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Salários e consumo: A França é a grande preocupação da Alemanha

ConsumoSalários2017

Fonte e notas – O gráfico acima regista a divisão das variações do consumo privado pelos salários em 2017. tem por fonte a Ameco, a base de dados organizada pela União Europeia. Os dados para o consumo são os do consumo individual final dos lares a preços constantes de 2010. O valor médio da Eurozona foi deflacionado pelo número de habitantes de cada país (cálculos d’ O Economista Português) 

A variação do consumo privado nos países da Eurozona é inferior à variação dos salários. O que sugere que os lares estão a ser alimentados pelo crédito e não pela produtividade. O gráfico acima permite visualizar esta situação. O mais grave é a França estar abaixo da média, isto é, recorrer ao crédito mais do que devia. A França viola as metas da dívida pública e agrava a dívida privada. Neste particular, o nosso país sai.se bem, melhor do que a França. E a Itália ainda melhor.

Os alemães estão inquietos com a França. Peter Altmeier, o ministro da Economiia germânico acaba de se declarar «inquieto» com a UE, mas no fundo a grande causa da sua inquietação é a França. A França e a Alemanha, os dois países do diretório que felizmente nos rege, estão de lados opostos da barreira da ortodoxia económico.-financeira. A desestabilização da França desestabiliza a UE e a Eurozona. A Itália, cuja dívida privada é melhor do que a francesa, tem razão adicional para violar os critérios de Bruxelas-Berlim. Os líderes dos países europeus grandes, um grupo de medíocres como raramente se viu, fingirão serem uns heróis por terem expulso a Inglaterra mas sabem bem onde dói. Dói em Paris.

Aquelas conclusões resultam da aplicação de um indicador nem sempre tido em conta, a variação do consumo privado a dividir pela variação dos salários, sempre em termos reais. Este indicador não é perfeito pois o consumo privado não é apenas pago pelos salários: é também financiado pelos lucros, pelos juros, pelas rendas e pelas remessas monetárias vindas do estrangeiro, entre as quais avulta o turismo e as remessas de emigrantes. Por isso, os resultados mais extravagantes ocorrem em economias que têm uma elevada dimensão de intermediação financeira: Chipre (devido à Rússia) é o caso limite, mas a Irlanda (devido à Inglaterra e aos Estados Unidos) está na mesma categoria, à qual devemos acrescentar o Luxemburgo. Mas quando não temos cão, caçamos com gato; é que  faltam melhores indicadores financeiros  e não há dúvida que os salários são a grande fonte de financiamento do consumo privado na maior parte das economias. Aliás, o exame dos resultados do indicador revela uma forte coerência interna.

Coloquemos o indicador variação do consumo/variação dos salários na perspetiva do ciclo económico médio (oito a dez anos). É o que consta do gráfico a seguir

ConsumoSalarioCiclioFonte: a mesma do gráfico anterior

A crise do Lehman Bros (2008), a espoleta da última crise económico-financeira, causou o aumento do recurso privado ao crédito. Do ponto de vista capitalista, esse resultado é irracional: numa crise financeira, por definição o crédito diminui. É mesmo isso a crise. Só que o sistema político não consegue fornecer a quantidade de austeridade necessária à limpeza da economia e por isso tem que compensar a crise com o aumento do crédito pessoal. Que tem que ser pago… No ano 2000, o valor da Alemanha era negativo: isto é: o crescimento dos  salários era superior  ao do consumo e por isso uma parte dos salários ia de certeza para a poupança. Como esses tempos vão longe!!! Mesmo a Alemanha, o campeão da ortodoxia financeira, tem visto aumentar significativamente o recurso ao crédito privado. O nosso país tem sido neste campo um bom aluno. Já demos lições financeiras à Alemanha (embora um bocadinho forçados pela troike…). É o que sugere o gráfico acima.

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União Europeia: um país remediado consegue um bom Estado social

 

Scoreboard

O scoreboard acima é o instrumento básico da UE para orientar a diminuição das desigualdades económico-sociais entre os Estados-membros

Apesar de um medíocre PIB por habitante, o nosso país dispõe de um razoável Estado social, revela o rascunho do relatório conjunto da Comissão de Bruxelas e do Conselho de Ministros da União Europeia (UE), sobre o emprego, agora publicado no âmbito do semestre europeu. Na realidade estamos perante um relatório sobre o pilar social da UE, analisando questões de trabalho e segurança social, desde o começo do século até 2017, mas centrado no ano passado, por isso que se trata de um relatório anual, destinado a concretizar o artigo 148º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia.

O relatório assenta no scoreboard  com catorze indicadores sobre a situação social. Elencamo-los no final do presente artigo. .O scoreborard apresenta-se como um instrumento para aumentar a convergência social entre os cidadãos dos diferentes Estados-membros. Como estamos entre os mais pobres da UE, este relatório interessa-nos duplamente: porque somo generosos; porque pretendemos aproximarmo-nos da média de rendimento da UE e ficar-nos-ia mal esquecermo-nos da política de redistribuição de rendimentos à escala global da UE.

Para identificarmos o posicionamento do nosso país, respigámos do relatório os casos em que, para cada um daqueles indicadores, estamos entre os melhores ou entre os piores. Este retrato não é completo, pois podemos não estar entre os melhores ou os piores mas estarmos em posição bastante mazinha (mas como o leitor persistente verá, também tivemos em conta esta situação). Mas indica-nos se estamos em má posição ou se, para o lado da qualidade, nos distinguimos em algum ponto.

Estamos entre os piores («critical situation») no abandono escolar precoce,

Estamos entre os melhores na assistência formal às crianças antes dos três anos,

Em sete indicadores, estamos em situação que exige melhoria.

Sem pretendermos descrever de modo exaustivo a posição do nosso país, assinalemos que ele está na média nos seguintes indicadores: em risco de pobreza, jovens NEET, taxa de emprego, participação em políticas ativas de mercado de emprego, queixas de falta de assistência médica apresentadas pelo próprio.

Estamos acima da média (mas abaixo dos melhores) num único indicador: a diferença de género na taxa de emprego,

Estamos abaixo da média mas sem ser na pior posição nos seguintes indicadores: desigualdade de rendimento, rendimento bruto dos lares, compensação dos empregados, impacto na pobreza das transferências sociais, percentagem da população com conhecimentos digitais.

Os resultados são surpreendentes. Embora em termos de PIB por habitante estejamos bastante abaixo da média da UE, conseguimos estar entre os melhores entre em um dos catorze indicadores e apenas estarmos em situação crítica noutro. A Espanha, mais rica pelo PIB, está pior do que nóss. A Dinamarca está sempre acima da média.

Devemos registar que estamos entre os piores num indicador social que desemboca no aumento da produtividade (abandono escolar) e estamos entre os melhores num indicador de pura redistribuição (assistência médica). O que parece ser uma metáfora do nosso país: somos melhores a ajudar os pobres do que a produzir riqueza que acabe com a pobreza.

Anotemos que a nossa posição no scoreboard  social é razoável devido aos nossos esforços nacionais e não por causa de alguma particular ajuda de Bruxelas.

Assinalemos que o socreboard sugere o que deixou de ser um segredo: o sistema escolar é uma catástrofe nacional. Não só estamos entre os piores no abandono precoce como estamos abaixo da média nos conhecimentos de informática. O que por certo não contribui para aumentar a nossa capacidade produtiva.

O scoreboard não é uma estatística de ocasião: foi aprovado pelo comité social da UE. É por isso interessante elencar os seus catorze indicadores:

  • Proporção dos abandonos escolares precoces, 18-24 anos
  • Diferença de género na taxa de emprego, 20-64 anos
  • Desigualdade de rendimento medida como ratio dos valores dos quintis (S80/S20)
  • «Em risco de pobreza» ou taxa de exclusão social (AROPE)
  • Jovens que nem estão na escola, nem recebem formação profiussional nem trabalham (taxa NEET em inglês), 15-24 anos
  • Taxa de emprego, 20-64 anos
  • Taxa de desemprego, 15-64 anos
  • Participação em políticas ativas de mercado de trabalho por cem pessoas querendo trabalhar
  • Rendimento bruto disponível dos lares em termos reais po habitante
  • Compensação dos empregados por hora trabalhada, em euros
  • Impacto das transferências sociais (exceto as pensões de reforma) na diminuição da pobreza
  • Crianças de menos de três anos em instituições de assistência infantil
  • Necessidades não satisfeitas de assistência médica relatadas pelo próprio
  • Percentagem da população com com conhecimentos digitais iguais ou superiores à média.

Estes catorze indicadores deviam ser criticados na perspetiva de medirem a pobreza, Um jovem isolado e desempregado conta o mesmo para a pobreza do que um jovem desempregado e alimentado pela família. Idosos beneficiando de assistência quotidiana gratuita contam tanto para a pobreza como idosos entregues a si mesmos e aos serviços estatais. São catorze indicadores de pobreza mas são também catorze indicadores para aumentar os impostos e o número de funcionários públicos.

*

Para consultar o interessante relatório (e apreciar uma saborosa gralha no título), clique em

https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/HTML/?uri=CELEX:52017DC0674&from=EN

Segunda Carta a Xi Jimping por causa das Viandas e das Bivendas

 

Vindimas

Exm.º Sr. Presidente Xi Jimping:

Embora com moderada e florida esperança de ser lido por V.Exª, atrevo-me a escrever-lhe de novo.

Não escapou à vossa pretercelestial argúcia quer as referências navais a Sines eram uma metáfora para todo o território português. Queremos tudo da China menos um acordo militar, aplique-se ele aos Açores ou a Vila Nova de Cerveira ou a Sines. Acordo militar aberto ou mais ou menos liofilizado

Nas nossas negociações comerciais temos que solicitar a V. Exª por sermos o país que somos e e termos a economia do tamanho que temos. Quando observamos as nossas exportações para a extremosa pátria de V. Exª, vemos que as nossas exportações são em geral provenientes de ramos de atividade dominadas por grandes empresas. Isto é: as vossas importações castigam os nossos setores dominados por pequenas empresas. Numerosas pequenas empresas lusas tentam sem êxito exportar para a China. Microscópicas empresas, dirá bondosamente V. Exª. A vida é assim, teremos nós que acrescentar, vagamente chorosos. Pois por cá também sabemos que o maravilhoso país de V. Exª não precisa de direitos aduaneiros nem do quotas para controlar as importações: basta-lhe para tanto dar às suas empresas a adequada orientação.

Escrevem por cá as folhas oficiosas que hoje V. Exª decidirá importar uvas portuguesas – esquecendo o vinho português. É uma escolha estranha. Talvez por ser fácil arrumar uma grande empresa que compre as nossas uvas e ser mais difícil importar vinhos das numerosas empresas vinícolas portuguesas. Será que V. Exª se propõe exportar para o nosso país vinho produzido com uvas portuguesas? Antes de tomar uma tão arrojada decisão, permitimo-nos sugerir a V. Exª que mande o seu mordomo comprar disfarçadamente uma garrafa de tinto português para acompanhar a sua refeição. Disfarçadamente para que ninguém possa abusar da boa fé de V. Exª, receio que não devemos excluir que V. Exª acalente, dadas as precauções de que rodeia o seu alojamento lisboeta. Sempre cumprimentando V. Exª e desejando-lhe boa estadia e melhores decisões O Economista Português

Mais uma grande vitória da Eurozona

Eurozona

A reforma da Eurozona é uma das novas serpentes do mar. Todas a procuram, ninguém a encontra. Ontem teve um novo triunfo: o Doutor Centeno perfazia o primeiro aniversário da sua presidência do Eurogrupo. A imprensa portuguesa felicitou-o com sentimento pelo seu triunfo, A imprensa internacional ignorou o grande dia ou relegou-o para a letra pequena das pequenas notícias.

Os ministros do Eurogrupo não aprovaram nenhum orçamento da Eurozona, como a França propusera. O Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), que deveria ser uma espécie de Fundo Monetário da Eurozona, passa a poder ajudar os país, exceto os que estiverem em dificuldades. Apenas ajudar os que talvez esteja, futuramente dificuldades. Não é nenhum mecanismo europeu de garantia dos depósitos bancários mas o MEE tem o direito de ajudar certos bancos em v condições desconhecidas,. Se um banco falir, o MEE emprestará dinheiro
as entidades federais (o que alivia os países credores). Haverás e generosas medidas para … 2024 mas temos tempo de as pormernorizar.

Parece bastante bom este balanço, dado que que a União Europeia não consegue viver em a Inglaterra nem com a Inglaterra; dado que o Presidente Micron oscila entre a demissão e a submissão às massas revoltadas; tendo em conta que a Itália não se entende com Bruxelas; considerando que Berlim tem apenas um governo a prazo.

… Não foi um a grande vitória da Eurozona mas foi uma pequena vitória, que mostra a sua força inercial e o ponto até ao qual os meios financeiros europeus a apoiam.

Carta aberta ao Presidente Xi Jinping: sff não assine o Mapa Cor de Rosa

Seja bem vindo à cabeça da Europa, Sr Presidente. Endereço-lhe esta carta por causa das relações entre o seu país e o meu. Como desenvolver as nossas trocas económicas? V. Exª acaba de concluir um acordo com os Estados Unidos e por isso sabe bem o valor dos acordos com os Estados Unidos. Por isso tomo a liberdade de lhe sugerir que, antes de firmar connosco um acordo sobre o porto de Sines se certifique que o nosso governo obteve para ele a concordância de Washington. É que Sines é um porto de mar e os Estados Unidos são a potência marítima (ou aeronaval, em linguagem mais moderna). Como V. Exª sabe um porto de mar é sempre um porto de guerra pois um navio de guerra é uma plataforma flutuante com uma arma dentro (ou em cima). Os meus compatriotas estão tão ocupados a pensar no que V- Exª nos proporá que talvez não tenham tido tempo nem ocasião de consultar Washington sobre estas miudezas.

V.Exª não ignora que dizemos por cá: «os bons negócios fazem os bons amigos». Se V. Exª fizer negócio connosco a propósito de Sines, queremos que seja bom para si. E para ser bom para si é quase inevitável que deverá ter o tal acordo de Washington.  Falo de Sines e do que toque à operação marítima. Permita-me que me explique e do mesmo traço clarifique a epígrafe da presente epístola, porventura um tintinete enigmática em excesso. No final do século XIX, a principal potência marítima era a Inglaterra. A principal potência continental era a Alemanha. V. Exª está já ao corrente das principais potências hodiernas: nem é preciso repetir sobre a marítima. A continental tem V. Exª que resolver com o seu amigo S. Exª o Sr. V. Putin. No século XIX o meu querido e sempre amado país era aliado da Inglaterra mas deu-lhe um amok e num repente aliou-se à Alemanha. Essa aliança ficou assinalada pelo célebre mapa cor de rosa em que dividíamos a África com o Kaiser. Somos hoje aliados da potência marítima. Nenhum acordo sobre Sines deve alterar este aspeto perpétuo do universo.

V.Exª suporá que estou apenas a defender os interesses portugueses, pois todo o mundo conhece as consequências para o meu país desse famigerado Mapa: com ele caiu a Monarquia e a turbamulta furiosa assassinou o moço Rei que o tinha assinado. Infelizmente é quase desconhecido o que aconteceu à Alemanha por virtude da assinatura desse Mapa: a Inglaterra levou a coisa a mal, desconfiou que Berlim queria mandar no mundo, ao virar da esquina começou uma obscura guerra com ela de que resultou a morte de vários milhões de alemães e a forçada reconversão profissional do Kaiser em cultivador de tulipas na Holanda. Queira V. Exª pôr o caso em si. Só me atrevo à comparação por supor que V. Exª presidencial está careca de saber que «quem te avisa teu amigo é». Já vou no segundo provérbio português para consumo de V- Exª presidencial. Já é seca.

Já incomodei demais V. Exª com estas histórias sérias e talvez um pouco tristes. Na expetativa que a vossa presidencial bondade me desculpe, peço-lhe para se ressarcir do excesso de conselhos e de «jás» que ingira um pastel de Belém ou, se os seus muitos afazeres disso o impedirem, prove um modesto pastel de nata em qualquer café de bairro lisboeta.

Assina-se, sempre português e naval,  seu O Economista Português

TGV: O Economista Português comenta as palavras do Engº Pompeu dos Santos sobre o seu post

alfapendular

O Economista Português publicou um artigo criticando a última proposta de um TGV para Portugal e o Engº Pompeu dos Santos contestou-o, num texto que por certo trouxe novidades relevantes para muitos dos nos nossos leitores.

O Economista Português comenta de seguida essa contestação. As teses contestadas eram no essencial as seguintes:

  • O nosso país não tem condições físicas para ter uma rede de TGV: só a ligação Lisboa-Porto poderia eventualmente gerar tráfego suficiente mas a curta distância em causa e a elevada concentração urbana em Lisboa-Santarém e Porto-Aveiro não permitem instalar a via necessária, exceto com custos sociais incomportáveis
  • As condições políticas do nosso país impõem paragens ferroviárias em Vila Nova de Gaia, Aveiro, Coimbra o que impede o TGV de atingir as velocidades para que foi desenhado
  • Pelas duas razões anteriores, não merecem credibilidade as promessas de reduzir o tempo da viagem de comboio Lisboa-Porto
  • A necessidade estratégica de ligação a uma rede europeia de alta velocidade ferroviária pode ser operada com recurso exclusivo ao material circulante (vagons de bibitola) ou, quando menos, uma ligação de via férrea Sines-Badajoz para mercadorias
  • Nenhum estudo demonstrou que o bilhete de TGV Lisboa-Madrid terá um preço que será competitivo com o do avião, pelo que a linha será deficitária
  • Nenhum estudo custo-benefício demonstrou a rendibilidade social do TGV em Portugal
  • Com a liberalização do tráfego aéreo na Europa, o tempo do TGV passou

A resposta do Sr. Eng.º Pompeu dos Santos deixa por esclarecer os pontos centrais acima elencados e que são a viabilidade económica do TGV, não só em termos de orçamento de investimento mas também de orçamento de exploração. Veremos de seguida essa resposta, ponto por ponto, começando pela crítica inicial em que, segundo as regras da retórica do Concilio de Trento, procura desacreditar o interlocutor (se o leitor só estiver interessado na substância da questão, queira saltar o parágrafo seguinte) e por temas levantados pelo Engº Pompeu dos Santos à margem do texto criticado.:

  • Segundo o crítico, o artigo criticado «parece confundir os comboios de “Alta Velocidade” com a infraestrutura onde circulam. Como é óbvio, são coisas distintas». É de facto tão óbvio, tão óbvio que não foi escrito por pura desnecessidade. Quem ignora no nosso país que a União Europeia (UE) impôs a separação empresarial entre a rede ferroviária e as empresas de transporte ferroviário, a fim de levar a concorrência à ferrovia? Sucede que o nosso argumento não exigiu em geral que expressássemos a distinção entre a rede e o transporte ferroviário.
  • O crítico afirma que os comboios chineses CR400 são de momento os mais rápidos em serviço no mundo, mas o TGV (francês) contesta esta afirmação: em 2014 a velocidade na linha Wuhan-Guanchu foi reduzida para 169 km/hora, inferior à do TGV. Por outro lado o TGV reclama a mais alta velocidade mundial para comboios convencionais: a 3 de abril de 2007 , em condições de teste um comboio POS TGV atingiu 574 km/h na linha entre Paris e Estrasburgo. A Alstom perdeu o h do Alsthom mas não perdeu os pergaminhos e quer conservar o recorde do mundo da velocidade ferroviária, pelo menos em certas condições.
  • Diferentemente do afirmado na crítica, TGV não é uma «marca» da Alstom: a página da Web desta empresa, anunciava o mês passado a inauguração da linha de TGV Tanger-Casablanca, não usa o acróstico TGV. Ora, se fosse uma marca, usá-la-ia por certo. Escrevemos TGV no artigo como o escrevemos na frase anterior: com o sentido corrente entre nós de rede ferroviária de alta velocidade, incluindo material circulante, via férrea e sistemas de comunicações (estes últimos aliás subsumidos pelo crítico na noção discutível de infra-estruturas em que circulam). Com efeito, TGV é simplesmente o acróstico de Train Grande Vitesse, expressão francesa que traduzimos por comboio de alta velocidade. Foi usado pela SNCF desde os anos 1980 para designar ao novo sistema.
  • Onde escrevemos TGV, o nosso crítico prefere inscrever rede de alta velocidade em bitola UIC (ou ferrovia, em vez de alta velocidade, o que seria inadequado no referente às comunicações de e com os comboios em movimento, pois estas têm a ver com a alta velocidade e não com a bitola). Por certo para marcar a diferença com o passado. Mas o problema geo-estratégico e económico-financeiro em cima da mesa é idêntico ao do debate que historicamente ficou marcado como sendo o do TGV.

Examinemos de seguida ponto a ponto as críticas do Eng. Pompeu dos Santos, no seu aspeto substancial:

  • O crítico também puxa as orelhas ao artigo criticado por tratar o nosso Pendolino de comboio de alta velocidade: só dá 250 km/hora de velocidade máxima e por isso «não é considerado» como sendo desta categoria. A sigla «alta velocidade» é gerida pela UIC, a velha Union Internationale de Chemns de Fer, sediada em Paris, A UIC define assim a alta velocidade: no relativo à velocidade mínima requerida: como sendo «250 quilómetros/hora e em alguns casos de linhas melhoradas 200 ou mesmo 220 quilómetros/hora». Como a nossa do norte é melhorada, os seus limites de velocidade parecem cumprir a norma da UIC, ainda que ela não a classifique assim. Anotemos que estes limites de velocidade são em certa medida convencionais.
  • O crítico parece concordar com os constrangimentos físicos à rede de alta velocidade quando afirmar que nas proximidades de Lisboa e Porto ela terá que se limitar aos corredores atuais. Não fomenta porém em que medida isso afetará a velocidade prometida nem o que sucederá aos comboios que não são de alta velocidade e circulam nesse troço da linha (ou aquele troço será apenas para alta velocidade?).
  • O crítico não comenta os constrangimentos sócio-políticos à exploração da alta velocidade ferroviária no nosso país e os seus efeitos para diminuir a velocidade dos comboios. Dá cinco minutos de demora por cada paragem, mas não justifica esta cronometragem, que parece referir-se apenas ao tempo para saída e entrada de passageiros, ignorando o tempo necessário para que o comboio retome a sua velocidade de cruzeiro. As afirmações do crítico assentam num mapa das eventuais linhas de alta velocidade ferroviária que é desconhecido pelo menos d’ O Economista Português.
  • O crítico não demonstra que não haja um sistema mais barato de acesso à rede europeia de alta velocidade, pelo menos para mercadorias (para pessoas, esse acesso afigura-se dispensável, graças ao avião, ao autocarro, ao automóvel e eventualmente ao navio) . Mais barato em termos de dinheiro do contribuinte e de preço do bilhete/frete do transporte.
  • Ainda sobre a velocidade prometida para a ligação Lisboa-Porto, o crítico limita-se a afirmar que ela éo que é por ter sido mal feita a renovação da linha há trinta anos. Como o futuro em geral repete o passado, devemos supor ser provável que a próxima renovação seja também mal feita. E que portanto seja reposto o problema da velocidade devido às más condições da linha.
  • O crítico não menciona estudos económicos que mostrem a rendibilidade da nossa alta velocidade nem produz uma análise custo-benefício em termos sociais. Remete para uma conferência por ele proferida a 28 de março de 2015, mas O Economista Português não teve nem tem acesso fácil a ela. Os dados fornecidos pelo crítico parecem válidos para um programa de investimentos mas não permitem reconstituir a conta de exploração previsional do eventual comboio de alta velocidade nem uma análise de custo-benefício. O crítico parece supor que a UE aceita um sistema de transporte rodoviário permanentemente subsidiado pelo Estado mas na realidade exige que elas sejam lucrativas
  • O crítico dá novo puxão de orelhas ao texto criticado oferecendo o exemplo da China para demonstrar que o TGV não é um produto do protecionismo e tem um futuro brilhante.. O crítico não reparou num pormenor essencial: o artigo criticado diagnosticava a origem do TGV na Europa e no relativo à construção de redes futuras tratava exclusivamente aos problemas portugueses e em particular às pretendidas ligações à rede europeia de alta velocidade. Esta tem condições de expansão no mundo. Em geral, O Economista Português é favorável ao reforço dos nossos caminhos de ferro e condena o seu desinvestimento mas por razões económicas é crítico das soluções que conhece de ligação àquela rede. Se estas condições económicas forem satisfeitas, nada terá contra a alta velocidade no nosso país. O exemplo chinês não colhe pois o nosso país nem tem as massas populacionais da China nem é como ela um país continental. Somos cerca de dez milhões, temos uma fronteira marítima importante. É curioso que enquanto começou a decorrer este debate, a AutoEuropa teve que enfrentar uma greve de estivadores no porto de Setúbal. Pensou em recorrer à ferrovia para os exportar para os outros países europeus (alugando vagons bi-bitola, por exemplo)? Não, mandou-os para o porto de Leixões. Porto de mar, claro.

Mais haveria a escrever sobre o tema e as teses do Engº Pompeu de Sousa. O Economista Português  agradece-os e remete-se ao essencial: as diferenças entre o artigo criticado e a sua crítica resultam por certo da diferença de perspetivas: a do nosso contestante é a de um engenheiro que pretende construir uma rede ferroviária de alta velocidade (e por isso para ele o nosso país é «”a faixa de Gaza!”» se não nos ligarmos àquela); a nossa é económico-social e pretende verificar se essa rede é a melhor forma de realizar os objetivos portugueses, comparando-a com melhorias incrementais na situação atual e, eventualmente, com recurso a outros modalidade de transporte como o navio. O que não significa que o Engº Pompeu dos Santos não tenha argumentos que favoreçam a alta velocidade comparada com outros meios de transporte.

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O Economista Português está disponível para continuar a estudar o assunto da alta velocidade ferroviária, que é um problema nacional relevante sobre o qual seria desejável que houvesse mais informação. Não pretende transformar-se num blog ferroviário., apenas acessível aos engenheiros mecatrónicos e outros especialistas da ferrovia, mas sim estudar o problema numa perspetiva económico-social rigorosa, e acessível a qualquer cidadão que queira informar-se. na eventual resposta do Engº Pompeu dos Santos, com a qual O Economista Português dará por encerrado o presente debate.

O Engº Fernando Santos e Silva compara o caminho de ferro com outros meios de transporte

MeansOfTransport

O Engº Fernando Santos e Silva compara o caminho de ferro com outros meios de transporte num interessante comentário ao artigo «TGV: O Engº Pompeu dos Santos critica post que o citava». .As comparações são técnicas, ecológicas e económicas. Para ler, role até alcançar este post e clique em comentários. Aqui chegado, tem à sua disposição o post do Engº Mario Ribeiro. Queira rolar e encontrará o artigo i9nformativo do Engº Fernando Santos e Silva.