Desigualdade económica mundial: a Oxfam cai na Demagogia

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A Oxfam prefere empobrecer os ricos, desde que a desigualdade diminua, a enriquecer os pobres. se a desigualdade aumentar

Os ricos e os poderosos reúnem em Davos, Suíça, como de costume,e, como de costume, a Oxfam, a maior ONG britânica, assinala o encontro com a publicação de um relatório sobre a pobreza e a desigualdade no mundo.

Este ano a Oxfam anuncia que 62 pessoas são proprietárias de tanta riqueza como a metade mais pobre dos habitantes do planeta. À primeira vista os números são aterradores: 62 pessoas apenas são tão ricas como uns 3,5 biliões! O leitor estremece na cadeira e a sua má (ou boa) consciência morde-o.

Quando examinamos melhor aqueles valores, porém, dormimos descansados. Em primeiro lugar, a Oxfam escolheu como critério a propriedade. Mas o leitor nunca quis que os pobres deste mundo passassem a ser proprietários de um apartamento em Mayfair, ou mesmo nas Avenidas Novas. O leitor quer, sim, que os pobres passem a ganhar o suficiente para terem uma habitação decente, comerem o bastante, vestirem-se adequadamente ao clima e educarem os filhos.

A propriedade não é um critério de  pobreza  pois o relevante é o rendimento pessoal. Medir a variação da pobreza pela propriedade é medir as deficiências físicas estabelecendo Jogos Olímpicos únicos para os paraplégicos e para os atletas de alta competição. Estes correm mais e a diferença por certo aumenta todos os anos.

Acresce que a propriedade dos pobres é uma noção contraditória: os pobres, por o serem, não possuem propriedades, no sentido normal do termo. Herman de Soto popularizou a noção da propriedade dos pobres,  mas é um desvio semântico: chamou propriedade ao que os pobres usam e é desprovido de valor de mercado.

Se para medir a desigualdade a Oxfam recorresse ao critério do rendimento, já não teria a possibilidade de apresentar números demagógicos, como os 62 donos do planeta. E teria que reconhecer que a situação dos pobres melhorou, pelo menos em valores absolutos. Aliás reconhece: uma frase perdida e encapuçada no relatório daquela ONG, informa envergonhadamente que no último quarto de século o número de pessoas vivendo em «pobreza extrema» diminuiu para metade e que no mesmo período o rendimento dos dez por cento mais pobres cresceu.

Vejamos as fontes daquela extraordinária  afirmação da Oxfam sobre os 62 donos de meio mundo. Verificamos que elas não oferecem a menor credibilidade. A propriedade dos 62 ricos é tirada da Forbes, a conhecida revista dos Estados Unidos, que dá a lista das pessoas mais ricas do mundo (mas deixa de fora uns 50 países, sobretudo pequenos e pobres). E a propriedade dos pobres? Parece ter sido tirada do Crédit Suisse, um banco helvético. Onde foi ele buscá-la? 160 países (a ONU tem uns 200) não publicam dados sobre a distribuição da propriedade. Qual a fonte para eles? É o espírito imaginativo da Oxfam, associada ao Crédit Suisse. O anexo metodológico da Oxfam omite quase todos os problemas e seria chumbado em qualquer prova de mestrado de qualquer universidade decente.

Em resumo.  Sobre a desigualdade a filosofia social discute dois problemas

  • Interessa mais a desigualdade absoluta ou a relativa? A desigualdade absoluta é o número de dólares que cada cidadão gasta; a relativa é é a relação entre  as disponibilidades dos mais ricos e as dos mais pobres. O comunismo prefere a pobreza acompanhada de mais igualdade (o «socialismo da miséria»), as sociedades livres preferem o aumento da riqueza dos mais pobres, ainda que acompanhado de mais desigualdade – e os reformadores sociais acompanham essa desigualdade com programas que incrementam a igualdade de oportunidades (bolsas de estudo, ensino permanente, segurança social para a saúde e as reformas). No sentido da desigualdade relativa, é verdadeira a frase de Cristo: «Pobres sempre os tereis no meio de vós». Mas a desigualdade  relativa nada nos diz sobre a pobreza material dos pobres.
  • Como medir a desigualdade económica? Comparando Propriedades ou rendimentos? Ninguém dúvida da licitude de medir a desigualdade na distribuição das propriedades, mas, para sabermos da variação substantiva da pobre, não há ninguém que bom senso que prefira o critério da propriedade.

A Oxfam baratinou os dois critérios e à socapa escolheu o mais estúpido. Sem fair play deu a entender ao leitor apressado que os tais 62 maiores proprietários dispunham do mesmo rendimento que a metade mais pobre da humanidade. Há muitas opiniões decentes sobre o grau de desigualdade e o modo de medir a pobreza, mas a Oxfam não adotou nenhuma delas.É pena que a Oxfam, outrora um organismo sério, destrua a sua credibilidade com relatórios deste género.

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Para descarregar o relatório da Oxfam e deliciar-se nomeadamente com a cegueira do seu extraordinário «anexo metodológico, vá a

https://www.oxfam.org/en/research/economy-1

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