21 anos de Euro: a globalização estagna os salários


Salários nos Países do Euro Antes da Globalização

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Salários em países da Eurozona Depois da Globalização

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Fonte e notas

Séries estatísticas – Usámos os dados da Ameco para as «compensações reais por empregado» deflacionadas pelo consumo privado («Real compensation per employee, deflator private consumption, total economy» em 7 – GROSS DOMESTIC PRODUCT (INCOME APPROACH), LABOUR COSTS Unit local currency. Os preços são de 2010. A série está disponível a partir de http://ec.europa.eu/economy_finance/ameco/user/serie/SelectSerie.cfm Aquela categoria «compensações», abrangendo toda a economia,. apresenta-se como mais englobante do que os salários, na medida em que além destes inclui todas as remunerações recebidas pelos assalariados, sejam eles quais forem. Aquela série foi a base estatística para o estudo dos nossos dois períodos, de 1975 a 1995 e de 1996 a 2017. As taxas de variação de cada período são calculadas pela diferença entre o seu primeiro e o seu último ano e a taxa anual resulta da divisão desses valores pelo número de anos.

Universo – A AMECO, uma publicação estatística da União Europeia (UE), só fornece médias da Eurozona para todos os seus membros desde 1995 (antes ficam de fora os países que então pertenciam ao Comecon, o Mercado Comum comunista). Por isso, com os dados da UE, não conseguimos comparar a variação das compensações remuneratórios dos empregados antes e depois de 1995. O Economista Português deflacionou as variações nacionais de rendimentos dos empregados com a população em 1990 (para usar a população alemã anterior à reunificação, que prevaleceu durante a maior parte do período). Obtivemos assim a UE 12, os doze países que já integravam a Comunidade Europeia antes da reunificação alemã e são hoje membros da Eurozona. Esses doze países são: Alemanha, Bélgica, Áustria, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Portugal. Para estes países calculámos a média ponderada nos dois períodos pois a AMECO apenas oferece médias globais para toda a Eurozona com a composição que tem no momento da publicação dos dados. Tivemos que ponderar os dados da Eurozona12 também para o período posterior a 1995. Para tanto usámos a população de cada país em 2010. A base é o valor do primeiro ano de cada período. Assim, base 100=1975 e base 100 =1996 (em ambos os períodos os valores das séries estão todos em preços União Europeia de 2010).

As compensações em preços constantes dos empregados aumentaram anualmente 0.005 por mil no período 1996-2017 nos doze países da Eurozona que integram a atual União Europeia (UE) antes da reunificação alemã. No período anterior, de 1975 a 1995, esse crescimento fora de 1,7% ao ano. É o que ressalta dos dois gráficos acima.O valor das remunerações estagnou. Com efeito um aumento de meio centésimo por ano significa que as compensações pelo trabalho assalariado tinham-se tornado estacionárias. Esta baixa drástica é imputável sobretudo à globalização: aqueles dois períodos têm como fronteira o ano de 1996, que simbolicamente é o ano do nascimento da atual globalização pois é o ano da fundação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a globalização é no essencial a abertura dos mercados europeus e norte-americano de produtos manufaturados aos países outrora chamados «em desenvolvimento» e que, até então, se limitavam a exportar matérias primas alimentares, industriais e energéticas, de baixo valor acrescentado. Mas a globalização deveria ser o alargamento do comércio livre de produtos da indústria transformadora a todos os países do mundo.

Os dados da União Europeia para a variação das remunerações dos empregados no conjunto da Eurozona e no período 2010-2017 são mais otimistas: elas teriam aumentado 0,4%. A diferença com os nossos cálculos deve-se ao deflacionador utilizado: usámos a população, a AMECO por certo deflacionou com o valor acrescentado por habitante. Esse otimismo é de salientar pois ocorre quando a globalização já estava a tomar velocidade. Mas mesmo assim estamos perante taxas de crescimento quatro vezes mais baixas do que as registadas antes da globalização. Com este ritmo, os salários precisam de mais de 140 anos para duplicarem.

A desaceleração do crescimento remuneratório é significativa. É pouco melhor do que a estagnação: com as taxas anteriores à globalização, as remunerações dos assalariados duplicavam em menos de uma geração. Hoje os aumentos de salários desapareceram do horizonte. A diferença em breve se sentirá no cabaz de compras dos empregados da Eurozona.

Nos Estados Unidos, a diminuição do salário real nos ramos sujeitos à globalização tem sido muito comentada mas na Europa esta abordagem é ainda rara.

Esta estagnação salarial parece absurda face à teoria económica vigente. Com efeito, com o comércio livre, ficamos pior do que sem o comércio livre. Ora o teorema de Ricardo ensina-nos que o comércio livre melhora o poder de compra de todos os que nele participam. Este milagre deriva da especialização: como o leitor recorda, na célebre demonstração do economista inglês David Ricardo, a Inglaterra ganhava em apenas produzir panos para vender a Portugal e nós ganhávamos em apenas produzir vinho para vender aos ingleses. Assim o comércio livre geraria um «ótimo de Pareto», no qual todos os participantes ficariam melhor.

Não citamos o teorema de Ricardo para o criticar: ele situa-se no campo da teoria e expõe dois momentos de estática. Pelo nosso lado, analisamos momentos vários de uma cena dinâmica. Citamo-lo porque a realidade frente aos nossos olhos parece desmenti-lo e parece que estamos a piorar com o comércio livre. Dir-se-á que a taxa de crescimento não é um bem e por isso não conta para o ótimo de Pareto. Admitamo-lo sem conceder. As remunerações do trabalho assalariado desaceleram mas continuam mais elevadas do que antes da globalização. E se os salários reais diminuírem nos países ricos da Eurozona? Os salário reais ou outra medida de rendimento individual. Por enquanto a Eurozona como um todo ainda não chegou a essa situação. Mas cumpre perguntar: a queda do salário real médio da Eurozona prosseguirá ou pelo contrário ele estabilizará no futuro próximo? Se prosseguir, estará desmentido o teorema de Pareto? Não, pois parece que os países da Eurozona liberalizaram mais as suas importações do que a China ou a Índia liberalizaram as delas e por isso não estão satisfeitos os pressupostos do modelo de Ricardo para o comércio livre. Mas, se isso acontecer, devemos reconhecer que aconteceu. Estaremos na Europa ocidental perante uma situação social explosiva: as objurgatórias contra o populismo serão ineficazes face à queda do poder de compra do empregado europeu. Aliás, seria interessante estudar se o surto atual do chamado «populismo» na Europa ocidental não é já o resultado combinado do aumento da imigração alogénea com o fim do crescimento do salário real.

A estagnação salarial resulta também da política da Eurozona do câmbio alto para o Euro. O reverso interno desta política é a estagnação da massa monetária e, portanto, a falta de estímulos monetários ao crescimento económico. Os Estados Unidos seguem uma política monetária mais flexível e conseguem uma taxa de crescimento do PIB que, apesar da globalização, é quase o dobro da da Eurozona. A economia dos Estados Unidos não foi menos submetida à globalização dio que a da Europa ocidental.

Como deve agir o nosso país perante esta situação? Parece claro que a Eurozona não sabe defender os seus interesses comerciais à escala mundial. Não será por isso (ou só por isso) que a abandonaremos. Mas estamos em condições de a pressionar numa direção potencialmente produtiva. Com efeito, o Presidente Trump conseguiu inscrever no comunicado final do último G20 a reformulação das regras da OMC. A Eurozona, em vez de se limitar a insultá-lo quotidianamente, talvez devesse associar-se a ele para as melhorar em benefício próprio. Esta melhoria tem que consistir numa desaceleração da globalização e na sua gestão.

Num próximo artigo identificaremos os efeitos da globalização sobre as compensações dos empregados dos diferentes países da Eurozona, entre os quais Portugal.

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