Economia mundial: O Capitalismo de Mercado declara a Guerra ao Capitalismo de Estado

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mapa atual do capitalismo de Estado lembra o da época do pacto germano-soviético (1939-1940)

Tentemos pensar o mundo de hoje, para lá dos insultos  dirigidos ao Sr. Trump. Procuremos alguma inteligibilidade  no espetáculo pré apocalíptico que as televisões nos dão da economia e da política mundiais.  Há uma luta pela economia mundial.  O cerne dessa luta é a definição das regras  básicas de funcionamento da economia.  Essa luta centra-se hoje entre um capitalismo de mercado e um capitalismo de Estado. O capitalismo de mercado reduz ao mínimo as regulamentações estatais da economia, minimiza o papel do Estado e da banca formal no financiamento, diz aos empresários para irem às bolsas (aos mercados) para obterem dos particulares os financiamentos de que necessitam. O capitalismo de Estado assenta em muitas regulamentações, impostos pesados, socialização estatal da instrução formal, dos cuidados de saúde e das pensões de reforma. O leitor já adivinhou: a eleição do Presidente Trump é a declaração de guerra do capitalismo de mercado ao capitalismo de Estado.

Este breve retrato permite compreender alguns movimentos do mundo de hoje.  Ele assenta como uma luva ao Brexit e à emergência do Sr. Trump: os anglo-saxónicos  preferem o capitalismo de mercado, o continente europeu escolhe, continua a escolher, o capitalismo de Estado. É curioso que esta opção engloba tanto os países da União Europeia como a Rússia. Esta comunhão é escondida pela propaganda contra a Rússia, que hoje domina o «politicamente correto» dos mass media oficiosos na Europa.

E no resto do mundo? A China realiza o sonho marxista da «economia socialista de mercado». Foi teorizada por homens como o polaco Oscar Lange (1904-1955) e praticado por Lenine na Rússia no breve período de Nova Economia Política (NEP), no começo dos anos 1920, quando foram toleradas as empresas privadas, mas  Staline rejeitou-o e impôs aos socialistas a economia centralizada e planificada, de comando único.  A China parece querer uma NEP que dure muito tempo,  mas sem prazo definido. Na realidade, sabemos pouco do que se passa no Império do Meio. A imagem que ele projeta é a de um capitalismo liberal, aparentemente de mercado. Será assim? Acabamos de ver o exército vermelho aliar-se aos sindicatos sínicos para proibir a autoritariamente a emigração dos camponeses chineses para as cidades, o que causava uma baixa permanente dos salários e por isso causava tensão social e desagradava aos sindicalistas. A China começou então a investir em países asiáticos de mão de obra barata, como o Vietname. Uma das consequências práticas desta política é o terem sido substituídos por nepaleses os empregados chineses do restaurante chinês em Lisboa favorito d’ O Economista Português. O modelo de mercado na economia e autocracia  na política parece submetido a constante desequilíbrio e por isso o provável é a China aproximar-se do modelo de capitalismo de Estado, vigente no resto do continente eurasiático, de Lisboa a Xangai, passando por Berlim e Moscovo. Se a procura externa cair brutalmente, Pequim talvez recaia  na economia de comando central.

Mal cabem no presente texto outro países e economias.  A Índia parece aproximar-se do capitalismo de mercado, enquanto o México, o Brasil, a Argentina, a África do Sul, a Nigéria, Angola hesitam entre ambos os modelos. O que fica escrito por memória.

É inesperado este regresso do capitalismo (de mercado) ao seu papel tradicional de motor da história. Mais facilmente suporíamos que a economia mundial seria atravessada pela união dos países ricos contra os pobres ou dos países capitalistas contra os socialistas. Ou à maneira de Samuel Huntington pela guerra das civilizações, com uma forte carga religiosa. Estas dimensões existem, ao lado e para lá da frieza mecânica da noção de capitalismo. Mas centrais na marcha do mundo são as duas modalidades de capitalismo: elas são inconciliáveis, pois o de Estado requer uma organização social dominando o indivíduo e o de mercado exige um indivíduo dominando a organização social.

O leitor repare que não tratamos de ideologias incarnadas em partidos ou Estados: nenhum partido defende o capitalismo de Estado, nenhum país se afirma como arauto do capitalismo de mercado. Analisamos  organizações sociais, hoje alheias à dinâmica das religiões seculares prevalecentes no século passado.

 

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