Investigação & Desenvolvimento: O Dr. Costa esquece a Economia

 

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O Dr. António Costa declarou pretender dar até 2019 um contrato de trabalho a 5000 investigadores científicos, desde que bolseiros do Estado há mais de três anos, e aumentar até 2020 a despesa em Investigação e Desenvolvimento (I&D) entre 2,7% e 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB). Sustentou que o défice de qualificações «é o principal bloqueio estrutural para um maior crescimento económico de Portugal». Afirmou ainda que a produção científica portuguesa tem aumentado. Estas declarações foram proferidas quinta-feira passada no encerramento da conferência «Sobre o futuro da ciência em Portugal», no Fórum Picoas.

Que pensar destas declarações?  Em primeiro lugar, as promessas são de grande dimensão.  Os cinco mil novos funcionários públicos correspondem ao número de doutorados em Portugal durante três a quatro anos, no período ao qual se aplica a prometida bondade. O aumento das despesas de I&D aponta no seu escalão superior para a duplicação dos valores recentes.

As promessas são verosímeis? A informação é incompleta. O Sr. Primeiro Ministro não informou se o número de bolseiros de investigação científica continuará estável e disso também depende a apreciação da medida. Não nos foi explicado como será e por quem será aumentada a despesa em I&D. Nem quantos euros irão para o I e quanto para o D. É aliás extraordinário que o Governo trate deste D sem a presença do Ministro da Economia ao qual ele compete, pois o D significa Desenvolvimento e este, se for usado em sentido rigoroso, exige a participação das  empresas. Curiosamente, naquele encontro, quem falou de economia foi o ministro da Ciência,  Doutor Manuel Heitor,  que defendeu a sensata mas esquecida tese que é preciso desenvolver no campo da I&D a cooperação entre o Estado e a empresa privada. As promessas exalam por isso o odor discreto da propaganda eleitoral. Aliás, como o leitor sabe, o PS, aproveitando neste campo a inexistência do PSD e do CDS, sacraliza a despesas em I&D e a apresentar-se como seu paladino.

As promessas serão boas para a economia portuguesa? Depende da comparação. Será melhor enriquecer a nossa função pública com mais doutorados do que construir mais rotundas  desertas e polivalentes sempre fechados ou autoestradas sem trânsito.

Mas mais despesa em I&D, mais funcionários públicos doutores não significa só por si mais desenvolvimento económico. O Dr. Costa vai na boa direção quando aponta  a nossa falta de mão de obra qualificada como o « principal bloqueio estrutural » ao nosso crescimento económico. É um grande avanço face a outras declarações suas afirmando que estávamos em condições de crescer na base dos salários elevados. Mas, para usarmos a sua linguagem ramalhuda, é a falta de empresários e não a falta de doutores que nos bloqueia. A economia Quem diz empresários diz empresas.

O nosso PS reincide no seu erro tradicional neste campo: não distingue no I&D a investigação do desenvolvimento. Ora é o desenvolvimento, o D, que dá crescimento económico a curto e a médio prazo. Sobre esta última frase há toneladas de literatura económica, em geral concorde com a tese aqui sustentada. O Sr. Primeiro Ministro por certo foi aconselhado a medir o crescimento da nossa produção científica pelo número de artigos em revistas científicas mas ninguém lhe sugeriu o uso de um indicador da variação do número de marcas e patentes. Aqueles artigos são muito úteis para criar e manter emprego entre os doutores, mas não se relacionam com o crescimento económico a curto e médio prazo. Este relaciona-se, sim, com o índice de marcas e ou patentes, que permitem produzir melhor, ou aumentam os valores de mercado, e criam emprego não para os doutores mas para toda a gente. O gráfico acima, que publicamos pela segunda vez na esperança que ele tenha algum efeito, mostra bem o nosso atraso no campo do D.

Por fim, e sempre no campo do I&D o PS continua estatista: as empresas conservam a ter um papel menor na nossa produção de I&D, quando comparada com a dos nossos os nossos parceiros económicos mais avançados. Para mais, na última década essa produção de I&D revelou-se declinante, ainda que só ligeiramente.

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