O que Marcelo dirá a Putin

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O Presidente da República encontrar-se-á quarta-feira próxima com o Presidente Putin. A realização do encontro, por acordo das partes, mostra que não se trata de simples manifestação de cortesia. Dela algo haverá a esperar para a nossa economia. Convém relembrar que a Federação russa é a sétima maior economia mundial.

Marcelo  começará por esclarecer que o nosso país não tenciona mudar as suas alianças e por isso se mantém fiel à NATO e à União Europeia.

Assim demarcado o terreno e higienizado o horizonte, Marcelo declarará o seu desejo de intensificar as relações políticas, económicas e culturais do nosso país com a Rússia num quadro de desanuviamento internacional. Neste contexto, cabe sugerir ao dirigente russo que multiplique encontros do tipo daquele que com ele mantém nessa quarta-feira: encontros com dirigentes main stream de países da Europa Ocidental.

E que tome iniciativas no sentido do desanuviamento e de aproveitamento das oportunidades de trocas económicas que não foram proibidas pelo boicote decretado pela União Europeia.

Nesta sequência, e falando sempre como o professor de Direito Constitucional que evoca as lições dadas aos seus alunos em seminários fechados, Marcelo lembrará Putin as duas políticas externas da Rússia no século passado. Durante a Segunda Guerra Mundial (Staline) e nos anos 1970 (Brejnev), Moscovo articulou-se com as potências ocidentais, apesar do seu regime ser então comunista. Foi a política 1. A política 2 dominou a maior parte do século XX: a Rússia apoiou partidos comunistas europeus, quase sempre pequenos, extremistas, irrelevantes e assim se condenou ao auto-isolamento. Esta política 2 é manifestamente menos conveniente para a própria Rússia, exceto se ela quiser fechar-se sobre si mesma e ignorar o resto do mundo. Ora hoje, a Rússia capitalista e democrática volta a aliar-se a partidos extremistas, só que de sinal oposto aos comunistas. E assim volta a isolar-se.

Se Moscovo procurar dialogar com as forças políticas main stream na Europa Ocidental criará um clima de confiança que lhe permitirá resolver as questões territoriais pendentes, no respeito pela sua própria segurança e pela liberdade do próximo.

Este diálogo teria ainda outro efeito: reforçaria a democracia e os direitos humanos na Rússia. Este reforço, por seu turno, aumentaria a confiança mútua. Seria um um círculo virtuoso.

Um último ponto será vantajosamente abordado e não ficará mal que o seja pelo professor universitário de Direito Constitucional que é o nosso Presidente da República. A política externa russa obedeceu sempre a um grande desígnio universal: no século XIX o czarismo procurou manter no Velho Mundo a aliança do trono e do altar; no século XX, o comunismo afirmou em termos mundiais o sonho (e o pesadelo) da igualdade geométrica entre os homens. Comparado com estes regimes, a Rússia vive hoje num deserto de ideais universais, pior que o do governo provisório de Kerensky, em 1917. Uma civilização antiga como a russa não muda com facilidade as suas regras básicas e por isso necessitará de compensar esse défice. As sugestões anteriores no mínimo não prejudicarão esse inevitável movimento compensatório.

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