Portugal: «E agora, Economista Português?»

RenaultBillancourt

Dirigentes da CGT nos anos 1960 dizendo frases otimistas aos operários da fábrica da Renaul em Billancourt «para não os desesperar»

«E agora Economista Português?»  Foi o que O Economista Português leu no e-mail de um amigo que atribui ao realismo (o pessimismo) deste blog o mínimo de credibilidade necessário para assim o convocar. O Economista Português  explica-se. Que o leitor lhe releve esta desafronta que, se parece narcísica, não o é.

O Engº António Lopes Cardoso dizia que a democracia é o direito à asneira. O Economista Português atreve-se a sustentar que o jornalismo livre é o direito à má notícia. Discorda? Leia a seguir sff. O saudoso Engº Samuel Azavey Torres de Carvalho, mais conhecido por Sam, o genial criador d’ «O Guarda Ricardo», criou telejornais que violavam esta regra. A primeira notícia deles consistia em frases do tipo: «Hoje é outono. Em Lisboa, algumas folhas caíram de algumas árvores». O espetador via folhas a cair. Imagine que um dos nossos telejornais começava assim: «O nosso Primeiro ministro almoçou como todos os dias e a sua digestão foi excelente». O incómodo seria considerável: louvaminha tipo coreia do Norte? sandice? mudou o horário dos «apanhados», dir-se-ia o telespetador. O Economista Português prefere dar más notícias ou produzir previsões e interpretações realistas (ou pessimistas)  – até com contrapeso ao cinzentismo sempre jubiloso da nossa  comunicação social que, como o leitor já reparou, desde o  Prof. Salazar, é sempre  a favor do governo e portanto é sempre otimista. Pense só numa prova desta tese: tem o leitor presente a primeira edição do Diário de Notícias  da madrugada do dia 25 de abril de 1974, quando o golpe militar já estava sobre rodas.

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O diário então oficioso não publicava uma única notícia sobre o golpe . pois ela seria uma má notícia e desagradaria ao poder de Caetano  s conveniências otimistas do poder antes das verdades amargas ( para o Estado Novo, no caso). Queira comparar com a autodesignada «2ª tiragem», quando os militares revoltosos já dominavam Lisboa:, pelo menos em terra

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O realismo d’ O Economista Português  custa  a suportar, como qualquer realismo. Preferimos esperar o melhor a esperar o mais provável. É a permanente negação do «princípio de realidade». Este vício é a transformação da esperança, uma virtude, em angelismo, um defeito. Os imperadores persas mandavam degolar os mensageiros que lhes traziam más notícias – e o leitor, mais pacífico, limita-se a não ler o post até ao fim ou, horresco referens, a nem abrir o blog por,  como o Diário de Notícias, não querer ser incomodado com a verdade. da madrugada do dia 25 de abril de 1974. Até aos anos 1960 os comunistas franceses, para silenciarem as esquerdas, diziam: «é preciso não desesperar Billancourt», que então era a maior fábrica da Renault, nos arredores de Paris.

Por outro lado, O Economista Português raciocina sempre: os seus mais retóricos discursos escondem raciocínios rigorosos (nem todos certos, admitamo-lo).  Este aspeto é  também incómodo para o leitor, porque os meios de comunicação social convidam-no a dar vazão intelectual às paixões do baixo ventre, a tornar-se um cidadão  BAPA, acróstico de BAtedor de PAlmas, sem queimar as meninges, ficando feliz por aplaudir o seu clube político. Os jornais e as televisões apoiam emocionalmente todos os atos do governo da sua cor e criticam todos os atos do governo da outra cor apenas pela razão da cor. Lembra a guerra entre os verdes e os azuis que destruiu o Império bizantino. Os nossos meios de comunicação social são como as comissões de inquérito da Assembleia da República. O Economista Português  é diferente: procura ser rigoroso nos factos mas quer-os para sustentarem argumentos rigorosos e relevantes para os portugueses. Argumentos discutíveis, como todos os raciocínios.O Economista Português, se se enganar, corrige-se em público e, se necessário, desculpa-se.  Elogia ou critica os governos, sejam eles quais forem (critica mais do que elogia, pelas razões expostas no parágrafo anterior), não para se lhes opor, mas para os ajudar – sugerindo-lhes sempre uma solução positiva.  Talvez haja porém  leitores  sofrendo do arcaísmo de serem a favor (ou contra) o governo e suporem que todos padecem dessa doença. Essa maleita é um arcaísmo, como a peste. Arcaísmo porque hoje, na época do sufrágio universal, dos partidos disciplinados e do cesarismo democrático, os governos só caem em eleições gerais. Não caem devido às críticas dos comentadores, caem devido aos votos dos eleitores. Os comentadores preenchem a mesma função do folhetim da televisão: entretêm um dado grupo social (mas um e outro entretêm grupos sociais diferentes, os comentadores entretêm os beneficiários dos subsídios da Fundação da Ciência e Tecnologia e os folhetins os beneficiários do subsídio de desemprego). Até ao 28 de maio de 1926, para conseguir as prebendas que o governo sempre dá, valia a pena substituir o governo pois essa substituição era possível sem eleições. Hoje não é: quem quiser as prebendas tem que se dar à maçadas de ganhar eleições. Ora O Economista Português nunca deu orientações de voto. Isto é: nunca ganhou nem perdeu eleições. Ne ganhará, se Deus lhe der saúde e juízo.

O Economista Português quando critica apresenta sempre uma solução positiva. Este  lado positivo talvez seja por vezes ocultado por uma retórica, cozinhada com «caldinhos de Vieira» e galinha à Camilo Castelo Branco mais cubpzinhos de Eça de Queirós. Mas não recomendamos ao leitor que elabore um plano de salvação nacional a partir dessas soluções positivas  que temos proposto – e que são centenas, a aproximarem-se do milhar. Este blog segue a atualidade tal como ela atua. Essas propostas positivas resultam da reação quotidiana e não de um plano consequente elaborado a partir de uma previsão de futuro em função dos mais fundos valores do presente. Apresentou na sua fundação um programa de fundo, «A arca da aliança» (acima, debaixo do título do blog),  e propôs há muito um governo de união sagrada, pois julga essa forma de a mais adequada para vencer a ameaça à nossa existência individual e coletiva causada pela conjugação da União Europeia, da globalização. e das extraordinárias condições em que aderimos e permanecemos no Euro.

O Economista Português  não é nem pretende ser embrião ou porta-vos de um partido político nem de um grupo de pressão. Não se oferece para salvar a nossa pátria à mão cheia. Pretende apenas contribuir pelo argumento rigoroso para formularmos uma visão patriótica da nossa posição na UE, na CPLP e no mundo, conjugada tanto quanto possível com a racionalidade económica e uma política que se consiga alcançar alguma convergência real (a quantificar)  com a rica Europa transpirenaica.   Talvez erre julgando que contribui para estes objetivos e não contribua. Mas são eles que o movem.

O Economista Português permite-se ainda verificar que vê cada vez mais concidadãos interessados em sentar-se à mesa de um orçamento em desacelerado crescimento e cada vez menos interessados nas reformas de estruturas e de comportamentos que permitiriam inverter a nossa decadência.

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