Serviço da Dívida: Pagamos o Dobro da Grécia

ZéPovinhoATrabalhar

«Para os bretões trabalhar, trabalhar», continua a ser o lema do Zé

A Grécia conseguiu  que os seus credores europeus reduzissem a 2,5% do seu PIB os juros e reembolso da dívida pública, ao passo que o nosso país paga entre 4,5% e 6%.

Na última crise da Grécia com os credores, O Economista Português anunciou que Atenas tinha conseguido dos credores o perdão de boa parte da dívida.  A nossa classe política jurou em alta grita que isso não aconteceria, os credores nunca cederiam. Nessa altura, antes  da cambalhota com os imigrantes sírios, a Sr.ª Merkel ainda era inteligente como Atena e firme como Vénus.  Nunca cederia, disse a nossa classe política, que assim justificava a sua política de cobrador de fraque.

Os credores juraram que não cediam e na realidade cederammas às ocultas. A principal cedência consistiu em o Banco Central Europeu (BCE) devolver à Grécia os juros que ela lhe pagou, se Atenas cumprir o programa de reformas.  Esta condição é apenas formal: se os gregos não cumprirem, serão escorraçados da União Europeia (UE). Outra cedência de tomo foi alargar os prazos da de reembolso da dívida grega. Tudo isto foi facilitado pois os credores da dívida grega são quase em exclusivo instituições estatais.

O problema é de atualidade. Apesar (ou por causa) destas benemerências, a Grécia está de novo à beira da bancarrota – e os seus próximos queixumes darão nova aparência de razão à inépcia e à vaidade da nossa classe política.

O governo não publica dados sobre o serviço da dívida. As estimativas acima resultam do exame dos confusos dados publicados pela Direção Geral do Orçamento, em sede de execução orçamental e referem-se apenas à dívida pública. O leitor viu ontem o debate quinzenal em S. Bento e sabe por isso como a nossa classe política está interessada em revelar estes dados aos portugueses e em equacionar os problemas reais.

Serão só os políticos a ocultarem este problema? Ninguém se lembrará de acusar a nossa corporação  dos economistas de esbanjar tempo e talento com este problema. Aquela ingenuidade e estdesinteresse são ingredientes na nossa incapacidade negocial face aos nossos credores.

Que ganhamos com a nossa subserviência? O nosso ganho é pagarmos de IRS cerca de um terço a mais do necessário se concluíssemos um acordo semelhante ao dos gregos. Que perderíamos com esse acordo? Os ortodoxos dirão: perderíamos crédito internacional e pagaríamos juros mais altos. Esta tese é pura ilusão: ainda ontem voltaram a subir os juros da nossa dívida a prazos mais longos. A nossa única perda seria os nossos políticos deixarem de ter o pêlo afagado pelos nossos credores. Por exemplo: teríamos perdido a visita do Ministro da Economia e Finanças francês, o Sr. Michel Sapin, que se deslocou a Lisboa para adular o Dr. António Costa, convidando-nos para o imaginário «pelotão da frente» de uma UE em crise de sobrevivência, e na realidade das coisas para autorizar-nos a pagar de serviço da dívida o dobro dos gregos. Em breve veremos o Sr. Jerónimo Sousa e o Doutor Francisco Louçã a ser enaltecido pela Chancelarina Merkel  por serem devedores muito sérios e honestos, substituindo nesse papel o Dr. Passos coelho. O Economista Português reconhece que tudo isto é e será uma subida honra para o nosso país. Valerá a pena?

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Dados específicos sobre os pagamentos gregos (que alguns conspiracionistas qualificam de acordo secreto) em

http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/11372369/Three-myths-about-Greeces-enormous-debt-mountain.html

 

UE: O Diretório dos Derrotados

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Na sua edição de hoje, o circunspecto, liberal e federalista Financial Times suspeita que  o debate da «Europa a várias velocidades» é o começo do fim

«A Europa ou anda a várias velocidades ou rebenta», declarou anteontem o Presidente François Hollande, chefe de Estado francês. A Europa a n velocidades é a Eutruropa do diretório, a Europa que assume descaradamente que os sonhos acabaram e é a força bruta que conta. É uma Europa de derrotados.

O primeiro derrotado é o próprio Hollande: moralmente pôs a França de pantanas; financeiramente, transformou-a no maior perigo para a estabilidade do Euro. É assim que é vista em Berlim e em Bruxelas.  O remoto sucessor de De Gaulle na antecipa-se a dizer o que julga ser do agrado de Berlim, o que (dirá) salvaguarda o seu país e (dirão outros) o ajudará a emigrar de França e encontrar um emprego… europeu.

O segundo derrotado é a Alemanha: paga 3,5 mil milhões de Euros ao Sr. Erdogan para ela a tratar de Nazi.  A ex comunista Merkel foi derrotada por esta violência simbólica e resta-lhe regressar à peluda. Já tinha perdido no leste da Ucrania, perde agra nas margens do Bósforo – e no seu próprio território, invadido pela propaganda de Erdoganda. Derrotada enfin nas eleições dos Estados Unidos, que não aceitarão a continuação dos gigantescos excedentes comerciais que são a única ideia estratégica de Berlim dos nossos dias.

O terceiro derrotado é a burocracia comunitária: combatem  o que consideram a falta de democracia na Polónia, são afrontadas pela Hungria que restabeleceu os campos de concentração para os que pedem asilo.

O quarto derrotado é a classe dirigente continental europeia: empurrou o Reino Unido para a rua, convencida que ia reforçar o federalismo assimétrico, à prussiana,  hostilizou os eslavos, desprezou o Estado-Nação e encontra-se à beira da rotura. Acusou Trump de querer dividir a Europa. Ninguém divide a Europa tão bem como a classe dirigente europeia.

A cimeira europeia de 25 de março, em Roma, era suposta delinear um futuro radioso pós Brexist e esboçará por certo a estratégia do levantar da feira federalista.

Formação da mão de obra: Parabéns (condicionais) ao Dr. António Costa

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«Parece fabricada por um português com ensino secundário», cogita o Sr. Primeiro Ministro

O nosso «maior défice estrutural» é «o défice das qualificações», disse ontem o Dr. António Costa  ao apresentar o Portalegre, o programa Qualifica, para a educação e formação de adultos.

O Economista Português  já criticou o Sr Primeiro Ministro por falar irenicamente da competência da população ativa portuguesa, sugerindo ser ela tão sábia que estávamos em condições de exorcizar um fantasma da nossa classe política, «o modelo de crescimento assente em baixos salários». Hoje O Economista Português  cumprimenta-o por produzir um diagnóstico acertado da nossa triste realidade no campo da formação profissional.

Este elogio, porém, é condicionado.  São três as condições:

  • Como associará os empresários à necessária formação? Ou ela será apenas escolar?
  • Terá o Governo a necessária ambição? Até 2020, o Qualifica propõe-se formar por ano menos de 4% da nossa decrescente população ativa. É insuficiente. Ao mesmo tempo, o Governo divulgou outra meta (metade da população ativa a concluir o secundário em 2020) que parece mais ambiciosa e contraditória com a anterior. Em que ficamos?
  • Tem o Governo consciência que a formação da mão de obra é um dos poucos processos protecionistas internacionalmente autorizados e por isso um dos poucos meios de auxiliar quem queira produzir em Portugal em ramos de atividade de alto valor acrescentado e para os quais não beneficiamos de vantagens comparativas?

Supervisão Bancária: O Economista Português foi severo demais no caso Carlos Albuquerque?

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Há dias, O Economista Português verberou o caso do Dr. Carlos Albuquerque porque passara de regulador da banca, no Banco de Portugal, para regulado na CGD, após um futuro período de nojo de apenas seis meses. Um banqueiro comunicou privadamente a’ O Economista que julgava excessiva essa severidade.

O Economista Português julga pelo contrário que foi benevolente em excesso. Com efeito, a condenação referia-se apenas à possibilidade de o referido cidadão passar os segredos técnicos do regulador para o regulado. E omitia outro aspeto da regulação bancária: a regulação moral  que reveste uma dimensão complicada, por é-lhe inerente a proibição do exercício de uma atividade profissional. Com efeito, o Banco de Portugal e os seus funcionários são os sumos sacerdotes  faraónicos do acesso à atividade bancária: tem o direito de impedir o leitor de ser banqueiro (se o leitor estiver nisso interessado) ou o de impedir que um dado cidadão banqueiro continue a exercer essa profissão.  Ora o exercício destes poderes sacerdotais exige não só que a mulher de César seja séria mas também que pareça sê-lo. Saltar do regulador para o regulado mostra que o regulador não queria regular, queria regular-se ou mesmo ser regulado. Falta por isso a quem o nomeou, e ao próprio, um requisito mínimo para o exercício dessa função reguladora, ou supervisionante . No caso do Dr. Albuquerque, este conhecimento é apenas retroativo. Vale mais tarde do que nunca

Banca e Regulador Bancário: O Incesto

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Regulação prudencial da Banca: a «nudez forte» da verdade resiste ao «manto diáfano da fantasia», como ensinou Eça de Queiroz

Luís Costa Ferreira dirigiu o departamento de regulação ou supervisão prudencial do BdP (Banco de Portugal). Foi pessoalmente  responsável durante a crise do BES. A seu tempo saíu para a PwC, na elevada posição de «partner», empresa de boa parte da nossa banca de auditoria e do BdP quando Ferreira supervisionava. Foi substituído por Carlos Albuquerque, antigo funcionário de um banco por ele fiscalizado e, já experiente a protagonizar a fusão regulador/regulado, passa agora a administrador da CGD. Luís Costa Ferreira regressa ao mesmo cargo no BdP. Estes e outros factos pertinentes são relatados num estes factos são relatados num texto inteligente, competente  e corajoso de Bruno Faria Lopes

A regulação prudencial vela pela isenção deontológica dos gestores dos bancos, de modo a evitar as falências deles. Os contribuintes portugueses conhecem o êxito do BdP nestas funções.  Mas uma regulação em que os regulados são os reguladores não é regulação alguma. É um simples caso de moral hazard que se ensina nas Universidades portuguesas. Este «risco moral» ocorre quando alguém toma riscos excessivos por saber que outros pagam os custos. Os nossos reguladores da banca correm o risco de deixar falir os bancos pois pois sabem que não são eles quem paga mas simé o contribuinte.

O BdP impôs um período de transição a Albuquerque. Serão seis meses. Alguém acredita que o regulador mudará os seus processos em seis meses de modo a que o Albuquerque recauchutado os não conheça? Este período de fantasiado nojo não impedirá o novo regulador/regulado de levar com ele  o know how  do regulador para o regulado. É o aluno que conhece o questionário antes do exame e assim com mais facilidade engana o examinador. É o «manto diáfano da fantasia» a apontar pelo impudor a nudez forte da verdade: regulador e regulado não só pertencem ao mesmo segmento do mercado de emprego como são as mesmas pessoas fisicamente consideradas. Dada a pequenez do segmento, regulado e regulador são oriundos do mesmo meio social, o que acrescenta uma dimensão de incesto social à de incesto biológico da supervisão prudencial da nossa banca.

O Economista Português sabe que não há rapazes maus, pois não esqueceu a grande lição do Padre Américo.  Mas «quem parte e reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo ou não tem arte». Quem parte e reparte é o regulador.  A presunção de inocência pessoal vai de mãos dadas com a presunção de corrupção institucional. A verdade é simples: o poder do Estado, que nos obriga a aceitar a supervisão prudencial, serve apenas para manter a corrupção institucional. Como Faria Lopes refere, partidos políticos, sindicatos, mass media acham esta situação tão normal que quase nem a referem e muito menos a condenam. Quando chegar a ocasião e as instituições que felizmente nos regem, cheias da dignidade que sempre vestem nestas ocasiões,  mandarem o leitor pagar, os homens do «risco moral» não se queixarão.

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O artigo de Bruno Faria Lopes está à disposição do disposição no link seguinte:

http://www.jornaldenegocios.pt/opiniao/colunistas/bruno-faria-lopes/detalhe/portas-giratorias-no-pais-da-impunidade?ref=HP_Destaqueopiniao4

Para saber um pouco mais sobre «moral hazard» http://economictimes.indiatimes.com/definition/moral-hazard

Imigração: o nosso Muro do México é o Mediterrâneo

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O Presidente Trump não precisaria de construir um muro se o Mediterrâneo separasse o México dos Estados Unidos. A UE não tem autoridade moral para criticar os Estados Unidos na questão dos imigrantes

O Economista Português ouviu a chancelarina Merkel criticar os Estados Unidos por não respeitarem os direitos humanos no campo da imigração, contrapondo-os à política da União Europeia (UE) face aos imigrantes. Anteontem era um obscuro ministro de um antigo país pesqueiro, há anos transformado em emirato nórdico do petróleo, que acusava os Estados Unidos de não estarem à altura dos «padrões» morais do emirato pós luterano. Os nórdicos rirem pouco, o ministrozinho boneco acusava sem se rir, o que dava à cena noticiosa uma irresistível e triste comicidade.

A política da UE face aos imigrantes é igual ou pior à do Presidente Trump. O muro de Trump chama-se Mediterrâneo e lá morrem todos o dias muitos candidatos à imigração ilegal para a UE porque a UE não imigração legal – criou a fantasia de só acolher refugiados políticos. A metáfora mediterrânica aplica-se tanto à imigração mexicana  (aliás mais económica do que demográfica) e à suspensação da imigração proveniente de oito países.

O Economista Português gostava de ver a Sr.^ª Merkel e o Sr. do emirato nórdico a contarem as suas larachas dos direitos humanos europeus  num mercado africano ou asiático. Veriam como eram corridos.  A Sr.ª Merkel aprendeu no comunismo alemão que o nazismo nunca tinha existido e, como o emir nórdico., atribuiu-se a boa consciência que os mass media do regime UE debitam todo o tempo. O nazismo não existiu, o colonialismo é uma invenção leninista. O próprio fato de ser possível esta intoxicação alemã mostra quão baixo caiu a opinião pública europeia.  Os bapas portugueses dão-lhes por cá entusiástica sequência, à esquerda e à direita  (Bapas = BAtedores de PAlmaS aos nossos queridos credores).

A UE apenas tem uma política securitária face à imigração. Depois que os italianos se recusaram causar um massacre naval no Mediterrâneo, a Alemanha decidiu à tardia imposição de cláusulas de retorno de imigrates aos países beneficiários de ajuda da UE e substituir a aliança com os Estados Unidos pela compra de dois vassalos disfarçados, A Turquia e Marrocos. Marrocos, mais decente do que os otomanos, substitui a Líbia (tenta substituir, veremos se consegue). Esta política lembra a de Roma, ao comprar as tribús invasoras mais dóceis, e durará pouco.  A UE esquece-se de promover o desenvolvimento económico nos países pobres, de onde vem a imigração, mitifica o conflito síroo (que ela própria alimentou) e olvida que os imigrantes, além de carteira, têm alma.

O Economista Português continua a defender uma política de colaboração  económica, social, política e militar entre a UE e os Estados do Sul, quer os de África, quer os da América. O Economista Português  defende  que a UE proponha um Plano Marshall para o Sul, para usar a expressão a que os mass media do regime lançam mão nos momentos da sua maior elevação espiritual. Devemos também propor-lhe uma NATO contra o terrorismo, islâmico e não só.  Talvez ainda vamos a tempo de evitar a guerra convencional na «ocidental praia lusitana». Mas a Srª Merkel prefere estender a UE ao Donetz, para experimentar na carne dos seus cidadãos se os carros de combate russos são tão resistentes como parecem. Ninguém na UE enfrenta a antiga comunista que hoje manipula o eleitorado alemão para evitar a derrota e sabe Deus que mnais  A França deixou de ser um país mas hoje é apenas uma designação geográfica. A Itália trata dos secos e molhados. Ninguém leva a sério a Espanha, ao que parece nem ela própria. O Reino Unido percebeu o saco de lacraus em que tinha caído e foi à vida, para ser ela a escolher as suas guerras. O resto da UE aspira ao elevado estatuto de Bapa ou prepara à socapa com o Presidente Trump uma saída rápida (a UE quer apresentar uma fatura alta a Londres para não ter que salgar a contribuição da Europa de Leste). Qual será o melhor caminho? Os nossos Bapas continuarão a apoiar o alargamento da UE para o Donetz e a esquecer o resto do mundo que (outr)os portugueses criaram?

Economia mundial: O Capitalismo de Mercado declara a Guerra ao Capitalismo de Estado

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mapa atual do capitalismo de Estado lembra o da época do pacto germano-soviético (1939-1940)

Tentemos pensar o mundo de hoje, para lá dos insultos  dirigidos ao Sr. Trump. Procuremos alguma inteligibilidade  no espetáculo pré apocalíptico que as televisões nos dão da economia e da política mundiais.  Há uma luta pela economia mundial.  O cerne dessa luta é a definição das regras  básicas de funcionamento da economia.  Essa luta centra-se hoje entre um capitalismo de mercado e um capitalismo de Estado. O capitalismo de mercado reduz ao mínimo as regulamentações estatais da economia, minimiza o papel do Estado e da banca formal no financiamento, diz aos empresários para irem às bolsas (aos mercados) para obterem dos particulares os financiamentos de que necessitam. O capitalismo de Estado assenta em muitas regulamentações, impostos pesados, socialização estatal da instrução formal, dos cuidados de saúde e das pensões de reforma. O leitor já adivinhou: a eleição do Presidente Trump é a declaração de guerra do capitalismo de mercado ao capitalismo de Estado.

Este breve retrato permite compreender alguns movimentos do mundo de hoje.  Ele assenta como uma luva ao Brexit e à emergência do Sr. Trump: os anglo-saxónicos  preferem o capitalismo de mercado, o continente europeu escolhe, continua a escolher, o capitalismo de Estado. É curioso que esta opção engloba tanto os países da União Europeia como a Rússia. Esta comunhão é escondida pela propaganda contra a Rússia, que hoje domina o «politicamente correto» dos mass media oficiosos na Europa.

E no resto do mundo? A China realiza o sonho marxista da «economia socialista de mercado». Foi teorizada por homens como o polaco Oscar Lange (1904-1955) e praticado por Lenine na Rússia no breve período de Nova Economia Política (NEP), no começo dos anos 1920, quando foram toleradas as empresas privadas, mas  Staline rejeitou-o e impôs aos socialistas a economia centralizada e planificada, de comando único.  A China parece querer uma NEP que dure muito tempo,  mas sem prazo definido. Na realidade, sabemos pouco do que se passa no Império do Meio. A imagem que ele projeta é a de um capitalismo liberal, aparentemente de mercado. Será assim? Acabamos de ver o exército vermelho aliar-se aos sindicatos sínicos para proibir a autoritariamente a emigração dos camponeses chineses para as cidades, o que causava uma baixa permanente dos salários e por isso causava tensão social e desagradava aos sindicalistas. A China começou então a investir em países asiáticos de mão de obra barata, como o Vietname. Uma das consequências práticas desta política é o terem sido substituídos por nepaleses os empregados chineses do restaurante chinês em Lisboa favorito d’ O Economista Português. O modelo de mercado na economia e autocracia  na política parece submetido a constante desequilíbrio e por isso o provável é a China aproximar-se do modelo de capitalismo de Estado, vigente no resto do continente eurasiático, de Lisboa a Xangai, passando por Berlim e Moscovo. Se a procura externa cair brutalmente, Pequim talvez recaia  na economia de comando central.

Mal cabem no presente texto outro países e economias.  A Índia parece aproximar-se do capitalismo de mercado, enquanto o México, o Brasil, a Argentina, a África do Sul, a Nigéria, Angola hesitam entre ambos os modelos. O que fica escrito por memória.

É inesperado este regresso do capitalismo (de mercado) ao seu papel tradicional de motor da história. Mais facilmente suporíamos que a economia mundial seria atravessada pela união dos países ricos contra os pobres ou dos países capitalistas contra os socialistas. Ou à maneira de Samuel Huntington pela guerra das civilizações, com uma forte carga religiosa. Estas dimensões existem, ao lado e para lá da frieza mecânica da noção de capitalismo. Mas centrais na marcha do mundo são as duas modalidades de capitalismo: elas são inconciliáveis, pois o de Estado requer uma organização social dominando o indivíduo e o de mercado exige um indivíduo dominando a organização social.

O leitor repare que não tratamos de ideologias incarnadas em partidos ou Estados: nenhum partido defende o capitalismo de Estado, nenhum país se afirma como arauto do capitalismo de mercado. Analisamos  organizações sociais, hoje alheias à dinâmica das religiões seculares prevalecentes no século passado.