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A nossa indústria automóvel em risco devido à caquexia do diesel

Diesel

Enunciemos três factos na aparência díspares:

  • Há poucos meses, o Japão prende sem culpa formada o Sr. Ghosn cujo principal crime parece que consistia em querer unir a Renault e a Nissan em torno de um novo automóvel elétrico mundial.
  • Há dois dias, a Honda, também nipónica mas sem relação acionista com a Nissan, anunciou a próxima suspensão do fabrico dos seus automóveis em Inglaterra.
  • Ontem a Alemanha e a França revelaram uma futura proposta aos Estados-membros da União Europeia (UE) de um projeto de fábrica europeia de baterias para os automóveis elétricos. A Alemanha será maioritária no projeto, sabe-se à partida. A bateria é cerca de 40% do preço daquele tipo de veículo.

Talvez o Brexit tenha acelerado o movimento da Honda, aliás ainda indefinido. Se acelerou, não foi mais do que isso: um acelerador. Assistimos ao envelhecimento rápido do motor diesel tal como o conhecemos. Ainda não conhecemos o seu substituto para o transporte individual de passageiros em zonas infraestruturadas, mas é certo que será substituído dentro de poucos anos. Paris demorou uns meses a compreender que o Japão não prendera o Sr. Ghosn por ele não ter pago do seu bolso as tardias núpcias num palácio francês e, quando o percebeu, logo aceitou renovar o seu estatuto secundário face à Alemanha. Aceitou renovar o seu estatuto secundário para a próxima revolução industrial. Porque o motor diesel (e os seus extraordinários aperfeiçoamentos) são o coração da atual lógica industrial.

Por isso a existência da nossa indústria automóvel está ameaçada. Com efeito, ela está completamente dependente do velho (e aperfeiçoado) motor diesel. Ela começou quando o Prof. Salazar impôs às empresas importadoras de automóveis pessoais que, a partir de um certo quantitativo, os montassem em fábricas portuguesas em regime CKD (Completely Knocked Down, isto é, os veículos eram importados completamente desmontados e cá os reconstruiamos de acordo com o modelo que nos era fornecido pelos seus criadores). A fábrica de Palmela herda deste modelo: é certo que a Ford e a VW vieram porque quiseram (ao passo que as linhas de montagem salazaristas vieram obrigadas) mas nós portugueses continuamos a não dirigir a menor parte do do seu processo de fabrico. Ora esse processo de fabrico é o diesel como Deus o criou. Quando as empresas automóveis fecharem as suas fábricas de diesel como Deus o criou, que acontecerá às nossas, não só à de Palmela mas também à de Mangualde? Serão por certo das primeiras a serem encerradas.  

Teremos condições para uma industria automóvel no Portugal 20-30?

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A árvore Costa, Carlos esconde a floresta desregulação bancária

BangaRegulaçção

A gestão recente da Caixa Geral de Depósitos (CGD) será examinada por uma comissão parlamentar de inquérito. Costa, Carlos, atual governador do Banco de Portugaln (BdP) integrou a administração superior da Caixa no período em que ela será inquirida. O BdP é o regulador da Caixa e por isso o seu governador não deve julgá-la. Consequentemente Costa, Carlos pediu escusa ao conselho do BdP, que aceitou. PS, PSD e CDS querem aguardar o resultado do inquérito, e o Bloco de Esquerda (BE) a demissão imediata do governador. Como o cargo de governador é vitalício e da demissão cabe recurso europeu, a demissão teria efeitos apenas políticos. Demitir ou não demitir, qual será o melhor caminho?

O Economista Português considera o Dr. Costa, Carlos totalmente incapaz para as funções de regular bamcária que continua a exercer. Foi ele que levou o BES à falência, pois mudou de critérios a meio do jogo (questão diferente é saber se Ricardo Salgado praticou todas ou algumas das infrações de que é acusado). Mas exigir a demissão de Costa, Carlos na presente fase, apenas com base em suspeitas, seria não só injusto (o que não é pouco), como conduziria a confundir a árvore com a floresta: responsável ou não, a ação (des)reguladora de Costa, Carlos é a árvore que se insere numa floresta de relações incestuosas entre a banca e o regulador da banca. O nosso esquema de regulação bancária está errado desde o início (pois a garantia estatal cobre erros de gestão e não apenas as crises estruturais vindas do exterior) mas os seus efeitos são agravados pelo laxismo inerente ao caráter incestuoso da regulação. A banca não quer ser regulada e por isso defende hoje Costa, Carlos.

Queremos uma comissão de inquérito para saber se Costa, Carlos foi um dos coautores do empréstimo da CGD a Berardo ou quais as fraquezas da regulação bancária que permitiram esses e outros dislates ou ilcitos?

Importa aproveitar a crise da CGD para refundir de alto a baixo o nosso processo de regulação bancária, cujo desempenho tem oscilado entre o vergonhoso e o patético. Para daqui a poucos anos  não termos que pagar mais uns milhões à CGD.

Brexit: Pedro Silva Pereira propõe adiamento para negociar fronteiras

 

 

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«Departamento do Brexit MARÇO “Não estamos a mudar a data do Brexit mas podemos acrescentar noventa dias ao mês de fevereiro”» Matt, no  Sunday Telegraph de ontem) . 

O eurodeputado socialista  Pedro Silva Pereira deu sexta-feira passada uma curta entrevista àTSFna qual afirmou ser «inevitável» o adiamento do Brexit devido às «contradições insanáveis» que rodeiam as presentes negociações. Silva Pereira afirma que a defesa do Brexit é contraditória: «Não é possível sair da União Aduaneira, do Mercado Único, rejeitar a livre circulação de pessoas e de bens e depois não querer controlos nas fronteiras. É evidente que algum controlo tem que haver. A começar na fronteira da Irlanda, mas também no Canal da Mancha, entre o Reino Unido e a União Europeia». Esta afirmação de puro bom-senso é indispensável (e talvez seja suficiente) para desbloquear o atual impasse. Querer uma separação sem fronteiras é sonhar que a porta está ao mesmo tempo aberta e fechada. Mas será possível regulamentar fronteiras que respeitem as liberdades básicas. O adiamento é inevitável para que essas liberdades transfronteirições sejam regulados.

Esta entrevista é uma verdadeira pedrada no charco das negociações do Brexit: ou imos o tic-tac da bomba, sabemos quando ela explodirá (a 29 do mês que vem dia em que parará o nosso comércio com a Inglaterra), sabemos que nós portugueses estaremos entre as principais vítimas da explosão e não agimos para nos defender.

Pedro Silva Pereira aborda a questão com lucidez pois esclarece que o adiamento serve para a condução de complexas negociações, que identifica. Segundo O Economista Português é perigosa a ilusão que a Inglaterra sairá da União Europeia (UE) mas conservará o direito às «quatro liberdades». Duvidamos que esta ilusão tenha sido inventada pela Srª May e suspeitamos que foi fomentada, se não imposta, pelos negociadores de Bruxelas. Para o caso, é irrelevante a sua origem e parece ser de boa guerra atribuir tão nefasta ideia à pérfida Albion (para dar um impulso às negociações=.

Adiar por adiar é perigoso pois, se o adiam,ento termina sem acordo, a reação negativa será pior. Por isso criticámos o adiamento sem substância definida. Mas a proposta do eurodeputado socialista tem um conteúdo específico e realista que impede um novo fracasso (o do adiamento) de ter consequências mais gravosas do que o primeiro, o da data inicial: consiste em organizar uma zona de comércio livre entre o Reino Unido e UE pois esta fórmula parece ser a única que satisfaz os desejos de ambas as partes.

Que devemos propor para evitar a previsível catástrofe do Brexit duro

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O maior erro que está à disposição dos políticos é o Brexit duro. As paradas sino-americanas são diferentes e de mais fácil recuperação.

Muitos pensam: o Brexit duro é um erro tão grande que por isso mesmo ninguém o cometerá.

A história da política económica está repleta de erros gigantescos que foram cometidos por serem gigantescos. Evoquemos apenas a organização económica internacional posterior à Primeira Guerra Mundial cuja estupidez é consensual: A Inglaterra e a França endividaram-se nos Estados Unidos para vencerem a Alemanha; finda a guerra, Washington exigiu o pagamento dessas dívidas; Londres e Paris só tinham condições para as pagarem se a Alemanha lhes pagasse as previstas reparações de guerra Mas os Estados Unidos opunham-se a que a Alemanha entregasse as reparações, por as considerar excessivas. A escala de preferências dos Estados Unidos não era transitiva e a economia internacional rebentou em 1929 (e não se recompôs antes de 1945).

O Brexit duro é um erro semelhante a este. Brexit duro é o Brexit não negociado entre a Inglaterra e os 27 (que aliás atuam como se fossem 28). Berlim e Paris não perceberam que os vencedores da Segunda Guerra Mundial, em particular a América e a Rússia, querem desmontar a União Europeia. Por isso a atual União Europeia julga fortalecer-se expulsando os Estados-membros menos federalistas (Inglaterra) ou que fogem ao politicamente correto do diretório franco-alemão (Polónia, Hungria, o grupo de Visogrado em geral). Como receiam o futuro, querem punir exemplarmente a Inglaterra, para evitar novas fugas, e para prevenir que Londres reconstitua uma zona de comércio livre com as periferias europeias sobre os escombros do federalismo vanguardista. Por isso, para autorizar a saída do Reino Unido a UE quer impor-lhe que renuncie a uma das suas componentes: a Irlanda do Norte. É uma interferência descarada nos assuntos internos ingleses. Uma enfraquecida Srª May aceitou o backstop mas o Parlamento de Londres acaba de o rejeitar (embora aceite o resto do acordo com a a UE). O backstop é um eufemismo enganador para a fronteira futura entre as duas Irlandas. A estratégia de Paris-Berlim era errada: se estavam de boa-fé, e queriam um acordo com a Inglaterra, convenceu os ingleses do contrário; se queriam como associada uma Inglaterra mas enfraquecida, não a terão.

O Brexit vive no meio de um amontoado de paradoxos de Condorcet. No fim de semana passado, The Observer revelou (e não foi desmentido) que para ter um Brexit negociado Londres teria que aceitar sem limite temporal o chamado «mercado interno», o que lhe imporia o sacrifício da sua capacidade de assinar tratados comerciais. Segundo as exigências do sr comissário Barnier, e descontadas as contribuições financeiras, a Inglaterra fora da UE tinha as mesmas obrigações que a Inglaterra na UE. A defesa pela UE dos pobres irlandeses, vítimas da Pérfida Albion, era afinal um simples truque político-comercial: o backstop significa que Berlim e Paris não querem autorizar Londres a sair a bem. Pour décourager les autres?

Há uma maioria de ingleses favoráveis a um acordo. Mas, devido a outro paradoxo de Condorcet, essa maioria só se concretizará se a UE corrigir a sua estratégia e aceitar renegociar a cláusula do backstop. Se não, vejamos. O Brexit terá que ter lugar até ao fim de março próximo. A Srª May já disse que, se a UE não renegociar o backstop, prefere a tudo o Brexit duro; nem eleições gerais nem segundo referendo. O que tem toda a lógica política. O governo da Srª May perde a sua escassa maioria parlamentar se não conseguir os votos do DUP, o partido da Irlanda do Norte, e este recusará tal cláusula, nem que Cristo volte. Mas basta que Londres recuse o bluff (e, não haja dúvida, começou a destruí-lo) para que o castigo que a UE sonhou aplicar-lhe se torne imediatamente no seu contrário: punição para a Irlanda, pois passa a ser lícito o regresso do backstop, ou fronteira); descrédito internacional da UE, incapaz de concluir um acordo de Brexit e vítima de crise económica e social interna; transformação do ideal federalista europeu num slogan para negócio monopolista europeu.

O nosso país será dos mais atingidos pelo Brexit duro, tanto em termos de exportações como de fundos comunitáarios (sff role e veja o artigo seguinte). Portugal deve tomar todas as iniciativas para evitar o pior.

Devemos aproveitar a escassa margem de manobra existente para evitar a dialética da destruição recíproca. Ora a Srª May prefere o Brexit duro, única maneira de conservar não só o Reino Unido mas o seu emprego. E a UE já voltou a jurar que sempre teve a armadilha dolosa do backstop no cerne da sua proposta e que recusa renegociá-la. Talvez um ou mesmo ambos os contendores usem este bluff como posição negocial. Mas estão ambos presos dele. A Srª May precisa dele para não ser demitida pelo seu partido (que só é livre de praticar esse ato em janeiro de 2021) e o DUP não cosentirá que uma moção de censura trabalhista vença. Um segundo referendo talvez desse outro resultado, mas a Srª May rejeita-o pois seria o seu fim, se o Brexit fosse recusado ou a sua negociação com com a UE rejeitada.

O eixo Paris-Berlim recusa negociar mas não recusou uma aclaração da cláusula do backlivrestop. Até já começou a dá-la. Devemos procurar estabelecer uma frente de bom senso que promova o caminho da aclaração para evitar o caos do Brexit duro. Para que o Parlamento inglês aceite essa declaração, talvez baste que ela fixe um prazo curto para a sua vigência após o que a Inglaterra será livre de restabelecer a fronteira. Mas será necessário que Londres e a UE concordem no estatuto comercial dos laços que as ligarão: talvez uma zona de comércio livre, sem pauta aduaneira comum, satisfaça todos e não seja difícil de negociar. Ou a abolição da pauta exterior comum acompanhada de regras de origem para o comércio entre os 27 e a Inglaterra. Só para isso, só para essa aclaração concordatária valeria a apenas prolongar o prazo do Brexit.

No sul da União Europeia, somos a principal vítima do Brexit duro

Fonte e notas:

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À direita da linha vertical encarnada estão os países sul da UE encabeçados por Portugal. Estatísticas do comércio externo do Reino Unido. Foram convertidas em euros ao câmbio de 1,13252. Estatísticas do Eurostat para os PIBs dos países da UE. Só incluímos até ao 50º parceiro comercial do Reino Unido, o que deixa de fora vários Estados-membros da UE.

Entre os Estados do sul membros da União Europeia (UE) somos o que mais sofrerá com um Brexit duro. Brexit duro é o Brexit sem acordo. Considerámos que os custos são tanto maiores quando mais elevada for a proporção das exportações da pais para a Inglaterra. Seria normal que defendêssemos os nossos interesses. O Sr. Presidente da França, o Sr. Macron, já disse não ter nenhum proposta nova para Londres, pois só os britânicos têm a perder com um Brexit duro. Infelizmente, não tem razão, embora o país dos «gilets jaunes» exporte para Inglaterra um proporção do seu PIB algo menor do que o nossa, como o gráfico acima mostra.

O nosso ministro Adjunto e da Economia, Dr. Pedro Siza Vieira, referiu o Brexit em público, o que é bom, mas disse palavras tão repassadas de suavidade que o leitor julga que o assunto não nos respeita ou, se respeita, não temos modo de nos defender. Resumimos essas palavras com o título que o Diário de Notícias lhes deu na passada quinta-feira.

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Entretanto, fomos visitados pelo sr. Comissário Barnier, responsável continental pela catástrofe negocial brexitiana. A mensagem deixada pelo Sr. Comissário é inquietante. Parece que o Sr. Comissário nos convidou a desejar relações mais estreitas com o «nosso mais velho aliado», desejo que por certo todos acalentamos no nosso coração mas que pensamos comunicar aos interessados lá mais para o Verão. Com efeito na atual fase do campeonato brexitiano, esse desejo é de puro humor negro. Todos sabemos que o Parlamento britânico rejeitou o único acordo de Brexit existente para evitar ser obrigado a continuar na UE depois de sair da UE: os negociadores continentais inventaram a espertalhice que, para vender um quilo de bacalhau fresco na UE, a Inglaterra tinha que perfilhar as quatro liberdades (circulação de pessoas, mercadorias, capitais, serviços) o que a impede de ter uma fronteira com a Irlanda e o que portanto a impede de ser um país soberano. O eixo Paris-Berlim conseguiu impor este Diktat a uma Srª May sem base política, que ou não o percebeu ou julgou que conseguiria levar os ingleses a aceitarem-no sob coação: «ou o meu acordo ou o Brexit será o caos». A Srª May falhou de um modo ridículo. O que aumenta a probabilidade de um Brexit duro. Os conservadores não têm uma maioria suficientemente para sacrificarem a Irlanda do Norte e, a haver segundo referendo, ele terá que exigir a garantia da fronteira sem dolosos backstops. Sem isto, não haverá acordo.,, o que nos saíram muito caro e talvez custe a eleição ao governo. Para evitar a catástrofe, seria preferível que o Sr. Barnier manifestasse um pouco mais de bom senso e de boa fé negociais e menos falsas juras de amor
eterno. E, se  o nosso país nada conseguir pôr no terreno diplomático … esperemos pelas sensatas instruções alemãs.

21 anos de Euro: descem os nossos salários reais e os dos países devedores, sobem os dos credores

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Fonte e notas: Ameco, base 100=2010. Para mais informações metodológicas, queira ver o post abaixo

Entre 2010 e 2017, as compensações pagas aos empregados portugueses desceram 7% em termos reais. Isto é: os nossos salário compravam em 2017 um cabaz de compras mais pequeno 7% do que em 2010. Não só os nossos. Sempre analisando a Eurozona, também baixaram essas compensações em Espanha, Itália, Finlândia, Irlanda, Chipre e Grécia. Na Eurozona, os países credores conheceram uma variação inversa: os salários aumentaram na Alemanha, França, Bélgica e Holanda. Aumentaram também e a grande ritmo nos países que foram comunistas (mas nestes últimos casos não é de excluir efeitos contabilístico-políticos). É o que mostra o gráfico acima.

Aquela variação negativa ocorre com a globalização. O Economista Português estudou a variação dos salários no países da Eurozona antes da globalização (1975-1995) e depois dela (1996-2017). Considerámos a globalização começada com a fundação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1996. Antes desta data, as remunerações portuguesas foram as que mais cresceram entre os doze países da Eurozona que analisámos desde 1975. As remunerações das outras economias do sul da UE tinham tido também um crescimento elevado. Entre 1996 e 2010, as nossas remunerações cresceram, mas mais lentamente do que em 1975-1995. Esta desaceleração resultava do começo da globalização. Quando esta acelerou, depois da crise económico-financeira de 2008-2010, as nossas remunerações do trabalho passaram a perder poder de compra em termos reais.

O gráfico visualiza um abismo social na Europa: os salários dos devedores diminuem o seu poder de compra, os dos credores aumentam. Os mais ricos enriquecem, os mais pobres empobrecem na solidária UE. Ora entre os devedores, já houve ou estão a decorrer crises sociais e políticas graves na Grécia, em Espanha e em Itália. É duvidoso que a Eurozona consiga resistir a tão flagrante desigualdade, pelo menos a médio e longo prazo. A minoria discriminada com baixo crescimento salarial não é tão pequena quanto isso: é mais de 40% da população da Eurozona (valores demográficos de 2010).

Os países devedores são indispensáveis aos credores na Eurozona tal como está concebida: pagam juros sem risco aos credores e compram-lhes mercadorias sem necessidade para eles de pagarem o seguro de crédito à exportação. Mas a troca é desigual, pelo menos em termos de remunerações do trabalho

O câmbio alto do Euro impede a nossa economia de se adaptar à globalização. A Eurozona especializa-se em exportar mercadorias cuja produção não está ao alcances das novas economias emergentes: a China não exporta carros de luxo e muito menos máquinas dedicadas a uma só tarefa. Por norma, a nossa economia também não produz esses bens. O nosso desemprego diminuiu devido à criação de postos de trabalho mal pagos, gerando pouco valor acrescentado. Deriva isto do facto do câmbio do Euro estar demasiado alto para as dotações de fatores de produção na economia portuguesa e nas economias dos outros países do sul e periféricos.

O câmbio alto do Euro arrasta uma política monetária doméstica também recessiva, semelhante à do padrão ouro nos anos 1930. A «regra de ouro» do equilíbrio orçamental impede-nos de concretizar o ajustamento à globalização recorrendo à política orçamemental, a única que ao menos teoricamente nos resta.

Não nos iludamos: nem a UE nem a Eurozona dispõem de fórmula política para enfrentar a globalização. Devemos suscitar uma aliança com os 40% de vítimas europeias do Euro, entre os quais a Itália e a Grécia, para suscitarmos uma mudança: Euro com paridade realista, política orçamental anticíclica. Se não o conseguirmos, dentro de poucos anos a UE será governadas pelos protecionismos nacionalistas e autoritários.

21 anos de Euro: a globalização estagna os salários


Salários nos Países do Euro Antes da Globalização

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Salários em países da Eurozona Depois da Globalização

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Fonte e notas

Séries estatísticas – Usámos os dados da Ameco para as «compensações reais por empregado» deflacionadas pelo consumo privado («Real compensation per employee, deflator private consumption, total economy» em 7 – GROSS DOMESTIC PRODUCT (INCOME APPROACH), LABOUR COSTS Unit local currency. Os preços são de 2010. A série está disponível a partir de http://ec.europa.eu/economy_finance/ameco/user/serie/SelectSerie.cfm Aquela categoria «compensações», abrangendo toda a economia,. apresenta-se como mais englobante do que os salários, na medida em que além destes inclui todas as remunerações recebidas pelos assalariados, sejam eles quais forem. Aquela série foi a base estatística para o estudo dos nossos dois períodos, de 1975 a 1995 e de 1996 a 2017. As taxas de variação de cada período são calculadas pela diferença entre o seu primeiro e o seu último ano e a taxa anual resulta da divisão desses valores pelo número de anos.

Universo – A AMECO, uma publicação estatística da União Europeia (UE), só fornece médias da Eurozona para todos os seus membros desde 1995 (antes ficam de fora os países que então pertenciam ao Comecon, o Mercado Comum comunista). Por isso, com os dados da UE, não conseguimos comparar a variação das compensações remuneratórios dos empregados antes e depois de 1995. O Economista Português deflacionou as variações nacionais de rendimentos dos empregados com a população em 1990 (para usar a população alemã anterior à reunificação, que prevaleceu durante a maior parte do período). Obtivemos assim a UE 12, os doze países que já integravam a Comunidade Europeia antes da reunificação alemã e são hoje membros da Eurozona. Esses doze países são: Alemanha, Bélgica, Áustria, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Portugal. Para estes países calculámos a média ponderada nos dois períodos pois a AMECO apenas oferece médias globais para toda a Eurozona com a composição que tem no momento da publicação dos dados. Tivemos que ponderar os dados da Eurozona12 também para o período posterior a 1995. Para tanto usámos a população de cada país em 2010. A base é o valor do primeiro ano de cada período. Assim, base 100=1975 e base 100 =1996 (em ambos os períodos os valores das séries estão todos em preços União Europeia de 2010).

As compensações em preços constantes dos empregados aumentaram anualmente 0.005 por mil no período 1996-2017 nos doze países da Eurozona que integram a atual União Europeia (UE) antes da reunificação alemã. No período anterior, de 1975 a 1995, esse crescimento fora de 1,7% ao ano. É o que ressalta dos dois gráficos acima.O valor das remunerações estagnou. Com efeito um aumento de meio centésimo por ano significa que as compensações pelo trabalho assalariado tinham-se tornado estacionárias. Esta baixa drástica é imputável sobretudo à globalização: aqueles dois períodos têm como fronteira o ano de 1996, que simbolicamente é o ano do nascimento da atual globalização pois é o ano da fundação da Organização Mundial do Comércio (OMC) e a globalização é no essencial a abertura dos mercados europeus e norte-americano de produtos manufaturados aos países outrora chamados «em desenvolvimento» e que, até então, se limitavam a exportar matérias primas alimentares, industriais e energéticas, de baixo valor acrescentado. Mas a globalização deveria ser o alargamento do comércio livre de produtos da indústria transformadora a todos os países do mundo.

Os dados da União Europeia para a variação das remunerações dos empregados no conjunto da Eurozona e no período 2010-2017 são mais otimistas: elas teriam aumentado 0,4%. A diferença com os nossos cálculos deve-se ao deflacionador utilizado: usámos a população, a AMECO por certo deflacionou com o valor acrescentado por habitante. Esse otimismo é de salientar pois ocorre quando a globalização já estava a tomar velocidade. Mas mesmo assim estamos perante taxas de crescimento quatro vezes mais baixas do que as registadas antes da globalização. Com este ritmo, os salários precisam de mais de 140 anos para duplicarem.

A desaceleração do crescimento remuneratório é significativa. É pouco melhor do que a estagnação: com as taxas anteriores à globalização, as remunerações dos assalariados duplicavam em menos de uma geração. Hoje os aumentos de salários desapareceram do horizonte. A diferença em breve se sentirá no cabaz de compras dos empregados da Eurozona.

Nos Estados Unidos, a diminuição do salário real nos ramos sujeitos à globalização tem sido muito comentada mas na Europa esta abordagem é ainda rara.

Esta estagnação salarial parece absurda face à teoria económica vigente. Com efeito, com o comércio livre, ficamos pior do que sem o comércio livre. Ora o teorema de Ricardo ensina-nos que o comércio livre melhora o poder de compra de todos os que nele participam. Este milagre deriva da especialização: como o leitor recorda, na célebre demonstração do economista inglês David Ricardo, a Inglaterra ganhava em apenas produzir panos para vender a Portugal e nós ganhávamos em apenas produzir vinho para vender aos ingleses. Assim o comércio livre geraria um «ótimo de Pareto», no qual todos os participantes ficariam melhor.

Não citamos o teorema de Ricardo para o criticar: ele situa-se no campo da teoria e expõe dois momentos de estática. Pelo nosso lado, analisamos momentos vários de uma cena dinâmica. Citamo-lo porque a realidade frente aos nossos olhos parece desmenti-lo e parece que estamos a piorar com o comércio livre. Dir-se-á que a taxa de crescimento não é um bem e por isso não conta para o ótimo de Pareto. Admitamo-lo sem conceder. As remunerações do trabalho assalariado desaceleram mas continuam mais elevadas do que antes da globalização. E se os salários reais diminuírem nos países ricos da Eurozona? Os salário reais ou outra medida de rendimento individual. Por enquanto a Eurozona como um todo ainda não chegou a essa situação. Mas cumpre perguntar: a queda do salário real médio da Eurozona prosseguirá ou pelo contrário ele estabilizará no futuro próximo? Se prosseguir, estará desmentido o teorema de Pareto? Não, pois parece que os países da Eurozona liberalizaram mais as suas importações do que a China ou a Índia liberalizaram as delas e por isso não estão satisfeitos os pressupostos do modelo de Ricardo para o comércio livre. Mas, se isso acontecer, devemos reconhecer que aconteceu. Estaremos na Europa ocidental perante uma situação social explosiva: as objurgatórias contra o populismo serão ineficazes face à queda do poder de compra do empregado europeu. Aliás, seria interessante estudar se o surto atual do chamado «populismo» na Europa ocidental não é já o resultado combinado do aumento da imigração alogénea com o fim do crescimento do salário real.

A estagnação salarial resulta também da política da Eurozona do câmbio alto para o Euro. O reverso interno desta política é a estagnação da massa monetária e, portanto, a falta de estímulos monetários ao crescimento económico. Os Estados Unidos seguem uma política monetária mais flexível e conseguem uma taxa de crescimento do PIB que, apesar da globalização, é quase o dobro da da Eurozona. A economia dos Estados Unidos não foi menos submetida à globalização dio que a da Europa ocidental.

Como deve agir o nosso país perante esta situação? Parece claro que a Eurozona não sabe defender os seus interesses comerciais à escala mundial. Não será por isso (ou só por isso) que a abandonaremos. Mas estamos em condições de a pressionar numa direção potencialmente produtiva. Com efeito, o Presidente Trump conseguiu inscrever no comunicado final do último G20 a reformulação das regras da OMC. A Eurozona, em vez de se limitar a insultá-lo quotidianamente, talvez devesse associar-se a ele para as melhorar em benefício próprio. Esta melhoria tem que consistir numa desaceleração da globalização e na sua gestão.

Num próximo artigo identificaremos os efeitos da globalização sobre as compensações dos empregados dos diferentes países da Eurozona, entre os quais Portugal.