O 2º Resgate e o Processo de Decadência em Curso

AntónioCostaAdulaDavidCameron

David Cameron olha enternecido António Costa, que continua em flagrante delito de adullação, mesmo depois  de o britânicoter perdido o Brexit. O nosso primeiro ministro é viciado em adulação. Esse trunfo permitir-lhe-á evitar o 2º resgate?

O Sr. Wolfgang Schäuble, ministro das Finanças da Alemanha imperial e dirigente de um partido filiado no Partido Popular Europeu (PPE), disse anteontem num discurso que o nosso país talvez tivesse que pedir um segundo resgate.  Depois desdisse-se.  A nossa situação financeira impõe-nos um segundo resgate?  Teremos que pedir? Que quer ele com aquelas palavras ?

  • O 2º resgate impõe-se-nos? A nossa dívida externa total, pública e privada, deve rondar 4,5 e meia o PIB. A nossa dívida é insustentável e nunca será paga na íntegra aos seus valores reais. Estamos como estava o BANIF: vamos  pagando os juros e amortizando o que não conseguimos reciclar. Foram essas aliás as regras implícitas da troika. No essencial, estas regras são: Portugal paga os juros e amortiza parte da dívida e para isso recebe créditos do Banco Central Europeu (BCE) desde que respeite as imposições macroeconómicas primeiro da troika e hoje da Comissão de Bruxelas.  Há uns comentadores justiceiros que julgam ser possível esconder estas dívidas gigantescas. Os nossos credores sabem e jogam com elas.  O 2º resgate não se impõe hoje mais do que ontem mas, na atual estrutura financeira, está sempre ao virar da esquina. Apesar dos parabéns que a Imperadora Merkel nos deu  pelos nossos triunfos financeiros….
  • Se não respeitarmos os compromissos orçamentais com Bruxelas-Berlim, entraremos em rotura financeira. Como o leitor viu, condição de acesso ao BCE é respeitarmos os acordo com Bruxelas para reduzirmos o défice público.  Sucede que, apesar da execução orçamental ter até agora sido boa, é certo que não respeitaremos esses compromissos: do lado dos recursos, o PIB crescerá menos do que o previsto, inclusive pela própria Comissão Europeia (quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) ontem baixou a previsão do crescimento do nosso PIB para uns míseros 1,1%, deu a machadada final no parlapié do Doutor Centeno) ; do lado dos compromissos, as regras de Basileia 4  e a crise da rendibilidade bancária exigem um acréscimo do défice do Estado (ou da dívida pública) incomportável com os nossos compromissos. A baixa do PIB face ao previsto  por si só implicaria a violação dos compromissos com Bruxelas-Berlim. Se violarmos os acordos com Bruxelas perdemos o crédito do BCE.Mais despesas tornam a situação explosiva a mais curto prazo.
  • António Costa e Mário Centeno dão sinais de não perceberem o que se passa. Pelo menos parecem estar a passar ao lado da relação tóxica entre a substância (a dimensão do nosso défice público) e a variação da conjuntura (as previsões de crescimento, a crise política europeia)Os dois grandes responsáveis governamentais na matéria continuam a fantasiar  A insistência do Sr. Primeiro Ministro em gastar mais cinco mil milhões de euros  (uns seis por cento do PIB) na CGD revelam que ele perdeu o contacto com a realidade financeira nacional. Veremos se ainda vão a tempo de perceberem ou se haverá mesmo um segundo resgate. Se não perceberem, talvez tenham que mudar de vida e o doutor Centeno não conseguirá por certo realizar o sonho  da sua meninice: ser diretor do Gabinete de Estudos do Banco de Portugal.
  • Que quer o Sr. Schäuble? Quer atrapalhar um governo socialista, hostil ao PPE, e quer dizer à Comissão Europeia: castigue Portugal, a Alemanha  apoiará esse castigo no Conselho de Ministros. Como o leitor sabe, está na fase final o processo de aplicação de multas a Portugal por não ter cumprido o acordado. O Sr. Schäuble, antes de voltar a iniciar o processo que nos leva à prébancarrota, quer ter a certeza que o Dr. Costa anda apenas a fazer-se de lucas com as previsões de crescimento mas acabará por lhe pagar o que lhe deve. Quando não, recomeçará a sua campanha para que regressemos à prébancarrota.

O Economista Português sugere ao leitor que não se inquiete excessivamente com estas ninharias: se tivermos que pedir um segundo resgate, o preço que pagaremos a uma nova baixa do nosso nível de vida; se não tivermos que pedir um segundo resgate, o preço que pagaremos é baixarmos o nosso nível de vida pois pagarmos mais impostos, e/ou diminuirmos os vencimentos dos funcionários públicos e de todas as pensões de todos os reformados dos regime gerais. Como Portugal já entrou em bancarrota três vezes desde o 25 de abril, mesmo que não peçamos um segundo resgate, continuaremos a ser uma economia de lixo, na classificação das agências de rating. Com efeito, devido a esta reputação secular, os juros da nossa dívida não baixam por termos  melhorado as nossas finanças mas por o BCE ter voltado a garantir-nos, porque respeitamos o acordo com Bruxelas-Berlim. Tudo visto, o que pagaremos se nos portarmos bem (baixa do nível de vida) será praticamente igual ao que pagaremos se não nos portarmos bem  (perda do nível de vida). Quer isto dizer que o Processo de Decadência Em Curso (PDEC) prosseguirá num caso ou no outro.

O leitor dirá: o preço da virtude e o da esperteza são diferentes pois funcionários públicos e reformados perderão mais do que a população ativa do setor privado. Talvez. Mas nesse caso, a manter-se o regime de democracia representativa, o partido que aplicar as medidas restritivas sabe desde já que perderá as eleições. O leitor reparou que o PSD e o CDS/PP perderão as eleições porque perderam o voto dos funcionários públicos e dos reformados.O que levará um governo sensato e rotativo a uma mais equitativa distribuição de sacrifícios entre a população inativa e a ativa e, nesta, entre os setores público e privado.

O Economista Português sugere que o leitor se preocupe com coisas importantes: inverter o processo de decadência em curso. Com efeito, quer o CDS e o PSD, quer o PS e as suas esquerdas (Bloco e PCP) recusaram pensar a reestruturação da economia e da sociedade portuguesa para sairmos da situação de prébancarrota permanente. As esquerdas orçamentais apenas se preocupam em atenuar um mínimo a fatura dos nossos credores vinda de Bruxelas, sem esmeraram-se para pagarem os credores externos e abandonaram os sonhos antigos de reforma estrutural – reforma estrutural que não se resuma  aos chavões neoliberais, por vezes aliás necessários. Direitas e esquerdas  fogem como o diabo da cruz de pensarem um plano de aumento da produção e apenas querem ser cobradores dos nossos credores  – e os nossos credores aplicam-nos o regime alimentar que o escocês ministrava ao seu cavalo: diminuem-nos periodicamente a ração. É esse o problema decisivo: sem um projeto de regeneração e de energização do nosso país, a nossa moral será: o último a sair que feche a luz. Ninguém se mobilizará enquanto forem iguais o preço da virtude e o do vício económicos .

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