UE (parte continental): «Contra os Bretões marchar, marchar!» >>> Cuidado Portugueses

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Resultou mal a anterior tentativa de construir o mercado único europeu sem o Reino Unido

A União Europeia (UE) continental parece dominada pelo clima de 1940: todos contra a Grã Bretanha. Os que tudo operaram para a vitória do não no referendo britânico, pois a saída britânica melhoraria a Europa, acusam agora os bretões de danificarem a Europa. Bastou o Sr. John Kerry, o chefe da diplomacia dos dos Estados Unidos, balbuciar que a saída britânica talvez não fosse definitiva, para que o coro das Valquírias gordas, regido pela Imperadora Merkel, gritar: é definitiva. Até a Maria vai com as Outras Europeia!!!
Exigir rapidez aos bretões é a palavra de ordem da UE Continental. O Presidente Hollande repetiu-a à saída do conselho europeu de anteontem. Rapidez para quê? O para quê é o objetivo a atingir. É obviamente mais importante saber para onde vamos do que a velocidade a que nos deslocamos: é mais importante saber se queremos um Brexit a bem ou mal do que saber a rapidez com que será dada a sentença de divórcio. A supostamente sensata UE repete o erro tradicional de todos os extremistas: acelerar a velocidade da deslocação e do mesmo passo esquecer o sentido da marcha. O ênfase  na velocidade favorece a guerra comercial em particular e o Brexit litigioso em geral.
A linha oficial da UE é: o Brexit é apenas mau para o Reino Unido. É a lógica que levou à expulsão. Para cortar esta linha de propaganda orgulhosa e mentirosa, todos os truques de propaganda são permitidos. A agência noticiosa Bloomberg divulgou um estudo do Banco Central Europeu (BCE) informando que o Brexit custará aos continentais 0,5% do PIB a dividir por três anos – e passado o terceiro, os custos cessarão mesmo. É dado, dirá o Zé Ninguém. Há porém nestas contas um pequeno pormenor: quais são as condições que o BCE usou para esta previsão? Se as negociações derem para o torto e voltarmos à guerra comercial dos anos 1930, essa previsão é válida?
A Escócia leva ao rubro  a insanidade política da UE : o Sr. Juncker recebeu ontem a primeira ministra dessa região da Reino Unido para tratar com ela da sua permanência na UE Continental. O presidente da Comissão Europeia, que foi apresentado aos   britânicos como um bêbedo especializado em evasão fiscal, conspira contra o que é ainda um Estado-membro da UE e é seguramente um Estado soberano, cujos direitos são protegidos pela Carta das Nações Unidas. O Sr. Tusk, presidente do Conselho Europeu, foi mais prudente e não a recebeu. A UE continental marcha ao mesmo tempo em duas direções opostas num tema crucial. E se Londres negociasse com a Frente de Libertação da Córsega? ou a da Bretanha? ou com a ETA pacífica? ou promovesse a entrada da Renânia na UE Continental?
A exigência da rapidez serve apenas para impedir negociações rápidas sobre a saída britânica, repetindo a chantagem berlinense e bruxelina que tão catastróficos efeitos teve no referendo do Brexit. O que aliás favorece o Reino Unido que não tem de momento uma ideia na cabeça sobre os seus objetivos negociais.  O Sr. Tusk, o polaco que é nosso presidente, disse ontem que o Reino Unido não terá acesso a um mercado único «à vontade do freguês» e exige aos bretões respeito das quatro liberdades de movimentos: de pessoas, de mercadorias, de capitais, de serviços. Por acaso a Polónia é o maior recipiendário dos fundos da UE e ao mesmo tempo o maior exportador de mão de obra para o Reino Unido. Porquê? Porque o Reino Unido é o Estado-membro da UE mais liberal quanto aos movimentos de pessoas e em particular da população ativa. É o que melhor respeita as regras que os continentais o acusam de violar. Ao contrário dos franceses, os bretões não montaram uma rede semiclandestina de comissões mistas patrões -sindicatos, para impedir a contratação de mão de obra estrangeira qualificada, nem têm a semimafiosa organização secreta e que os alemães se dotaram para o mesmo efeito. Sofrem por isso as consequências e são acusados do pecado cometido todos os dias e todas as horas de cada dia pela Alemanha e pela França: estes dois, exceto quando requerido pelas suas próprias necessidades económicas, impedem a entrada de mão de obra qualificada dos outros países da União europeia, entre os quais o nosso.
Os UE continentais continuam a fantasiar que ganharam o Brexit. Quando o Sr. Tusk diz que quer que Londres respeite as quatro liberdades, diz querer expulsar Londres da UE e ao mesmo tempo exige como preço do Brexit pacífico a contribuição de Londres para o orçamento polaco. Como dizem os britânicos: Tusk «quer ter o bolo e quer comer o bolo». Mas o Brexit ganhou na base de não consentir imigração descontrolada e de acabar com as contribuições para o orçamento da UE. Porque bulas se lhe seguiria o pagamento britânico sem a contrapartida em poder e nos inerentes privilégios? Apenas por os políticos eurocontinentais (Hollande com o socialismo e a política de expansão económica, Merkel com os imigrantes, Renzi com as relações laborais) terem por norma moral violarem as suas promessas eleitorais? Ontem Wolfgang Munchau, um economista lúcido e em geral comentador arguto, escrevia no Diário de Notícias  que a melhor solução para o Reino Unido no pós Brexit é aderir à Área Económica Europeia. Esta Área foi a solução para a Noruega, que então era um emirato escandinavo do petróleo, que todos os dias enriquecia mais e mais. Mas os suíços rejeitaram-na. Essa Área exige pagamentos para o cofre europeu. O que o Dr. Munchau santamente reconhece. Será que o Dr. Munchau já esqueceu quem ganhou o referendo do Brexit?
A inveja é mais contagiosa do que o desejo sexual ou a vontade de rir. O Economista Português encontrou-se ontem com uma pessoa amiga, por razões de todo em todo estranhas ao Brexit – tema que aliás não tocou. A dado passo, essa pessoa, sábia e gentil, partidariamente descomprometida, interessada pela política sobretudo por acreditar que ela aumenta a igualdade humana e diminui os sofrimentos da humanidade, tomou a iniciativa de abordar o Brexit e, saindo num relâmpago do seu estado habitual de bondade larvar, responsabilizou os bretões por todos os males do mundo. O Economista Português atemorizou-se: estamos contagiados pela xenofobia que é sempre uma manifestação de inveja. Estamos contagiados pela xenofobia transpirenaica.
A letra do nosso hino nacional inclui ainda hoje o seguinte verso: «Contra os canhões, marchar, marchar». António Alçada Baptista, o fundador d’ O Tempo e o Modo e genial escritor, propôs que essa linha fosse substituída por ser belicista, anticristã e imoral (estas razões são citadas de cor). Riram-se dele. O divertido é que essa frase era já uma substituição. Na versão original d’ A Portuguesa, a linha era: «Contra os bretões, marchar, marchar». Era o fruto dos delírios patrioteiros pós Ultimato britânico de 1891. Esperemos que em breve a Assembleia da República vote a reposição do texto primitivo, por proposta de um partido internacionalista, ou no mínimo federalista.

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