21 anos de Euro: a acomodação ao mundo globalizado

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Sem a queda do muro de Berlim, não teria havido Euro

Em 2019 entramos no 21º ano do Euro, embora as notas e moedas só tivessem entrado em circulação em 2021 ou 2022. A entrada na maioridade é uma boa ocasião de reflexão sobre a nova moeda, ainda que só em 2002 devam ter lugar asas comemorações dessa maioridade, pois uma moeda sem notas é uma moeda sem nota.

O Euro resulta da aspiração à união monetária partilhada pela maioria dos Estados-membros da velha Comunidade Europeia e foi precedido do regimes de paridades fixas entre diversas moedas europeias que formavam uma unidade de conta, a qual dava pelo nome de Ecu. O tratado de Maastricht em 1992 fixa a data do lançamento da nova moeda

O Euro ainda existe o que em si mesmo é uma vitória. Na finança anglo-saxónica muitos lhe auguraram um fim rápido, pois viola as regras da «zona monetária ótima», definidas sobretudo por Robert Mundell. Com efeito, a Eurozona não desfrutava de liberdade de circulação de trabalhadores, além de ter um sincronismo económico. O Euro é apenas ultrapassado pelo yuan e pela rupia como moeda primária, em termos de número de cidadãos utentes. Estão tituladas em Euros mais de um quinto das reservas monetárias dos bancos centrais (a libra esterlina conserva menos de um vigésimo dessas reservas). Mas as resistências ao seu estabelecimento restringiram as adesões pelo que o nome Euro , «moeda única europeia», é basófia: não é a moeda europeia, é a moeda do ocidente da Europa continental e, a leste, agrupa pequenas economias mais desejosas de consolidarem o seu distanciamento face à Rússia e mais pró alemãs: os países bálticos, um nórdico (Finlândia) vários eslavos (eslovacos, eslovenos). Com efeito, ficaram de fora do Euro não só a Inglaterra (o seu crítico mais vocal) mas também poderosas economias das periferias europeias, como a Suécia, a Noruega, a Dinamarca e a Polónia, entre outras.

O Euro foi fundado por razões diversas e contraditórias: em primeiro lugar, por medo francês da reunificação alemã. Jacques Attali, que se afirma economista, contou pormenorizadamente em Verbatim as manobras do seu chefe político, o Presidente Mitterrand, para enfraquecer a Alemanha levando-a a aderir ao Euro e o sucesso que tal adesão lhe deu. Esta fantasia continua a ser doutrina oficial na terra de Astérix e de Napoleão. O Euro começa pois por ser uma resposta francesa à queda do comunismo russo no quadro europeu. Estava aqui a primeira contradição entre o Euro e a realidade. Era previsível: a Alemanha era a economia mais poderosa da zona e a única com excedentes financeiros. Só não viu quem não quis ver. Mas a «moeda única» é também uma resposta da Europa ocidental à reorganização económica mundial posterior ao fim do regime soviético. Esta reorganização implicou a fundação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e o começo do fim do tradicional protecionismo dos direitos aduaneiros e das quotas de importação. A moeda era um elemento decisivo desse novo protecionismo, pois eliminava o risco cambial, que é um custo de produção significativo em mercados de concorrência monopolista ou em mercados competitivos. A Alemanha esperava que o Euro lhe desse mercados assim protegidos e lhe garantisse um câmbio alto adequado às suas exportações de produtos manufaturados muito especializados. Por isso Berlim não queria que o Euro fosse apenas uma zona marco alargada (Holanda, Bélgica, França, Dinamarca), para ter o mercado vasto dos países do sul da Europa, e exigia que o seu câmbio fosse mais alto do que o do dólar para proteger a sua indústria (e agradar a Washington que não queria um Euro mais barato do que o dólar). Estes objetivos interessavam a França mas deixavam frios os países do sul, que sonhavam com uma Europa federativa que lhes redistribuísse o dinheiro dos alemães. Este sonho atingiu as suas mais belas formas quando Jacques Delors presidiu à Comissão Europeia e um chanceler alemão bondoso (Helmut Schmidt) ou bonacheirão (Helmut Kohl) distribuíram Volkswagens e TGVs pelos povos necessitados. Estes dois objetivos eram contraditórios mas a Alemanha desenvolveu um inteligente marketing do Euro: convenceu os seus parceiros que teriam crédito ao consumo barato e ilimitado, graças à garantia alemã (que era apenas informal e não dispensava o reembolso dos empréstimos). Até à crise do Lehman Bros (2008), bancários promovidos a banqueiros garantiam a’ O Economista Português que, estando no Euro, a nossa economia não tinha um risco superior ao da alemã e por isso pagaria a mesma taxa de juro que ela. Como se o risco do crédito de uma dada economia nacional fosse determinado pela moeda por ela usada. Aliás, a experiência já fora conduzida: várias economias da América latina, entre as quais a da Argentina, já se tinham dolarizado sem efeito duradouro nem significativo sobre as suas taxas de juro.

Além do interesse dos países europeus credores, a alta paridade do Euro resulta também das ideias prevalecentes no final do século passado sobre o futuro da economia mundial.- Pensava-se então que a produtividade aumentaria apenas nos serviços, pois a robotização destruiria emprego na indústria tal como a «revolução verde» destruíra no setor primário, sobretudo na agricultura. O comércio mundial seria liberalizado após a queda do comunismo russo e por via dele a indústroa transformadora para os países até então chamados «em vias de desenvolvimento» e que passavam a emergentes. O futuro dos países ricos estava nos serviços e de preferência nos serviços criativos. Por isso, a OCDE fixava a meta do ensino universitário em dois terços das novas classes etárias (no pressuposto otimista da criatividade da Universidade) e os Presidentes Clinton e Obama equacionavam seriamente a possibilidade de deixar falir a General Motors, como símbolo da renúncia indústria transformadora. Ora os serviços não seriam exportáveis, à volta deles constituíam-se com facilidade monopólios e por isso iam bem com elevadas paridades monetárias. Estas previsões talvez se concretizem no futuro mas faltou aos decisores do final do século passado o equacionamento da fase de transição para esse futuro radioso e da duração desse período transitório.

A classe dirigente do nosso país acreditou ingenuamente nesta publicidade alemã a favor do Euro. O Euro sucedia ao ouro do Brasil, às remessas dos emigrantes e às receitas do turismo a árvore das patacas que nos permitira enriquecer sem esforço nem método. Esta admiração beatífica pelos benefícios do Euro ficou testemunhada numa obra coletiva de reputados economistas intitulada O Impacto do Euro na Economia Portuguesa. Não foi levado a sério que câmbio alto que a Berlim impunha ao Euro era um enorme risco de estagnação para uma economia de baixa produtividade como a nossa. Alguns portugueses esperavam do Euro disciplina financeira no Estado mas foram defraudados pois a Alemanha, se queria disciplina orçamental, cobiçava o negócio bancário português e, sendo caso, sacrifica aquela a este..

O Euro continuará nos próximos anos a simbolizar o decréscimo da presença económica mundial da velha Europa. Dois coxos de mão dada não andam mais depressa do que dois coxos separados uns dos outros. Mas os fundadores do Euro, tal como os da UE, contavam com o efeito de massa para projetarem força mundial.

Para lá dos chamados populismos, e que constituem na realidades oposições das classes de baixo rendimento ao federalismo europeu, aumentou o descontentamento técnico com com a União Europeia (UE) em geral e com o Euro em particular. Manter-se-ão as tensões na Eurozona, agravadas pela saída da Inglaterra da UE. Mas o Euro não corre risco de morte. A classe política da Europa continental depende dele e à sua volta estão criados muitos interesses. Não se lhe perfila nenhuma alternativa de menores custos e maiores benefícios. Só a Alemanha tem condições de tomar a iniciativa de o liquidar. Berlim só porá fim ao Euro se a França não conseguir pôr a casa em ordem e pagar as suas dívidas. Berlim aprendeu muito e não quer pôr o Euro em risco: aquando da nossa crise de 2010, atacou-nos na praça pública, agravando o problema português nos mercados; quando a Itália ameaça agora desrespeitar as regras europeia, quando a França as viola, Berlim, a vestal da ortodoxia financeira tão admirada pelos políticos possidónios, olha para o lado e assobia baixinho. É a melhor solução. A única proposta de reforma em cima da mesa é francesa e consiste em acentuar o federalismo económico das UE. Significa isto a democratização económica da UE o que implicará transferências de rendimento do norte rico para o sul mais pobre. É a proposta francesa. L’Express,  um conceituado semanário francês, apresentando um livro do jornalista do Libération Jean Quatremer propondo a reforma da divisa europeia, titula: «Euro: avançar ou desaparecer». Lembra o marechal francês que disse à sua tropa: «Soldados! Tendes em frente o abismo! Avançai». Berlim responde ao voluntarismo de Paris com compromissos quiméricos, sem data nem conteúdo. Mas a crise portuguesa explicou-lhe como sobreviverá a Eurozona sem mais dinheiro alemão: a desvalorização monetária dos países devedores será substituída pelo agravamento do seu prémio de risco no mercado financeiro internacional. Assim, o risco cambial correrá apenas por conta dos devedores.

Por outro lado, o Euro era e é um forte elemento de federalização da Europa que agora passou a desagradar à Alemanha e aos outros credores, por implicar a mutualização das dívidas. O que é ainda outra contradição.

Esperamos estar aqui dentro de três anos e ter a ocasião de averiguar se estas previsões se realizaram.

Nos próximos dias publicaremos dois artigos sobre a Eurozona: como variou o poder de conta dos seus assalariados desde o estabelecimento da chamada «moeda única europeia»? Como evoluíu o poder de compra dos assalariados portugueses (e de grupos de países do Euro)?

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