Os Riscos do Euro

Artigo publicado no diário Público, no dia 4 de janeiro de 1999, com o título acima

O Le Monde perguntou ao governador do Banco Central Europeu, o Sr. Duisenberg, quais os riscos do euro: «não vejo nenhuns», respondeu. Além de não ter inconveniente algum, só traz bondades: crescimento económico, emprego. Ora isto é estranho. Um banqueiro central é por natureza soturno. Sabe que a inflação é o diabo, nunca desarma. Ouvir um deles optimista é tão estapafúrdio como escutar um pessimista dono de um clube de futebol.

O banqueiro optimista é apenas uma voz no coro de hossanas ao nascimento do euro. Lembra a recepção que os judeus deram ao maná. Terá chegado o paraíso? Tentemos   o exercício de ver se não corremos mesmo risco nenhum.

Sejamos generosos e não consideremos um risco termos um governador do banco central propenso à falta de realismo. Consideremos também que não é um inconveniente o euro ter já levado o Velho Continente a mudar de nome,  trocando o antigo e respeitado, Europa, por uma alcunha, Eurolândia, evidentemente pejorativa e de gosto duvidoso.

São pormenores. Passemos a coisas sérias. O euro começa. Quem começa, tem que se impor. A moeda que se impõe é a mais forte. Todos fugimos de uma divisa barata. É o contrário dos telemóveis. Imagine o que seria uma fuga ao euro. A Europa abortava. O euro tinha que ser caro para os alemães o engolirem e impor-se face ao dolar.   Por isso, as mercadorias europeias vão encarecer no mercado mundial do que as americanas ou as japonesas. Aumentará o desemprego. Este custo não custa por ser certo ao passo que o risco implica incerteza. Mas estaríamos a trocadilhar em vez de pensarmos.

Todos os Estados-membros serão afectados. Alguns, porém, sê-lo-ão mais do que outros. O esforço de adaptação a esse câmbio elevado será maior para os países em que o capital é mais escasso em relação ao trabalho. Entre os quais Portugal. Vão ter que passar rapidamente a venderem bens ou serviços com  mais tecnologia e mais valor acrescentado. Se não conseguirem, o desemprego aumentará ainda mais.

Como reagirão então? Não podem desvalorizar. Quererão aumentar o défice do orçamento para darem mais subsídios aos desempregados. Só que estão proibidos. A Alemanha impôs um «pacto de estabilidade» que impede os diferentes países de utilizarem eficazmente a arma orçamental.

Haverá manifestações de sem trabalho que estimularão movimentos racistas, tipo Front National  ou Alemanha do leste. Os governos mais atingidos irão a Bruxelas. Querem dinheiro federal para ajudarem os seus pobres, já que a federação europeia não os deixa desvalorizar nem aumentar o défice. Lá chegados, responder-lhes-ão: «O orçamento comunitário não pode ultrapassar 1,7% da riqueza criada anualmente. Governem-se».

Voltarão para casa. Cofiarão o queixo: «em Janeiro de 1999 enganámo-nos, fomos excessivamente optimistas».Gostamos do euro por ser um seguro de vida mas estamos a entrar numa grande aventura.

Anúncios