A nossa dívida pública já não é lixo?

 

DívidaPública2011a2017

Há dias, o Sr. Primeiro Ministro afirmou que «faz pouco sentido» o rating da nossa dívida ser o mesmo de 2011 pois «a situação muito diferente». Esta frase vem à boleia da proposta da Comissão bruxelina para que Portugal saísse do Procedimento por Défices Excessivos. Qualquer primeiro ministro é um profissional do otimismo.  O Dr. António Costa desempenhou o seu número e desempenhou-o bem.  Mas terá razão?

A Standard & Poor, a maior das agências de rating, já se explicou e, em resumo, disse não há garantia que a recuperação financeira seja «sustentável».  Este adjetivo é demasiado simpático para nós. Com efeito, a solvabilidade de um Estado é medida em função de dois critérios: o saldo primário do seu orçamento em o crescimento da sua economia, medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) ou indicadores aparentados Se o PIB não cresce, aumentar o saldo primário padece de um custo  eleitoral insustentável.

Vejamos os dois critérios. O saldo primário já cá está mas é tão pequeno que não dá para pagar a dívida pública.  E demorou tantos anos a conseguir que, lá de fora, poucos acreditam que resista a duas eleições.

O segundo critério não dá melhores resultados. A solução negociada com a troika aumentou muito a nossa dívida pública, como mostra o gráfico acima. Em contrapartida, o nosso PIB diminuiu, o que torna   mais difícil pagar a dívida. Talvez já tenhamos recuperado o que perdemos com a crise («reverter», como diz o governo) mas não estamos melhor do que em 2011 do ponto de vista dívida/potencial de pagamento. Pelo contrário.

Para o primeiro critério a situação é parecida com a de 2011, pois não há confiança na estabilidade das medidas orçamentais, e para o segundo o remédio que ministraram à economia portuguesa agravou o mal. A dívida pública portuguesa só é  sustentável com o apoio do Banco Central Europeu (BCE). Que ninguém sabe como agirá.

Há um terceiro facto, de psicologia económica, que nos mantém no lixo: Portugal enganou as agências de rating quando pediu ajuda à União Europeia. É humano supor que aquelas agências não querem que voltemos a enganá-las. Por isso jogam no seguro. O seguro é a classificação lixo.

O Economista Português lamenta ter que contrariar a vaga de otimismo que assola o nosso País e ameaça ser mais perigosa do que a vaga de incêndios.  Mas os factos são casmurros.

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