O Segredo da Votação do Orçamento 2017 está no «Frei Luís de Sousa»

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«É mais prudente votar o orçamento, minha Senhora», sussurra o escudeiro Telmo Pais a D. Madalena de Vilhena (fotografia da época)

Ninguém se preocupa muito em saber se o orçamento para 2017 será aprovado pela Assembleia da República porque todos lemos o Frei Luís de Sousa, a célebre peça de Almeida Garrett. Esta peça explica o que se passará no longo folhetim orçamental em que hoje entramos. Resumamos-lhe o enredo. D. Madalena era casada com  D. João de Portugal que desapareceu na batalha de Alcácer Quibir e como tantos outros foi dado legalmente por morto. Enviuvada por estas leis, D. Madalena casou com outro homem, de quem teve uma filha, Maria, uma inocentinha, mas receia sempre o regresso do primeiro marido. Estes receios concretizam-se: D. João volta, e portanto está vivo, mas não quer que se saiba que voltou.

Este singelo enredo explica por que será aprovado o orçamento para 2017. O regresso de D. João é a aprovação do dito e portanto simboliza  a Comissão Europeia.  D. Madalena é o governo português, PS, PCP e Bloco de Esquerda incluídos. Maria, a inocentinha, somos nós, os eleitores. D. João regressa e sabe que regressa, mas é um cavalheiro, não  quer anunciar que voltou. Se anunciasse a verdade,  comprometeria a esposa e deixaria mal colocada a filha dela. D. Madalena sabe bem que o marido regressou, mas revelara verdade (isto é: reconhecê-lo) seria confessar o seu erro e talvez o seu pecado, ostracizando a filha, que seria despromovida a adulterina. Ambos seguem a estratégia mais prudente: D. João renuncia a D. Madalena e D. Madalena renuncia aos seus dois maridos, vai cada um para seu convento.

Passemos para a atualidade.  Se D. João de Portugal ou D. Madalena confessassem a verdade, que ambos conhecem, o orçamento não será aprovado mas ambos ficariam pior do que se o aprovarem: D. João  sabe  que a a cena se agravará, e não verá os juros, e  D. Madalena sabe que não terá euros para sobreviver.  Escolhem para já uma estratégia minimax (deflacionam as expetativas) pois sabem que, para perderem tudo, têm um futuro perpétuo por conta.  O Frei Luís de Sousa é o jogo (da teoria dos jogos) que explica a votação do nosso orçamento próximo.

Resumindo: na peça, D. João de Portugal desaparece e D. Madalena vai para um convento. A inocentinha irá desta  para melhor e sai de cena . Na nossa realidade, o orçamento será aprovado e mais tarde se verá o destino da inocentinha, coitadinha, que não tem voz no assunto.

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