaram-nos ontem o Simplex24Rambo em estilo heróico, como uma grande benesse para o cidadão. Em estilo prosaico, à Cesário Verde, O Economista Português vê nele  um simples programa de ações informáticas da administração central do Estado, enfeitado com dois arremedos de absolutamente; na perspetiva da informatização  da máquina estatal, só não o saúda porque não se reconhece competência para comentar um problema tão técnico.  A crescente burocracia municipal continua intocada, pois o nosso governo aspira a tudo menos a maçadas com os seus sátrapas locais. O Economista Português saúda-o nessa prosaica perspetiva, embora lamente ameaças aos direitos do cidadão, e verbera-o porque se limita a dar umas leves pinceladas de verniz em  processos administrativos arcaicos e corruptos.

2 responses to “Simplex24Rambo: Verniz em Madeira carunchosa + Empresas esquecidas + Big Brother

  1. “O Economista Português” informou por acaso as polícias de todos os outros países do mundo de que ia abolir a carta de condução? É que aquele cartãozinho é “internacional”…

  2. OO Economista Português agradece o comentário como sempre inteligente de João Martins. O Economista Português não dispõe de poderes para abolir a «carta de condução», nem aliás propôs que ninguém a abolisse: limitou-se a sugerir que ela fosse tornada facultativa, para benefício dos condutores mais pessimistas sobre os computadores da Doutora Leitão Marques. Se estivesse a redigir uma informação de serviço, teria acrescentado: ou que pensam conduzir no estrangeiro. Mas o nosso gentil comentador que não duvide: os restantes Estados membros da União Europeia também computerizam os seus cidadãos – e também os obrigam a ter carta de condução. A maldade não é apenas do Dr. Costa, Da Dr>ª Leitão Marques – e já, agora, dos Dsr. Passos Coelho e Paulo Portas.