21 anos de Euro: descem os nossos salários reais e os dos países devedores, sobem os dos credores

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Fonte e notas: Ameco, base 100=2010. Para mais informações metodológicas, queira ver o post abaixo

Entre 2010 e 2017, as compensações pagas aos empregados portugueses desceram 7% em termos reais. Isto é: os nossos salário compravam em 2017 um cabaz de compras mais pequeno 7% do que em 2010. Não só os nossos. Sempre analisando a Eurozona, também baixaram essas compensações em Espanha, Itália, Finlândia, Irlanda, Chipre e Grécia. Na Eurozona, os países credores conheceram uma variação inversa: os salários aumentaram na Alemanha, França, Bélgica e Holanda. Aumentaram também e a grande ritmo nos países que foram comunistas (mas nestes últimos casos não é de excluir efeitos contabilístico-políticos). É o que mostra o gráfico acima.

Aquela variação negativa ocorre com a globalização. O Economista Português estudou a variação dos salários no países da Eurozona antes da globalização (1975-1995) e depois dela (1996-2017). Considerámos a globalização começada com a fundação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1996. Antes desta data, as remunerações portuguesas foram as que mais cresceram entre os doze países da Eurozona que analisámos desde 1975. As remunerações das outras economias do sul da UE tinham tido também um crescimento elevado. Entre 1996 e 2010, as nossas remunerações cresceram, mas mais lentamente do que em 1975-1995. Esta desaceleração resultava do começo da globalização. Quando esta acelerou, depois da crise económico-financeira de 2008-2010, as nossas remunerações do trabalho passaram a perder poder de compra em termos reais.

O gráfico visualiza um abismo social na Europa: os salários dos devedores diminuem o seu poder de compra, os dos credores aumentam. Os mais ricos enriquecem, os mais pobres empobrecem na solidária UE. Ora entre os devedores, já houve ou estão a decorrer crises sociais e políticas graves na Grécia, em Espanha e em Itália. É duvidoso que a Eurozona consiga resistir a tão flagrante desigualdade, pelo menos a médio e longo prazo. A minoria discriminada com baixo crescimento salarial não é tão pequena quanto isso: é mais de 40% da população da Eurozona (valores demográficos de 2010).

Os países devedores são indispensáveis aos credores na Eurozona tal como está concebida: pagam juros sem risco aos credores e compram-lhes mercadorias sem necessidade para eles de pagarem o seguro de crédito à exportação. Mas a troca é desigual, pelo menos em termos de remunerações do trabalho

O câmbio alto do Euro impede a nossa economia de se adaptar à globalização. A Eurozona especializa-se em exportar mercadorias cuja produção não está ao alcances das novas economias emergentes: a China não exporta carros de luxo e muito menos máquinas dedicadas a uma só tarefa. Por norma, a nossa economia também não produz esses bens. O nosso desemprego diminuiu devido à criação de postos de trabalho mal pagos, gerando pouco valor acrescentado. Deriva isto do facto do câmbio do Euro estar demasiado alto para as dotações de fatores de produção na economia portuguesa e nas economias dos outros países do sul e periféricos.

O câmbio alto do Euro arrasta uma política monetária doméstica também recessiva, semelhante à do padrão ouro nos anos 1930. A «regra de ouro» do equilíbrio orçamental impede-nos de concretizar o ajustamento à globalização recorrendo à política orçamemental, a única que ao menos teoricamente nos resta.

Não nos iludamos: nem a UE nem a Eurozona dispõem de fórmula política para enfrentar a globalização. Devemos suscitar uma aliança com os 40% de vítimas europeias do Euro, entre os quais a Itália e a Grécia, para suscitarmos uma mudança: Euro com paridade realista, política orçamental anticíclica. Se não o conseguirmos, dentro de poucos anos a UE será governadas pelos protecionismos nacionalistas e autoritários.

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