Emprego: Solução Trump ou Modelo Rendimento Garantido?

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Votando Trmp, os operários dos Estados Unidos confirmaram o «sonho americano» talvez por não acreditarem numa sociedade capitalista que não cria empregos

O Presidente Trump quer levar de volta para os Estados Unidos empregos na indústria transformadora e, mesmo antes de tomar posse, já obteve alguns êxitos. Ao mesmo tempo, a Finlândia, um mostruário do dinossáurico Modelo Social Europeu, estuda a aplicação de um Rendimento Mínimo Garantido: criou uma amostra para em termos de psicologia cognitiva estudar o comportamento de um grupo de cidadãos que vive apenas uma prestação pecuniária que recebe do Estado. Esta reforma começa a suscitar interesse internacional. Ontem, o primeiro debate das primárias de esquerda para as eleições presidenciais francesas centrou-se nesta proposta, lançada por Benoît Hamon. Talvez não pareça mas estas duas soluções divergentes respondem ao mesmo problema.

O problema é simples: a economia dos países ricos deixou de criar empregos em quantidade suficiente, apesar da demografia declinante. Sem fantasias estatísticas, os jovens sem emprego são cerca de metade do total da sua faixa etária.  As causas próximas deste fenómeno são a globalização, que exporta empregos para economias com salários mais baixos, a informatização e a robotização, que destróem empregos,  a maioria dos economistas  recusa ver as estatísticas do mercado de trabalho porque elas contrariam a teoria económica que lhes ensinaram e que não previu a crise de 2008. Com efeito, a «Lei de Say», que continua a ser a base do pensamento económico da classe dirigente europeia, e do chamado «neoliberalismo», declara que a oferta cria a sua própria procura – e portanto cria emprego automaticamente e na quantidade necessária. Esta lei é uma petição de princípio: dá por demonstrado o que pretende demonstrar e John Maynard Keynes destruiu-a inteletualmente..

O Washington consensus (equilíbrio orçamental & liberdade de circulação de capitais) criou a convicção que os ganhos de produtividade obtidos pela globalização e pela robotização seriam suficientes para compensar a destruição de empregos agrícolas e sobretudo industriais nas economias ricos: o terciário, os serviços, seriam a solução. Foi a solução aplicada aos Estados Unidos pelas administrações democráticas de Bill Clinton e Barack Obama.  Aproveitando a sua ligação à esquerda política,  aos mass media liberais e aos sindicatos de assalariados, conseguiram obter uma redução dos valor do salário horário, sem uma desvalorização significativa do dólar.  Os Estados Unidos chegaram a brincar com a ideia de abandonarem por completo a indústria transformadora e tornarem-se um país dedicado apenas aos serviços e à finança. Era o zénite da globalização.

Este modelo de globalização falhou em dois momentos: em 2008, quando o Governo dos Estados Unidos montou um esquema financeiro para subsidiar a General Motors, a sua maior empresa industrial, não consentindo portanto que falisse. Em 2016, quando o empresário Donald Trump mobilizou o voto operário para conseguir mais empregos industriais, com salários superiores aos dos serviços. É a derrota (parcial e provisória) da globalização no seu centro impulsionador e a vitória do protecionismo, ainda que por certo em termos moderados.

O protecionismo de Trump e o rendimento mínimo são dois caminhos opostos para resolver o problema político da incapacidade económica de criar emprego em quantidade suficiente devido à conjunção prática da informatização, da robotização e da globalização.  Trump promete mais emprego e maior salário unitário mas conservará grandes desigualdades sócio económicas e só conseguirá aumentar a produtividade porque os Estados Unidos são uma economia populosa (embora menor do que a da União Europeia); porém, em breve esgotará os limites do crescimento protecionista e não tem respostapara a robotização.

Ao contrário de Trump, o modelo finlandês  é conciliável com a globalização mas levanta problemas políticos insolúveis: ele divide a sociedade entre uma maioria de inúteis, de desempregados permanentes, que vivem desse rendimento garantido e nada dão em troca aos que vivem dos juros ou dos lucros do capital , assim como aos trabalhadores assalariados. Trabalhador assalariado com contrato por termo fixo está a tornar-se  sinónimo de privilegiado e por isso não será solidário com os os desempregados do berço à tumba (deste ponto de vista, a CGTP-IN, sempre pronta a esquecer os desempregados, é precursora).  O modelo talvez seja aplicável em organizações políticas como a Alemanha, assentes na ideia unificadora de um Volk de natureza biológica¸ mas será rejeitado nas mais individualistas como as anglo-saxónicas, baseadas na ideia de troca livre e não na meta de convergência individual para um todo social suprapessoal.

Nem o modelo Trump nem o modelo finlandês parecem estar à altura de enfrentar os problemas muito difíceis suscitados pela articulação da informatização, da robotização e da globalização. Anotemos a concluir que basta combinarmos a informatização e a robotização para gerar a economia sem empregos.

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