UE: Começa a Fase da Dissolução. Que caminho deve tomar Portugal

Um fraco rei faz fraca a forte gente
Luís de Camões, Os Lusíadas, canto III, 138

O começo da fase de dissolução da União Europeia (UE) é marcado pela saída do Reino Unido. A classe política e os mass media do pensamento único não vêem o começo do fim pelas mesmíssimas razões que a ele levaram: nunca imaginaram que os britânicos votasse a saída. O New York Times, a cabeça jornalística do mundo ativo, vê Bruxelas-Berlim de mais longe e escreveu a seguinte manchete ao anunciar o Brexit: é o «unravelling» da Europa.
Era previsível, e tinha sido previsto, não só o começo do desmantelamento da UE mas também o modo como ocorreria: começaria num dos seus países mais ricos e centrais, e não por uma qualquer crise de uma qualquer Grécia. Assim foi: o Reino Unido é a segunda economia da UE.
A primeira reação da UE ao Brexit revela bem o seu estado de fraqueza catatónica: os seis países fundadores acoitaram-se em Berlim, à sombra do novo Império alemão. Os fundadores ignoram que a sociologia da instituição ensina que esta só sobrevive quando ultrapassa a geração fundacional. Confessaram assim, talvez involuntariamente, que não sabem se sobreviverão. E, para assim se confessarem, trocaram Roma, a Cidade Eterna, por Berlim, a velha capital provinciana onde Adolf Hitler se suicidou e onde reside hoje a capital do dinheiro europeu. Esta reunião ultrajante, que transforma em cidadãos de segunda a maioria da população da UE, foi o facto dos sátrapas da Imperatriz Merkel, os seus ministros dos negócios estrangeiros, entre os quais o pobre senhor J.-M. Ayrault, escolhido pelo subimperador Hollande por … falar alemão (e talvez por ter sido condenado por fraudes financeiras em favor do PS francês e sabe Deus de quem mais). É certo que a saída do Reino Unido reforça de modo mecânico o poder do defunto eixo franco-alemão, pois aumenta a percentagem da sua população: era 26 % do total dos 28, passa a 29% dos 27. O acréscimo é insignificante e muito longe da maioria. Nos seis fundadores, o diretório germano-francês dispunha de quase dois terços da população e por isso mandava aristocrática e democraticamente. Esses tempos vão longe mas o reflexo condicionado infantil ainda não foi ultrapassado. Após o Brexit, mesmo os seis Estados-fundadores não têm a maioria: ficam abaixo dos 42%. Nós, os cidadãos de segunda da UE, somos 58%.
A arrogância da UE ao negociar o falso ultimato britânico, lançado o ano passado pelo Sr. David Cameron, revela bem a sua inconsciência: Berlim e Bruxelas supuseram a chantagem suficiente para vergar a vontade dos eleitores britânicos. Não acreditarem que alguém pudesse desafiar a Imperadora Merkel e a comissão bruxelina. Cameron, a penosa imitação de Churchill, que já tinha errado na parte gaga do falso ultimato, partilhou esta ilusão da Imperadorae defendeu o «remain» pelo método único e simples de ameaçar os britânicos com a catástrofe económica e financeira que se seguiria à saída: os eleitores riram-se dele. Riram-se com razão: após o Brexit, a desvalorização do esterlino foi reduzida e é recuperável, desde que os britânicos trabalhem um pouco mais. Em breve receberão nova confirmação que a classe política é um bando de intrujões ignorantes: Cameron prepara-se para explicar que o Reino Unido fica melhor sozinho, terá é que se esforçar um pouco mais. A City de Londres já começou a tocar esta melodia, por enquanto quase inaudível, pois não é cantada por um tenor qualificado.
A alquimia da decadência transforma a derrota em orgulho. A UE derrotada no referendo britânico reagiu com orgulho, manifestando convicção de vitória e desejo de vingança: apressou-se a dar um Diktat a Londres, para se divorciar depressa, sem perceber que um divórcio ruinoso será ruinoso também para Berlim e para os seus dependentes. É certo que a Imperatriz já lançou água nesta fervura dos seus sátrapas, mas não há uma segunda ocasião de causar uma primeira boa impressão. Tanto mais que off the record colaboradores dela já andam a dar falsas esperanças à Escócia.
O futuro próximo da UE é fácil de prever: oscilará entre o reforço do federalismo assimétrico e o aumento da competência dos Estados-membros. No fundo, sofrerá a agudização do conflito entre as duas metodologias da unificação europeia, nascidas nos anos 1950: a da EFTA, promovida pelo Reino Unido, que assentava na soberania nacional e queria uma zona de comércio livre; a franco-alemã, que visava um Zollverein, então civilizado em mercado comum, com uma pauta exterior comun e recursos financeiros próprios, que está na origem da atual UE. Estas metodologias opostas nasceram muito antes dos anos 1950: o Reino Unido sempre quis o equilíbrio europeu (isto é: sempre quis que nenhum Estado hegemonizasse a Europa) ao passo que alemães e franceses sempre quiseram o Império, nome chic e criptorromano para o domínio de um desses dois países sobre todos os outros. O «Império» chama-se hoje União Europeia mas a heteronimia só engana os tolos. Esta oposição multissecular persiste e a UE será incapaz de descobrir um ponto de equilíbrio (será incapaz de se reformar) pois, o que modernamente valorizava a solução imperial-federal era vir com o bónus da solidariedade europeia de Jean Monnet, Konrad Adenauer, Helmut Schmidt, Jacques Delors e esta generosidade foi substituída pelo egoísmo nacional póscomunista da Czarina Merkel.
É também fácil de prever que a dissolução continuará pelos Estados-membros mais ricos e desenvolvidos; em concreto, prosseguirá pela França. Mais de dois terços dos respondentes a um inquérito em linha de Le Figaro, um conceituado diário da direita francesa, querem um referendo sobre a UE. Ninguém duvida do resultado. O leitor lembra-se do «operários polaco», que matou a constituição europeia. A seguira na fila estão os Países Baixos. O leitor queira dar-nos o favor de não pensar que a Alemanha morrerá pelo euro. Sem a França na UE e no Euro, Berlim não os quer para nada e tomará dissimuladamente as iniciativas necessárias para propiciar a sua liquidação. Entramos numa fase de solavancos e não são de excluir acelerações inesperadas na marcha para a dissolução.

A reação do semiprotetorado mimetizou a dos seus senhores: a UE não necessita do Reino Unido, declarava mais de metade dos respondentes a um inquérito em linha promovido por um dos mais vendidos jornais portugueses. A Portugal então de certeza que não faz falta: Londres dá emprego a mais de meio milhão de portugueses e contribui com 10-20% das receitas líquidas do orçamento da UE que tomam o caminho do nosso país. Receita líquida é o que cada Estado-membro paga para o orçamento da UE, menos o que dele recebe O fraco rei europeu embriagou o fraco rei português que embriagou os portugueses. Talvez a melhor prova desta embriaguez política seja a reação do Bloco de Esquerda, um partido crucial para a subsistência do nosso governo: a Srª D. Catarina Martins prometeu ontem solenemente castigar Bruxelas e Berlim com um referendo português se ambos se atreverem a aplicar sanções económicas a Portugal. A nossa classe política tremeu e apressou-se a explicar à senhora deputada que isso não estava em causa, explicando todos os quindins e expressando subido respeito intelectual. As chancelarias, se ouviram a senhora deputada, riram à gargalhada pois sabem que o Bloco e a Senhora não perceberam que Berlim-Bruxelas respiraram de alívio com a saída de um parceiro forte e contribuinte líquido, o Reino Unido, com mais alívios encarariam a saída do pobre Portugal, que é fraco e recipiendário líquido do orçamento da UE. E riram também da classe política portuguesa, cujo esclarecimento mostra que confunde o prémio e o castigo europeu. O triste sinal dos tempos é o rato que ruge ser indispensável à nossa maioria governativa e a nossa classe política sentir a necessidade de lhe responder, tomando-o assim a sério, em vez de lhe dizer que eles não percebem nada da UE e, se houvesse agora um referendo, quatro quintos dos portugueses votariam pala permanência.

Nesta fase de dissolução da UE, o que é crucial para nós e para o mundo?
• Primeiro é o respeito do princípio do comércio livre e tanto quanto possível o da livre circulação de pessoas. Se ele for respeitado e se soubermos gerar uma classe política competente, sobreviveremos sem dificuldade excessiva à dissolução da UE.
• Se esses princípios forem respeitados na transição britânica, a UE continuará a ser a solução preferível para nós. Mas como aumentou muito a hipótese de implosão da UE tipo União Soviética, temos que preparar um plano B. Precisamos de um governo português competente. Com efeito, recebemos de Bruxelas-Berlim cerca de quatro pontos percentuais do nosso PIB. Mas pagamos-lhes uns seis pontos percentuais de amortização da dívida – sem falar do imposto cambial derivado do euro. Se tivermos um governo independente e competente, na confusão do fim do euro, substituiremos sem dificuldade a desaparição da contribuição líquida da UE pela radical diminuição da amortização da dívida. Temos que concretizar a tática desta estratégia, em termos técnicos e de alianças europeias e mundiais.
O leitor d’ O Economista Português, ao lê-lo tão otimismta, considerará talvez que ele partilha da bebedeira coletiva da velha Europa e de Portugal. A leitura otimista é superficial: O Economista Português não partilha do otimismo quanto à capacidade da classe política portuguesa: os nossos dirigentes manifestam-se com firmeza e abundância sobre a nossa participação no euro do futebol e ainda nenhum referiu que temos a defender os nossos interesses nos euros da negociação em curso para a diminuição das despesas da UE que fatalmente nos atingirão. Se, na dissolução da UE, o nosso governo for de sátrapas, e para mais de sátrapas incompetentes, o nosso futuro será negro.

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